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O amor romântico é uma experiência universal, mas não é para todos. Peço desculpas pelo incipit polêmico e meio paradoxal, mas é preciso dizê-lo com clareza. Amar, enquanto iteração possível de sua idealização histórica e estética, não é um verbo que será realmente performado por todo ser humano. Ao mesmo tempo, todo ser humano precisa lidar com a sua onipresença enquanto signo. O amor e suas representações são nosso tema preferido desde que o primeiro poeta decidiu brincar com a linguagem. Enquanto isso, na prática, no empirismo do dia a dia, em muitos (não todos!) casos de pessoas que se “amam”, o apagamento gradual ou a degeneração em outras emoções, muito distantes do ideal de amor alimentado por suas antigas construções simbólicas, será o argumento eventual de que o que se imaginava como amor era, de fato, apenas um efeito de imaginação, um logro dos nossos desejos. Em estruturas sociais inerentemente hierárquicas, o amor é complicado pelo narcisismo e pelo poder, pelo amor ao poder, provavelmente um dos maiores algozes do bem-estar humano (que o digam as mulheres, as que mais sofreram e sofrem com este “embaraço” politicamente orientado). As formas clássicas de amor, se quisermos nos aprofundar um pouco mais em um leve cinismo, são em seu coração um dispositivo de “aculturação” de uma função dada como natural/instintiva da humanidade – o que efetivamente se realiza com o amor "cultural" é o deslocamento de um sentimento animal para um lugar privilegiado no lógos ou no imaginário, isto é, implicando sempre um determinado imaginário e um determinado controle desse imaginário. Por exemplo: na atual conjuntura daquilo que Fisher chama de estágio do "realismo capitalista", em que a imaginação já foi sequestrada pelo mercado, o amor é, mais do que qualquer coisa, uma das commodities básicas de uma agressiva indústria do desejo. Com a sua comoditização, também é esperada a sua ampla disponibilidade – sabemos em nosso íntimo que as coisas, como em todo o terreno do sentimental, não podem ou não deveriam ser tão práticas.





