terça-feira, 28 de abril de 2026

Análise | O Diabo Veste Prada 2 (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Anos depois de sua experiência agridoce na redação da Runway, maior revista de moda dos EUA, a jornalista laureada Andy Sachs (Anne Hathaway), após ser recontratada como editora pelo CEO do grupo proprietário da revista, que enfrenta uma crise de imagem, reencontra a antiga chefe dos primórdios de sua carreira, Miranda Priestly (Meryl Streep). A confiança adquirida com o sucesso profissional vacila quase imediatamente diante do ícone: a mulher competente e inteligente regride por um instante àquela menina recém-formada ansiando por validação. Pode-se dizer que há um aspecto psicológico em jogo. Afinal, Miranda se notabilizava pelo rigor e pela exigência, no mundo já inóspito das revistas de moda, em proporção que beirava ou ultrapassava o assédio moral. As cicatrizes de um ambiente de trabalho tóxico, transformadas em trauma, podem nunca realmente curar – poucos ambientes imaginários podem se igualar ao infernal das assimetrias abusivas e das diferenças inconciliáveis de um escritório. Contudo, reduzir a reação de Andy a esta impressão seria uma meia cegueira, pois ignoraria que, mais do que o assombro do fantasma de antigos conflitos, o que realmente emana da jornalista veterana é um sentimento de profunda reverência.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Análise | A Maldição da Múmia (2026)


Por Gabriel Costa Resende

A Maldição da Múmia (no original, Lee Cronin’s The Mummy) faz pensar em um dilema antigo do cinema de horror, qual seja: o objetivo prioritário do gênero é mesmo causar medo, inspirar terror? Neste caso, se os efeitos de medo fossem obtidos às custas de coerência narrativa, sensibilidade estética e ética, sofisticação temática, qualidade técnica, o filme hipotético que cumprisse esta função precípua (causar choque/repugnância/medo) poderia continuar sendo considerado bem-sucedido, ainda que a obediência a uma diretriz básica fosse a sua única virtude?

Se a resposta a esse questionamento for positiva, A Maldição da Múmia não é um mau filme. Terceiro longa-metragem do irlandês Lee Cronin, que ostenta sua assinatura no título original (o que é um tanto esquisito, já que a sua carreira é curta e, mesmo que interessante, pouco expressiva – falarei disso mais adiante), há aqui uma compreensão profunda da gramática básica do gênero. O design de som inquietante, a construção de tensão nas sequências de medo e susto, o enquadramento claustrofóbico, a paleta de cores mórbida: um filme de horror que faça bom uso destes recursos, na verdade, é bicho mais raro do que parece. A presença do feijão com arroz bem cozido, e bem servido, é com frequência o suficiente para nos surpreender em matéria de cinema de horror. Filmes igualmente corretos, como o recente O Primata, destacam-se do joio de tentativas fracassadas simplesmente por mobilizarem com mão segura um repertório básico.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Análise | Impetigore - Herança Maldita (2019)

Impetigore - pôster


O que há de mais cativante em uma considerável parcela do terror asiático são os desdobramentos executados pela narrativa por meio de três frentes muito marcantes: a maldição sobrenatural; a investigação dos porquês da existência dessa maldição; a revelação do drama seguida da resolução do problema. Nota-se que, à luz desse molde, que segue mais ou menos essa sequência que evidenciamos há pouco, o horror é o que choca inicialmente, mas conforme a investigação revela as origens sinistras que assolam algo ou alguém, quem passa a chocar mais é o drama.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Análise | O Poço e o Pêndulo (1842)

O poço e o pêndulo - Harry Clarke


O Poço e o Pêndulo (1842) é uma das narrativas mais geniais de Edgar Allan Poe, mestre dos contos de suspense e de horror, que em mais ou menos quarenta anos de vida (1809-1849) construiu uma bibliografia vasta e recheada de obras-primas. Esse texto do autor estadunidense é cheio de elementos instigantes, com destaque, é claro, para aqueles que provocam uma atmosfera de medo, pautada, sobretudo, pela tentativa de o narrador-personagem entender a sua real condição.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Análise | Planeta Fantástico (1973)

Planeta Fantástico - 1973


Na primeira cena de Planeta Fantástico (1973), filme mais renomado do realizador francês René Laloux, nos deparamos com uma situação sufocante: uma mulher, em close-up, tem as suas expressões de pânico destacadas pela narrativa, e alternando com esse enquadramento, por meio de uma imagem um pouco mais panorâmica, ela é vista correndo desesperadamente, ela tenta fugir com o seu filho de colo do local onde se encontra. Nesse caso, além de correr em um terreno plano, ela tenta, dificultosamente, subir uma elevação, só que, surpreendentemente, é por três vezes impedida por um dedo azul gigante, que depois dessas três tentativas da moça chega a expulsá-la violentamente dali com um peteleco grosseiro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Especial | 40 anos de Assassinatos na Fraternidade Secreta (1982)

The House on Sorority Row

São quarenta anos desde o lançamento de Assassinatos na Fraternidade Secreta (1982), dirigido por Mark Rosman, slasher que foi violentamente esquecido ao longo das décadas, mas que acertou em cheio o coração de alguns e que, por isso, guarda até hoje certo grau de saudosismo por parte de um público selecionado. Através de uma breve pesquisa notamos um certo reconhecimento carregado pela película, sobretudo no passado: teve um orçamento, na época, de 425 mil dólares e uma receita de quase onze milhões de dólares; em 2009, ganhou um remake intitulado Pacto Secreto (2009), dirigido por Stewart Hendler. Mesmo assim, o longa-metragem de Rosman parece ter sido varrido com o tempo, é um trabalho pouco encontrado em listas mais específicas sobre filmes de suspense/terror ou até mesmo sobre slashers. A fita, contudo, tem o seu valor.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Análise | Berenice (1835)

Berenice - Edgar Allan Poe

“Berenice” (1835) pode não ser um dos contos mais famosos do mestre Edgar Allan Poe, mas é decerto um dos textos mais impressionantes do autor estadunidense em termos de iniciação, já que a obra é inaugurada com base em afirmações fortes: “A miséria é múltipla. A desgraça do mundo é multiforme” (POE, 2012, p. 191). O narrador, de imediato, agride o leitor, que já está pendido, já nas primeiras linhas, a uma atmosfera negativa e violenta.