quinta-feira, 14 de maio de 2026

Análise | Obsessão (2026)



Por Gabriel Costa Resende

O amor romântico é uma experiência universal, mas não é para todos. Peço desculpas pelo incipit polêmico e meio paradoxal, mas é preciso dizê-lo com clareza. Amar, enquanto iteração possível de sua idealização histórica e estética, não é um verbo que será realmente performado por todo ser humano. Ao mesmo tempo, todo ser humano precisa lidar com a sua onipresença enquanto signo. O amor e suas representações são nosso tema preferido desde que o primeiro poeta decidiu brincar com a linguagem. Enquanto isso, na prática, no empirismo do dia a dia, em muitos (não todos!) casos de pessoas que se “amam”, o apagamento gradual ou a degeneração em outras emoções, muito distantes do ideal de amor alimentado por suas antigas construções simbólicas, será o argumento eventual de que o que se imaginava como amor era, de fato, apenas um efeito de imaginação, um logro dos nossos desejos. Em estruturas sociais inerentemente hierárquicas, o amor é complicado pelo narcisismo e pelo poder, pelo amor ao poder, provavelmente um dos maiores algozes do bem-estar humano (que o digam as mulheres, as que mais sofreram e sofrem com este “embaraço” politicamente orientado). As formas clássicas de amor, se quisermos nos aprofundar um pouco mais em um leve cinismo, são em seu coração um dispositivo de “aculturação” de uma função dada como natural/instintiva da humanidade – o que efetivamente se realiza com o amor "cultural" é o deslocamento de um sentimento animal para um lugar privilegiado no lógos ou no imaginário, isto é, implicando sempre um determinado imaginário e um determinado controle desse imaginário. Por exemplo: na atual conjuntura daquilo que Fisher chama de estágio do "realismo capitalista", em que a imaginação já foi sequestrada pelo mercado, o amor é, mais do que qualquer coisa, uma das commodities básicas de uma agressiva indústria do desejo. Com a sua comoditização, também é esperada a sua ampla disponibilidade – sabemos em nosso íntimo que as coisas, como em todo o terreno do sentimental, não podem ou não deveriam ser tão práticas.

domingo, 3 de maio de 2026

Ensaio | Phármakon de trevas


Por Gabriel Costa Resende

É algo que talvez você devesse ignorar. Principalmente porque acha que é a única pessoa viva na casa. Na verdade, é uma dessas raras noites em que você preferiria ter a certeza de estar só. Uma cantilena baixa e insistente incomoda o seu sono. A rotina que te fez aprender a ouvir seletivamente também te condicionou a ocultar, sob motores e falatórios cotidianos, quaisquer ruídos informes, sem origem rastreável. Ruídos que talvez desde sempre estivessem lá, sorrateiros, ocultos no caos, hoje, justamente quando você presume estar só, decidiram se impor.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Análise | O Diabo Veste Prada 2 (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Anos depois de sua experiência agridoce na redação da Runway, maior revista de moda dos EUA, a jornalista laureada Andy Sachs (Anne Hathaway), após ser recontratada como editora pelo CEO do grupo proprietário da revista, que enfrenta uma crise de imagem, reencontra a antiga chefe dos primórdios de sua carreira, Miranda Priestly (Meryl Streep). A confiança adquirida com o sucesso profissional vacila quase imediatamente diante do ícone: a mulher competente e inteligente regride por um instante àquela menina recém-formada ansiando por validação. Pode-se dizer que há um aspecto psicológico em jogo. Afinal, Miranda se notabilizava pelo rigor e pela exigência, no mundo já inóspito das revistas de moda, em proporção que beirava ou ultrapassava o assédio moral. As cicatrizes de um ambiente de trabalho tóxico, transformadas em trauma, podem nunca realmente curar – poucos ambientes imaginários podem se igualar ao infernal das assimetrias abusivas e das diferenças inconciliáveis de um escritório. Contudo, reduzir a reação de Andy a esta impressão seria uma meia cegueira, pois ignoraria que, mais do que o assombro do fantasma de antigos conflitos, o que realmente emana da jornalista veterana é um sentimento de profunda reverência.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Análise | A Maldição da Múmia (2026)


Por Gabriel Costa Resende

A Maldição da Múmia (no original, Lee Cronin’s The Mummy) faz pensar em um dilema antigo do cinema de horror, qual seja: o objetivo prioritário do gênero é mesmo causar medo, inspirar terror? Neste caso, se os efeitos de medo fossem obtidos às custas de coerência narrativa, sensibilidade estética e ética, sofisticação temática, qualidade técnica, o filme hipotético que cumprisse esta função precípua (causar choque/repugnância/medo) poderia continuar sendo considerado bem-sucedido, ainda que a obediência a uma diretriz básica fosse a sua única virtude?

Se a resposta a esse questionamento for positiva, A Maldição da Múmia não é um mau filme. Terceiro longa-metragem do irlandês Lee Cronin, que ostenta sua assinatura no título original (o que é um tanto esquisito, já que a sua carreira é curta e, mesmo que interessante, pouco expressiva – falarei disso mais adiante), há aqui uma compreensão profunda da gramática básica do gênero. O design de som inquietante, a construção de tensão nas sequências de medo e susto, o enquadramento claustrofóbico, a paleta de cores mórbida: um filme de horror que faça bom uso destes recursos, na verdade, é bicho mais raro do que parece. A presença do feijão com arroz bem cozido, e bem servido, é com frequência o suficiente para nos surpreender em matéria de cinema de horror. Filmes igualmente corretos, como o recente O Primata, destacam-se do joio de tentativas fracassadas simplesmente por mobilizarem com mão segura um repertório básico.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Análise | Impetigore - Herança Maldita (2019)

Impetigore - pôster


O que há de mais cativante em uma considerável parcela do terror asiático são os desdobramentos executados pela narrativa por meio de três frentes muito marcantes: a maldição sobrenatural; a investigação dos porquês da existência dessa maldição; a revelação do drama seguida da resolução do problema. Nota-se que, à luz desse molde, que segue mais ou menos essa sequência que evidenciamos há pouco, o horror é o que choca inicialmente, mas conforme a investigação revela as origens sinistras que assolam algo ou alguém, quem passa a chocar mais é o drama.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Análise | O Poço e o Pêndulo (1842)

O poço e o pêndulo - Harry Clarke


O Poço e o Pêndulo (1842) é uma das narrativas mais geniais de Edgar Allan Poe, mestre dos contos de suspense e de horror, que em mais ou menos quarenta anos de vida (1809-1849) construiu uma bibliografia vasta e recheada de obras-primas. Esse texto do autor estadunidense é cheio de elementos instigantes, com destaque, é claro, para aqueles que provocam uma atmosfera de medo, pautada, sobretudo, pela tentativa de o narrador-personagem entender a sua real condição.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Análise | Planeta Fantástico (1973)

Planeta Fantástico - 1973


Na primeira cena de Planeta Fantástico (1973), filme mais renomado do realizador francês René Laloux, nos deparamos com uma situação sufocante: uma mulher, em close-up, tem as suas expressões de pânico destacadas pela narrativa, e alternando com esse enquadramento, por meio de uma imagem um pouco mais panorâmica, ela é vista correndo desesperadamente, ela tenta fugir com o seu filho de colo do local onde se encontra. Nesse caso, além de correr em um terreno plano, ela tenta, dificultosamente, subir uma elevação, só que, surpreendentemente, é por três vezes impedida por um dedo azul gigante, que depois dessas três tentativas da moça chega a expulsá-la violentamente dali com um peteleco grosseiro.