Por Gabriel Costa Resende
O amor romântico é uma experiência universal, mas não é para
todos. Peço desculpas pelo incipit polêmico e meio
paradoxal, mas é preciso dizê-lo com clareza. Amar, enquanto
iteração possível de sua idealização histórica e estética, não
é um verbo que será realmente performado por todo ser humano. Ao
mesmo tempo, todo ser humano precisa lidar com a sua onipresença
enquanto signo. O amor e suas representações são nosso tema
preferido desde que o primeiro poeta decidiu brincar com a linguagem.
Enquanto isso, na prática, no empirismo do dia a dia, em muitos (não
todos!) casos de pessoas que se “amam”, o apagamento gradual ou a
degeneração em outras emoções, muito distantes do ideal de amor
alimentado por suas antigas construções simbólicas, será o
argumento eventual de que o que se imaginava como amor era, de fato,
apenas um efeito de imaginação, um logro dos nossos desejos. Em
estruturas sociais inerentemente hierárquicas, o amor é complicado
pelo narcisismo e pelo poder, pelo amor ao poder, provavelmente um
dos maiores algozes do bem-estar humano (que o digam as mulheres, as
que mais sofreram e sofrem com este “embaraço” politicamente
orientado). As formas clássicas de amor, se quisermos nos aprofundar
um pouco mais em um leve cinismo, são em seu coração um
dispositivo de “aculturação” de uma função dada como
natural/instintiva da humanidade – o que efetivamente se realiza
com o amor "cultural" é o deslocamento de um sentimento
animal para um lugar privilegiado no lógos ou no imaginário,
isto é, implicando sempre um determinado imaginário e um
determinado controle desse imaginário. Por exemplo: na atual
conjuntura daquilo que Fisher chama de estágio do "realismo capitalista", em que a imaginação já foi sequestrada pelo mercado, o amor é,
mais do que qualquer coisa, uma das commodities básicas de
uma agressiva indústria do desejo. Com a sua comoditização, também
é esperada a sua ampla disponibilidade – sabemos em nosso íntimo que as coisas, como em todo
o terreno do sentimental, não podem ou não deveriam ser tão práticas.