sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Análise | Macabro (2019)

Macabro - movie


O terror no cinema brasileiro parece que está em voga na atualidade. Nos últimos anos, chega a ser difícil acompanhar, dos mais badalados aos menos badalados, a quantidade de lançamentos de tal gênero em terreno cinematográfico nacional. Tudo isso chega a surpreender, dado que não é uma tradição, e há uma possível explicação para isso, a presença da narrativa de medo na cinematografia brasileira, embora tenhamos já visto, com o genial José Mojica Marins, por exemplo, grandes longas-metragens desse tipo.

Macabro (2019), dirigido por Marcos Prado, é dono de um título que imediatamente passa a sensação da presença de certo terror, fator que seria intensificado com o passar do tempo, pois existem alguns elementos espalhados pela narrativa que o solidificam, ainda que a estrutura esteja muito mais voltada para o formato policial, digamos assim. Logo na abertura, quando uma operação do Bope em uma comunidade carioca falha e um inocente acaba sendo assassinado, sentimos uma atmosfera que se pauta pelo suspense quando a operação é ditada, momento em que sentimos a tensão pela movimentação dos policiais nas ruas e pelos seus diálogos em voz baixa, além de uma trilha musical sutil que complementa o clima sombrio.

Acompanhamos a abertura em uma situação já iniciada, fator que concede dinâmica à película na sua introdução, mas a trama se acalma por um breve trecho a partir do momento em que o policial que coordenava a operação é enviado a Nova Friburgo, cidade localizada na região norte do Rio de Janeiro, e por lá observamos um personagem preocupado, pois depende daquela nova missão para recuperar a confiança dos seus superiores. O grande problema é que Teo, o sargento, possui um passado mal resolvido com o local onde nasceu e cresceu, e para piorar a situação precisa achar dois psicopatas que não só matam as pessoas, como também as estupram em estado cadavérico.

A história é baseada em um caso real, os assassinos do filme são mais conhecidos como “Irmãos Necrófilos”, dois sujeitos que, nos anos 1990, realmente mataram muitas pessoas, principalmente mulheres, e tiveram relações sexuais com as mesmas depois de estarem mortas. Logo no começo da investigação perceberíamos a gravidade do caso, isso é deixado claro rapidamente, portanto, a ambientação é rápida para que a repulsa do espectador quanto àqueles atos seja logo cristalizada. Muitas dessas informações, na verdade, são solidificadas graças aos depoimentos dados por moradores da região, entrevistados pelos policiais, um aspecto muito comum, diga-se de passagem, nas narrativas policiais pós-Edgar Allan Poe.

Crime, depoimento e investigação, temos uma tríade clássica da narrativa policial, que se estabelece logo, e o mais interessante é que, no meio da cena detetivesca, o drama pessoal de Teo se sobressai, sobretudo para com o seu passado assombroso. Ainda que o formato policial seja a base de tudo no filme, o gótico se apresenta com força ao longo da projeção. Em primeiro lugar, percebemos que existem obscuros segredos enterrados naquela cidade, sejam segredos atrelados mais especificamente aos dois jovens psicopatas, sejam segredos mais ligados ao protagonista. Sobre o primeiro, temos uma ideia, até certa altura da obra, de que existe uma segregação racial e socioespacial contra ambos, e o passado da dupla também se complica por causa de um padre local e por causa dos próprios pais, aparentemente agressivos. Em relação ao segundo, há questões mal resolvidas com aquele local, como um aparente filho deixado na cidade, fator até previsível da trama, e um problema ligado à mãe, fator quer seria mais impactante.

Segredos obscuros, o passado enquanto fantasmagoria, são aspectos comuns nas narrativas góticas, e são bem-vindas na trama para que se incline uma atmosfera, não poderia ser diferente, macabra. Diante da visualização do espaço cênico, também encontramos muitas sombras, são as trevas que cobrem aquele locus horribilis, onde o mal acontece. Falando na presença do mal, as crenças locais, baseadas, principalmente, na fé cristã, relacionam os casos de estupro e de morte ao diabo, ao demônio, crendices que alimentam aquele clima de insegurança, de medo, um clima, diga-se de passagem, bastante envolvente.

As imagens viscerais, espalhadas pela obra, complementam um cenário pesado, embora a violência gráfica seja mostrada quase que somente em sua consequência, pois a causa (o assassinato, o estupro) fica mais localizado na sugestão, não agride tanto visualmente, não agride, melhor dizendo, através de uma visualização explícita. Monstruosos são os dois assassinos, ou melhor, um dos dois irmãos, já que até o final do filme não sabemos muito bem se um deles está envolvido. A monstruosidade, diga-se de passagem, é construída em Inácio (Ibraim na história real) pela sua alta capacidade de se esconder nas matas friburguenses, pela sua rapidez no ataque e, principalmente, pela sua brutalidade no pós-ataque. Ainda, deve-se dizer que não vemos, até os trechos finais, a sua fisionomia total, e essa ocultação na imagem origina mais medo sobre aquele personagem desequilibrado.

A narrativa policial pode ser a base, mas é cortada pelo drama, pelo gótico, é mais do que um simples formato de investigação. Macabro tem um saldo positivo ao final, vimos isso ao longo desta análise, é uma afirmação do nosso cinema sombrio no atual momento, uma obra bem-vinda por evidenciar certas questões tão discutidas na atualidade, como o feminicídio, como o racismo e a complexidade que envolve um psicopata, mas mais importante por acolher tais elementos em uma atmosfera bem construída, fácil de conquistar o público em geral, sobretudo aqueles que são fãs do gênero.

Nenhum comentário:

Postar um comentário