quarta-feira, 10 de junho de 2026

Análise | Dia D (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Mais ou menos pela metade de Dia D, retorno à ficção científica do mestre Steven Spielberg, uma sequência de ação intrincada envolvendo um trem me trouxe à tona um reconhecimento imediato: “rapaz, isso é muito Caçadores da Arca Perdida”. Pouco depois, uma cena de tom bastante diverso, mais melodramático, evocaria as notas mais melosas de Inteligência Artificial e Império do Sol. Uma perseguição de carro iria lembrar a construção de tensão em Tubarão e Encurralado. E, então, quando seletos seres humanos se conectam em um nível praticamente espiritual com a vida extraterrestre, sob os acordes de uma trilha-sonora emotiva, tive de rememorar momentos similares em E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Esta sensação de familiaridade, às vezes até de déjà vu, percorre o novo filme do veterano diretor como atestado tanto da coerência estilística e temática quanto da notabilidade de sua filmografia, tão imitada até hoje.

Por outro lado, se Dia D prova em vários sentidos ser um filme de Steven Spielberg, isto inclui também as inconstâncias e os aspectos menos elogiáveis da sua assinatura. Os problemas existem em algum nível desde o começo da carreira: a pieguice, os diálogos cafonas, o maniqueísmo, a previsibilidade estrutural, a superficialidade política (como agravante, ele é um dos diretores mais “americanocêntricos” que eu conheço). A questão no caso é o equilíbrio: até que ponto estas fraquezas interferem no resultado final? Em certos casos, como Munique e A Lista de Schindler, os defeitos estão quase imperceptíveis. Ou incomodam pouco, ou não soam desarmônicos; as qualidades cinematográficas, que no caso de Spielberg são predominantemente de imagem e montagem, servem de compensação suficiente. Em Dia D, lamento dizer, os vícios me pareceram bem mais salientes do que as virtudes. Enquanto os créditos finais rolavam, a parte de mim que estava feliz por ver um novo filme de Steven Spielberg entrou em uma queda de braço psíquica com a parte que cogitava se não seria a hora do cineasta começar a considerar a aposentadoria. Minha metade cínica ganhou, o que é efeito dissonante depois de assistir a um filme de alma tão otimista. 

Aviso que vem spoiler por aí, caso você ligue pra isso. Seria esta resenha um disclosure review?

Dia D (no original, Disclosure Day) trata de uma batalha entre dois grupos de indivíduos pela destinação de informações altamente sigilosas do governo estadunidense, mantidas sob o poder da “ONG” Wardex e referentes à presença de vida alienígena na Terra. No filme, a tal Wardex, sob o comando de Noah (Colin Firth), tenta reaver cópias sensíveis de dados acumulados por décadas sobre o contato de autoridades nacionais com aliens, afanadas pelo especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O’Connor) com o propósito de torná-las públicas. De posse de tecnologia alienígena e de algumas habilidades inexplicáveis, que parecem provir de uma ligação especial com os extraterrestres, Daniel ainda é apoiado por uma rede secreta que luta pela publicização destas informações, liderada por um ex-Wardex, Hugo (Colman Domingo). No Kansas, a jornalista meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt), depois de um encontro enigmático com um pássaro, parece estar se tornando uma espécie de canal ou emissária – obviamente, tinha de ser uma jornalista de emissora dos Estados Unidos – de uma inteligência alienígena superior, o que lhe confere presciência e uma capacidade quase onisciente de conhecer os sentimentos e as memórias dos outros. Tudo isso transcorre enquanto a humanidade – isto é, os Estados Unidos, que sempre são os eleitos ou nossos representantes mais importantes – vê pairar de modo palpável a ameaça do mais caótico dos cenários, infelizmente bastante realista, em uma escalada de tensão com a Coreia do Norte que pode acarretar a Terceira Guerra Mundial. Talvez conhecer enfim os ETs, e de preferência a sua legítima mensagem para nós, seja a única maneira de pôr freios na marcha beligerante e destrutiva dos terráqueos.

Como de praxe, Spielberg aposta em um alien ex machina. A utopia de forças externas superiores dirimindo os problemas da humanidade não dá o ar de sua graça pela primeira vez na sua filmografia – talvez seja uma saída muito mais factível para Spielberg do que, não sei, uma distribuição de renda mais justa ou uma reestruturação global dos sistemas financeiros? Em que pese o caratér fantasioso (muito conveniente, portanto) de suas soluções, vaga performance de uma abstrata empatia, confesso que é tocante ainda assim observar o seu humanismo propositivo resistindo a todos esses anos. Spielberg, que já dirigiu premiados filmes sobre guerra e barbárie, quer ter fé na humanidade até o fimNão, isso não suaviza o incômodo de que ele tenha se mantido, por outro lado, tão simplista, tão fechado em um estreito horizonte ideológico

Os Estados Unidos, como eu disse, são tratados mais uma vez como centro inconteste do mundo. Os “campeões” da humanidade só poderiam ter sido sorteados lá; assim como somente o governo dos EUA, durante anos a fio, poderia ter mantido contato com os alienígenas. Dia D arrisca alguns comentários políticos com uma ingenuidade que poderia se revelar mais perigosa, caso Spielberg não martelasse o pacifismo conciliador de seu posicionamento. A Terceira Guerra Mundial, no filme, ameaça ser deflagrada a partir de uma crise entre Coreia do Norte e EUA. Um cenário crível, mas um tanto desatualizado, não? Seria esperar muito de Spielberg que ele cutucasse o vespeiro das guerras no Oriente Médio. O diretor sempre preferiu os vilões fáceis: tubarões insaciáveis, psicopatas sem rosto, nazistas, soviéticos, tiranossauros e até as nações violentas de extraterrestres em sua adaptação de Guerra dos Mundos. Na atual conjuntura internacional, além disso, pega muito mal que o futuro da humanidade caiba exclusivamente às mãos de norte-americanos; aliás, principalmente às de um homem e de uma mulher de classe média.

Pontuaria, entretanto, que mesmo sem ter a coragem política de assumir que o seu novo filme retrata, sob o disfarce de nomenclaturas ficcionais, o conflito entre um grupo subversivo e um braço do governo, Steven Spielberg reforça de várias maneiras que Dia D não é uma propaganda nacionalista. E isto o torna ainda mais “americano”, em um sentido liberal, pois leva às verdadeiras consequências o “of the people, by the people, for the people” da Constituição dos Estados Unidos; ou seja, reconhecendo que os direitos do sujeito comum, inclusive à informação, não podem se dobrar a prerrogativas autoritárias do Estado. Faz todo sentido que o Disclosure Day seja, enquanto reafirmação destes ideais constitucionais, um novo Independence Day (a data histórica, não o filme-desastre do Roland Emmerich, por favor).

Também me surpreendeu a carga alegórica de algumas das imagens de arquivo contendo experiências realizadas em alienígenas pelo governo dos EUA – que remetem, criando um efeito inesperado, à iconografia violenta do holocausto (e taí um tema que nunca é tratado de modo irresponsável ou gratuito no cinema de Spielberg). Em tempos de ICE, se o alien é um imigrante, ele tem chances triplicadas de virar vítima. Outra coisa que o filme sub-repticiamente advoga, sem transformar isto declaradamente em tema, mas de qualquer jeito notável em tempos de inteligência artificial e fake news: a credibilidade da imprensa. Aliás, a internet não é o instrumento para a grande revelação, mas a TV tradicional. Do contrário, o filme teria acabado em vinte minutos.

É preciso sublinhar o ridículo de determinados trechos do roteiro. O “poder da empatia” da forma que ele é apresentado neste longa, como uma espécie de capacidade literal de Margaret, visa comover os espectadores, mas é prejudicado pelo abuso constante da inverossimilhança. Destaco a sequência em que Margaret escapa de uma base fortemente armada da Wardex só por olhar nos olhos dos soldados, fazendo-os rememorar seus entes queridos. A cena pretende (eu acho?) nos tocar, mas o exagero da trilha-sonora e a coreografia sem naturalidade dos personagens me deixaram constrangido. O roteiro também não sabe muito bem o que quer fazer com boa parte do seu qualificado elenco, desperdiçando em especial os bons atores Wyatt Russell e Eve Hewson.

A propósito, a personagem de Hewson, Jane, namorada de Daniel e ex-noviça, é um dos pontos de contato do filme com o debate teológico, místico, em torno da existência alienígena. Sim, esta areia é movediça. Conversando por telefone com uma freira que não enxerga contradição entre Deus e a vida fora da Terra, Jane ouve o seguinte dela: “você não perdeu a fé em Deus; você perdeu a fé na humanidade”. Claro, esta necessidade de fé na humanidade talvez sintetize o ponto mais importante da ideologia de Spielberg. Porém, uma provocação sadia ao mestre: sendo judeu, sionista, etc., por que não usar um rabino no lugar de uma freira?

Depois de ver parte dos vídeos secretos da Wardex, Jane compartilha com Daniel o seu medo, profundamente cristão, de testemunhar a fé humana e os sistemas de crença tradicionais sendo irreversivelmente afetados pela descoberta de vida fora do planeta (olha, desculpa aí, mas é pensando assim que as guerras santas começam, é só substituir os ETs por muçulmanos…). Considerando que os vídeos que ela assistiu consistiam em alienígenas de um metro de altura berrando de dor enquanto eram implacavelmente torturados sob o olhar de um Richard Nixon meio bêbado, eu suponho que ela estava imaginando outra religião com mártires? Em uma cena posterior, Margaret insiste que não deseja “virar religião”, uma passagem que tem certa força – e aí, uns dez minutos depois, no flashback em que são reveladas as abduções “do bem” (tem outro nome para isso?) feitas pelos aliens em seus dois “escolhidos”, Spielberg de fato os compara simbolicamente, por conta de suas avançadas e incompreensíveis tecnologias de comunicação e manipulação de matéria e tempo, a seres de uma ordem angelical superior. Por aproximação, Margaret e Daniel também são meio que “santificados”. Interpretação cética: os aliens são colonizadores “do bem” e Dia D é uma sequência moderna de O Caminho para El Dorado. Ué, foi produzido pela DreamWorks.

Haveria a oportunidade de tocar em assuntos mais relevantes, mas o filme realmente preferiu se especializar em driblar vespeiros. Faltou coragem para debater o fundamentalismo religioso, hein? Que é, inclusive, um dos legítimos financiadores da barbárie no mundo. A Coreia do Norte tem estado relativamente “no seu canto”: Kim Jong-un está mais preocupado em atender os pedidos de Natal da filha com brinquedos balísticos. É o presidente dos EUA que faz declarações sobre aniquilar civilizações inteiras e se compara com Jesus Cristo em rede social.

Bom, falemos do que funciona. É um filme do Spielberg, ou seja, no mínimo correto em todos os aspectos técnicos. Os movimentos exímios de câmera e a clareza da montagem, tanto nas cenas de ação agitadas quanto nas instâncias mais contemplativas, revelam a mão segura de um antigo artesão do cinema com amplo conhecimento dos recursos de seu ofício. A câmera gosta de trabalhar com Spielberg, pois sabe que será bem tratada. Ainda mais quando ela está também às ordens de um parceiro de longa data, o diretor de fotografia polonês Janusz Kamiński, cuja perícia (que já lhe rendeu prêmios no Oscar e em Cannes) dispensa comentários. O design de som também é coisa fina, como sempre. Os efeitos, por sua vez, deixam a desejar na textura e no movimento tanto dos aliens quanto dos animais terráqueos. Para ser honesto, o E.T. animatrônico de 1982 me parece mais convincente do que os digitais de Dia D. Eu realmente espero que Spielberg não tenha usado IA, mas seria uma explicação verossímil para a baixa qualidade do CGI.

Havendo oportunidade de elogiar o elenco, apesar dos já lamentados desperdícios, daria destaque para o trabalho de Colin Firth, que mistura com sensibilidade o cansaço triste e a raiva submersa do enlutado Noah – antagonista que, assim como o homônimo bíblico, pretende abrigar a humanidade em uma “arca” de desinformação contra o “dilúvio” que a difusão dos arquivos teria o risco de desdobrar. Emily Blunt e Josh O’Connor também estão muito bem nos papéis principais, o que apenas condiz com a qualidade rotineira das suas atuações, e o sempre ótimo Colman Domingo também faz uma participação bonita.

Eu queria retificar algo que escrevi há alguns parágrafos: disse, e era verdade, que minha metade cínica havia triunfado sobre a mais otimista e que acreditava, portanto, que Spielberg deveria logo se aposentar. Após um curto intervalo de reflexão, até durante a escrita desta resenha, eu mudei de ideia. A verdade é que a mensagem de Spielberg talvez tenha levado um tempo para me atingir, mas, assim como uma ideia sutilmente implantada por um alien em uma abdução, ela acabou me pegando. Talvez pelo cansaço? Talvez pelo respeito ao mestre? Talvez pelas luzes não identificadas que vi mais cedo da janela? Não importa. Fica registrado o meu desejo de que Steven Spielberg faça ainda muitos filmes. Torço apenas para que sejam melhores e mais ousados do que este.


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