quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Análise | Enterro Prematuro (1844): a síntese estilística de Edgar Allan Poe

Enterro Prematuro



“Enterro Prematuro” (1844) está longe de ser um dos melhores contos de Edgar Allan Poe, está longe de ser, inclusive, um dos seus mais conhecidos trabalhos. Independente da fama ou do reconhecimento por sua qualidade literária, o conto destacado, de modo curioso, acaba por ser um dos que mais bem representa a bibliografia do escritor, e isso ocorre pela razão de a temática trabalhada coincidir, e muito, com uma das maiores propostas do autor em suas prosas, que é a de sufocar, gradualmente, o leitor, mais ou menos como acontece com os indivíduos que, por uma ironia do destino, são enterrados enquanto ainda estão vivos.

Eu conseguiria resumir a estilística de Poe, nas suas prosas, apenas por esse conto, mas isso é um assunto para outro texto, já que o foco desta análise está direcionado a uma breve análise sobre “Enterro Prematuro”, mais um dos belos contos do escritor, dono de uma galeria impressionante de excelentes prosas e poemas. Datado de 1844, o texto que será analisado aqui se encontra justamente no meio do auge do realizador, já que, alguns anos antes, havia lançado duas brilhantes composições, como “William Wilson” (1839) e “O Poço e o Pêndulo” (1842), mas lançaria, posteriormente, em 1845, “Os Fatos do Caso do Sr. Valdemar”, uma verdadeira obra-prima e um dos seus trabalhos mais significativos.

A introdução de “Enterro Prematuro”, que se assemelha a um prólogo, é pautada por uma breve discussão do narrador sobre fatos que impactam qualquer coração humano, a exemplo de eventos como a Peste de Londres, o Terremoto de Lisboa e outras situações realmente chocantes por conta de suas consequências trágicas. Não demora muito para que, logo depois, o tema do conto comece a ser colocado no centro da narrativa, que é o destino cruel de ser enterrado vivo, deixado bem marcado na trama como o mais medonho dos extremos macabros que se possa imaginar. Diante de tal marcação, ainda nos primeiros parágrafos da história, Poe, ágil e hábil, deixa o leitor curioso sobre o que pode ser desenvolvido na história para suceder tais enumerações de tragédias e casos sombrios.

Depois de falar um pouco mais sobre as agonias de ser enterrado vivo, marcando tal azar como um centro em relação à vida e à morte, o autor parte para relatos que estão justamente ligados à temática do conto, e segundo o que diz o narrador da trama, os relatos destacados são fatos, isto é, fogem de qualquer plano ficcional, reafirmando, mais tarde, que tais ocorrências são mais do que comuns. De maneira sábia, a narrativa, para prender o leitor e fazer com que ele fique ainda mais impactado com os casos que seriam descritos ao longo do conto, dispara informações que estão atreladas à localização e à identidade de indivíduos que vivenciaram o enterro prematuro, além de ressaltar outros fatores que realmente passam a impressão, por conta da precisão descritiva, de que tudo aquilo narrado é, de fato, documento, e não ficção, como se as histórias descritas foram deveras extraídas de jornais que veiculam notícias macabras.

A primeira parte do conto, então, se dedica a apresentar casos bizarros em que as pessoas, supostamente mortas, foram enterradas, tiveram seu funeral, mas, de alguma forma, estavam vivas. Em alguns casos, diga-se de passagem, as pessoas, como acontece em três dos quatro casos destacados pelo narrador, foram encontradas ainda vivas depois de viverem essas experiências claustrofóbicas. A fórmula das histórias resumidas que são enfatizadas no conto é simples: tudo é iniciado com uma suposta morte de um sujeito, sujeito que logo depois é enterrado; mais tarde, há o destaque de que este estava vivo, sendo que alguns dos indivíduos, de algumas histórias, tiveram a sorte de serem encontrados ainda com vida. É importante ter em mente, porém, que, ausente de qualquer aproximação com o tédio, a trama varia os seus casos de acordo com os impulsos que levaram tais personagens a tal fim, além de variar o plano de descrição de cada um deles, sendo o caso de Baltimore mais arrepiante devido às imagens ligadas ao estado em que uma mulher foi achada três anos depois de ser enterrada enquanto ainda estava viva; em relação ao caso de Londres, do jovem advogado, percebe-se um estilo mais cômico, tudo isso por causa da reação de espanto dos médicos que faziam um experimento no corpo de um rapaz que levanta depois de ser dado como morto, na frente do grupo de pesquisadores.

Dando início ao segundo momento do desenvolvimento da história, o narrador debate mais um pouco sobre a tenebrosidade de ser enterrado vivo, volta a afirmar que “nenhum evento é tão terrivelmente capaz de inspirar a suprema angústia do corpo e da mente quanto o enterro antes da morte” (Poe, 2013, p. 157). Consolidando tal ideia, o que deixa o espectador ainda mais impactado quanto à temática que é desenvolvida no conto, a obra penetra no seu quinto e último caso, um caso diferente daqueles quatro destacados acima, um caso mais bem detalhado do que os outros, que são, na verdade, rápidos resumos de histórias que têm como semelhança o assunto-chave do conto. O quinto e último caso, é necessário afirmar, está ligado ao narrador-personagem, que, por ter vivido tal experiência, pode afirmar, com certeza, toda aquela questão de que não existe nada mais macabro, dentre todos os eventos macabros, do que ser enterrado vivo.

O narrador-personagem, depois de dar início à sua história, diz que sofria de um grave problema de catalepsia, um problema que o fazia, subitamente, apagar, isto é, ficar desacordado, só deus sabe quanto tempo, repentinamente. O protagonista desse quinto e último caso, ao sofrer os seus apagões, nos explica que o seu estado era semelhante àquele da morte, situação que, a propósito, influenciou na sua psicologia, deixando-o extremamente ansioso, com um medo absurdo, não poderia ser diferente, de ser enterrado vivo. Se a ansiedade nada mais é do que ter medo de algo e projetar maneiras de se esquivar de tais temores, de se adiantar em relação a certas situações, o personagem se precaveu, e muito bem, das mais diversas formas:

mandei reformar a cripta da família de modo a permitir que fosse facilmente aberta do lado de dentro. A mais leve pressão sobre uma comprida alavanca que se estendia bem adentro da tumba faria com que as portas de ferro se abrissem. Providências foram tomadas também para a livre admissão de ar e luz, e o acesso a recipientes com comida e água, ao imediato alcance do caixão preparado para me receber. Esse caixão era acolchoado de modo aconchegante e macio e dotado de uma tampa feita segundo o mesmo princípio da porta da cripta, com a adoção de molas concebidas de tal modo que o mais ligeiro movimento do corpo seria suficiente para ganhar a liberdade. (Poe, 2013, p. 162).

Percebe-se o quão ansioso se tornou o nosso protagonista devido aos seus problemas de saúde, e mesmo diante de tantas precauções, o mesmo acaba por vivenciar, como é previsível, já que o narrador-personagem anuncia uma experiência parecida com a dos quatro casos enumerados anteriormente, a experiência de ser enterrado vivo. Essa tenebrosa experiência sucede logo depois de ser cristalizado um dos seus citados apagões, e a sua dedução é a de que ele caiu no meio da rua, foi dado como morto e enterrado por estranhos, “atirado, fundo, fundo, e para sempre, em algum ordinário e anônimo túmulo” (Poe, 2013, p. 165). De modo surpreendente, entretanto, o personagem, completamente enganado, não foi enterrado vivo, não estava debaixo da terra, mas estava em uma estreita cabine de navio que mais parecia um caixão, por isso era tudo muito escuro e apertado, algo que deve ser muito parecido, aliás, com um enterro.

O personagem diz que as torturas que vivenciou são típicas de uma autêntica sepultura (Poe, 2013, p. 166), por isso consegue relatar, com tanta fidelidade, a experiência de um sujeito que foi enterrado vivo. Ainda que o final não seja um daqueles mais inclinados a um profundo drama, chegando a ser levemente cômico pelo alívio causado no espectador, Edgar Allan Poe ganha o leitor pela sua capacidade de descrição, descrições que, no momento em que achamos que o narrador-personagem estava realmente enterrado vivo, são dignas de aplausos por toda a agonia que é transmitida, um traço muito comum, a propósito, nas obras do autor estadunidense. Ilustremos tudo isso com outra passagem do texto: “Empenhei-me em gritar; e meus lábios e minha língua ressecada moveram-se juntos convulsivamente na tentativa - mas voz alguma deixou os cavernosos pulmões, que, opressos como que pelo peso de uma montanha esmagadora, arquejaram e palpitaram, com o coração, a cada inspiração laboriosa e difícil” (Poe, 2013, p. 163).

Muito mais do que um simples conto-síntese sobre a bibliografia do autor por conta da relação estético-temática, “Enterro Prematuro”, sob tudo o que foi comentado ao longo desta brevíssima análise, é um grande texto, mais um dos grandes que compõem a incrível galeria do autor de “O Corvo”. A obra segue, podemos perceber, a principal proposta das prosas de Poe, com um tema macabro sendo acolhido e com esse tema, na sequência, sendo desenvolvido com base em uma construção sufocante, uma construção, para os amantes das narrativas de medo, simplesmente adorável.

Referências:

POE, Edgar Allan. Enterro prematuro. In:______. Contos de imaginação e mistério. São Paulo: Tordesilhas, 2013. p. 151-166.

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