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domingo, 3 de maio de 2026

Ensaio | Phármakon de trevas


Por Gabriel Costa Resende

É algo que talvez você devesse ignorar. Principalmente porque acha que é a única pessoa viva na casa. Na verdade, é uma dessas raras noites em que você preferiria ter a certeza de estar só. Uma cantilena baixa e insistente incomoda o seu sono. A rotina que te fez aprender a ouvir seletivamente também te condicionou a ocultar, sob motores e falatórios cotidianos, quaisquer ruídos informes, sem origem rastreável. Ruídos que talvez desde sempre estivessem lá, sorrateiros, ocultos no caos, hoje, justamente quando você presume estar só, decidiram se impor.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Análise | O Poço e o Pêndulo (1842)

O poço e o pêndulo - Harry Clarke


O Poço e o Pêndulo (1842) é uma das narrativas mais geniais de Edgar Allan Poe, mestre dos contos de suspense e de horror, que em mais ou menos quarenta anos de vida (1809-1849) construiu uma bibliografia vasta e recheada de obras-primas. Esse texto do autor estadunidense é cheio de elementos instigantes, com destaque, é claro, para aqueles que provocam uma atmosfera de medo, pautada, sobretudo, pela tentativa de o narrador-personagem entender a sua real condição.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Análise | Berenice (1835)

Berenice - Edgar Allan Poe

“Berenice” (1835) pode não ser um dos contos mais famosos do mestre Edgar Allan Poe, mas é decerto um dos textos mais impressionantes do autor estadunidense em termos de iniciação, já que a obra é inaugurada com base em afirmações fortes: “A miséria é múltipla. A desgraça do mundo é multiforme” (POE, 2012, p. 191). O narrador, de imediato, agride o leitor, que já está pendido, já nas primeiras linhas, a uma atmosfera negativa e violenta.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Análise | O Gato Preto (1843)

O Gato Preto - Poe

Como geralmente ocorre nos contos em geral de Edgar Allan Poe, os parágrafos de abertura dos seus textos são geralmente pautados por um conteúdo que, de cara, anuncia o horror a ser evidenciado no restante da trama. Em “O Gato Preto” (1843), observamos um campo semântico inclinado ao estresse ditar os primeiros passos da narrativa, em que o narrador-personagem diz que os seus “próprios sentidos rejeitam o que testemunharam” (POE, 2012, p. 81); complementa ainda: “Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram – torturaram – destruíram” (POE, 2012, p. 81).

terça-feira, 22 de março de 2022

Análise | A Máscara da Morte Vermelha (1842)

A Máscara da Morte Vermelha


“A Máscara da Morte Vermelha” (1842) pode não ser um dos contos mais sublimes de Edgar Allan Poe, nem mesmo um dos seus mais conhecidos, mas é decerto grandioso, figura a lista quase infinita de contos seus que são absolutamente engenhosos. Já no primeiro parágrafo, alguns traços brilhantes podem ser encontrados no texto, quando uma poética ambientação, de que uma peste assola uma região, derrama sangue já nas primeiras linhas:

A “Morte Vermelha” devastava havia muito tempo o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. O sangue era seu Avatar e seu sinete – a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas súbitas, e depois profuso sangramento pelos poros, com o óbito final. As manchas escarlates no corpo e especialmente no rosto da vítima eram o banimento pestilente que alijava a pessoa da ajuda e solidariedade de seus semelhantes. E o processo todo de acometimento, progresso e término da doença consistia de meia hora (POE, 2012, p. 143, grifos meus).

domingo, 8 de agosto de 2021

Análise | A Metamorfose (1919)


A Metamorfose (1915), do genial Franz Kafka, é decerto uma referência absoluta, um clássico da literatura mundial, novela dona, também, de uma das aberturas mais impressionantes dentre todas as narrativas literárias já lançadas: 

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta prestes a delizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos (KAFKA, 2012, p. 7, grifos meus).

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Análise | A nevrose da Cor (1903)

Julia Lopes de Almeida


Dos textos da prosa decadentista brasileira, aqueles de Julia Lopes de Almeida são deveras alguns dos mais marcantes. “A nevrose da cor”, um pequeno conto publicado em Ânsia Eterna (1903), livro composto por uma coletânea de contos da mesma autora, sem dúvidas é um dos melhores do decadentismo nacional, e não seria nenhum exagero afirmar que o texto é uma das melhores narrativas curtas do século passado, é um marco estético na literatura nacional, ainda que longe, mas muito longe, de alcançar o grande público, longe, inclusive, do grande volume dos estudos literários no meio acadêmico.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Análise | Os assassinatos da Rua Morgue (1841)





Medir palavras para descrever o tamanho de Edgar Allan Poe é complicado. Muitas vezes fogem adjetivações no momento em que é preciso descrever o autor, ou melhor, descrever a qualidade de suas obras. Na poesia e na prosa, uma prosa, aliás, ligada a poderosos contos, o escritor estadunidense marcou o seu nome e estilo na história da Literatura, revolucionou, principalmente como contista, aquele século XIX recheado de inovações no campo das artes.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Especial | O sujeito refletido em dois contos de Edgar Allan Poe

William Wilson, Edgar Allan Poe

O homem, em suas mais diferentes acepções históricas, foi sempre dotado de um conjunto de ideias e valores próprios que o permeiam em seu diálogo com o meio e os demais indivíduos que o cercam. Na sociedade moderna o processo não é diferente, ocorre, no entanto, que como advento da evolução ocorrida no século XIX, o ser humano ganhou novos artifícios para que se sentisse único, fixando, desse modo, um homem social, mas que pensasse o mundo através de uma individualidade inerente a ele.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Análise | Enterro Prematuro (1844): a síntese estilística de Edgar Allan Poe

Enterro Prematuro



“Enterro Prematuro” (1844) está longe de ser um dos melhores contos de Edgar Allan Poe, está longe de ser, inclusive, um dos seus mais conhecidos trabalhos. Independente da fama ou do reconhecimento por sua qualidade literária, o conto destacado, de modo curioso, acaba por ser um dos que mais bem representa a bibliografia do escritor, e isso ocorre pela razão de a temática trabalhada coincidir, e muito, com uma das maiores propostas do autor em suas prosas, que é a de sufocar, gradualmente, o leitor, mais ou menos como acontece com os indivíduos que, por uma ironia do destino, são enterrados enquanto ainda estão vivos.