segunda-feira, 8 de junho de 2026

Análise | O Afinador (2026)



Por Gabriel Costa Resende

O Afinador é o título brasileiro de Tuner, filme de Daniel Roher, diretor ganhador do Oscar com o documentário Navalny (2022), que aporta em 11 de junho nos nossos cinemas. O nome poderia disponibilizar uma piadinha pronta para um crítico mais carrancudo. Consigo imaginar as variantes de título da possível resenha, a partir da ideia de queO Afinador desafina”. Inversamente, um entusiasta poderia com a mesma facilidade dizer que o filme, a direção ou as atuações estão todos “afinadíssimos”. Permita-me, no entanto, discordar de ambas as hipóteses. Nem afinado, nem desafinado, muito pelo contrário? Em O Afinador, se nem todos os ajustes foram realizados com o esmero de um especialista refinado, também não se pode falar em uma passagem de som malfeita. E está tudo bem: o próprio protagonista, o afinador de pianos Niki (Leo Woodall), lembra à compositora e interesse amoroso Ruthie (Havana Rose Liu) que em sua área profissional a perfeição é inalcançável. Escutemos o recado. Assim como não havia a expectativa de sermos expostos à maestria de um virtuoso, tampouco há motivo para chorar o erro de algumas notas como se elas provocassem imensa dor.

O longa-metragem centra-se em Niki White, um técnico de afinação e reparo de pianos com ouvido absoluto e hiperacusia, que trabalha sob a tutela de seu mentor e melhor amigo, Harry Horowitz (Dustin Hoffmann). Embora sejam as maiores referências locais na área, seus rendimentos são bastante modestos. Além disso, o talento de Niki para reconhecer com precisão qualquer nota não é exatamente uma bênção, pois a sensibilidade violenta da hiperacusia é também deficiência incapacitante que o força a manter abafadores de ouvido 24 horas por dia e, mais grave, sabotou a possibilidade de uma carreira como pianista, a qual tinha se mostrado muito promissora na infância. Quando Harry sofre um ataque cardíaco, Niki encontra um modo escuso de obter dinheiro suficiente para cobrir as dívidas e os custos de internação de seu amigo: empregar o dote natural de sua “super-audição” para auxiliar uma gangue de ladrões especializados em arrombar cofres, liderada pelo israelense Uri (Lior Raz). Nesse ínterim, ele também começa um romance com Ruthie, que está no meio de um trabalho de composição em função de uma importante apresentação, enquanto a ilicitude do “comportamento antimusical” de Niki fica mais perigosa a cada novo serviço.

Antes de tecer comentários mais específicos sobre o filme propriamente dito, gostaria de anotar a persistência de um incômodo: acho que eu já perdi a conta das vezes em que precisei apontar que o vilão de um filme anglófono é um imigrante. Até em Star Wars. Ainda que israelenses e sul-coreanos, nacionalidade dos indivíduos eticamente mais questionáveis do filme, não sejam as minorias mais marginalizadas nos EUA, fica o registro de mais um filme em que o estrangeiro representa um perigo para o cidadão estadunidense típico (que neste filme, ato falho, ainda ostenta o significativo sobrenome WHITE). Enfim, feita a digressão...


O Afinador é competente, mas esbarra em um problema que talvez já esteja implícito na sinopse que escrevi dois parágrafos atrás: ele não sabe exatamente o que quer ser e o tom que deve adotar. Um estudo de personagem? Um thriller? Um romance? Não é um problema tentar hibridizar os gêneros, mas, não havendo perícia na mistura, seria mais seguro visar a estabilidade. É irônico que um filme obcecado pelas engrenagens precisas de pianos, cofres e relógios acabe, no fim, pecando pela imprecisão. Acho que conseguiríamos explicar melhor o problema com uma comparação.

Uma referência óbvia de O Afinador, a meu ver, é Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, compartilhando com este até uma estrutura de atos meio semelhante – com a perceptível escalada de tensão a partir do segundo ato, embora sem atingir os píncaros sanguinolentos do filme mais antigo. O que deixa Drive mais “coeso” do que O Afinador é que, uma vez confirmado o seu gene dominante (o de um thriller violento), ele não mais afrouxa o nó, enquanto O Afinador até o último minuto não está convicto de que sabe o tipo de filme que é. Sim, neste sentido o piadista imaginário do primeiro parágrafo teria razão em dizer que “a afinação” não ficou legal.

Agora, mantendo o paralelo com Drive, é interessante observar como o caráter do protagonista de O Afinador está a anos-luz de distância do dublê taciturno e letal de Gosling. Mesmo possuindo uma audição refinada que, para finalidades específicas, aparenta ser um poder especial, Leo Woodall entende que seu personagem é definido também por sua vulnerabilidade. Niki jamais se revela um herói à paisana, nem física e nem moralmente, pois no fundo é só uma talentosa pessoa com deficiência, que teve de se adaptar a ela, que se dedica a afinar instrumentos musicais e que provavelmente nunca entrou em briga corporal na vida. As cenas em que Niki é perturbado por perigos relativamente ordinários, como os sons emitidos por uma buzina ou pelo rasante de um avião, são bastante eficientes em criar tensão pelo lembrete da sua fragilidade ampliada nessas situações. Dito isso, mesmo com todas as diferenças entre os personagens mencionados aqui, é inegável que a presença em tela de Leo Woodall evoca muito a do Ryan Gosling mais jovem, não só pelo carisma como também pela facilidade natural para fazer semblante tristonho – característica que os tornou ideais para interpretar tipos melancólicos e solitários em Hollywood, sequiosa até hoje de um novo James Dean (uma falta impossível de suprir desde que River Phoenix morreu). Serei otimista: a julgar pela boa performance na segunda temporada de The White Lotus como um tipo mais mau caráter, Leo Woodall pode provar, no futuro, possuir melhor repertório dramático do que Gosling. Claro, não que isso queira dizer muito. Eu adoro Ryan Gosling, e não pretendo revelar com isso uma imensa ingratidão para com os bons momentos de diversos de seus filmes, mas tenho consciência de que ele é um ator limitado.


O aspecto em que O Afinado realmente sobressai, o que é seu maior efeito de coerência e a sua melhor proteção contra as piadas prontas, é o seu design de som, a cargo de Johnnie Burn. Senhoras e senhores, temos aqui uma experiência AUDIOvisual por excelência. A qualidade distinta de cada ruído e a especificidade isolada de cada nota devem ter dado muito trabalho para a equipe de som. Ouso dizer que duas formas de assistir ao filme fazendo jus à qualidade técnica deste aspecto: na sala de cinema ou com fones de ouvido. Ele certamente vale a escolha de um lugar bem equipado. Sem o apuro que demonstra neste quesito, O Afinador, além de contradizer o seu título, fracassaria como filme. Até o seu mecanismo de produção de empatia mais eficaz, muito mais do que o carisma de Woodall e as boas atuações do resto do elenco, é o uso inteligente do somsobretudo quando ele se apresenta subjetivamente e nos concede um vislumbre acústico de como Niki ouve ou deixa de ouvir o mundo. Graças à edição de som, uma vuvuzela pode soar (no pun intended) tão perigosa quanto uma AK-47 carregada. O resultado aqui que me fez lembrar de Som do Metal (2019), o que não é pouca coisa. Em resumo, quem estava encarregado da afinação, no sentido estrito, provou estar com o ouvido privilegiado de fato.

Então, pode ser sintomático desta dependência do design de som de Burn que o filme compense negativamente sendo tão pouco imaginativo no plano visual, em relação tanto à fotografia quanto à montagem. Pode-se dizer que a rolleiflex não fez uma boa foto. Por exemplo, as sequências em que Niki usa seu ouvido absoluto para burlar cofres e a decupagem intercala planos-detalhe dos mecanismos de trava dos cofres, se interessantes e necessárias em um primeiro momento, tornam-se logo repetitivas. Visualmente, e também em seu roteiro um tanto prejudicado por excessos de exposição, O Afinador é um filme burocrático, “sem sal”. Não se compromete, mas também não se destaca.

O Afinador, por isso, não é totalmente desafinado ou afinado – é uma composição tocada com algum talento por um músico mais ou menos experiente em um piano de média qualidade. Agrada os ouvidos, não maltrata os olhos. A perfeição pode passar longe daqui, mas a verdadeira beleza, lembremos, talvez more na imperfeição de um coração que nem sempre se sabe ou pressente.



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