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Por Gabriel Costa Resende
A Maldição da Múmia (no original, Lee Cronin’s The Mummy) faz pensar em um dilema antigo do cinema de horror, qual seja: o objetivo prioritário do gênero é mesmo causar medo, inspirar terror? Neste caso, se os efeitos de medo fossem obtidos às custas de coerência narrativa, sensibilidade estética e ética, sofisticação temática, qualidade técnica, o filme hipotético que cumprisse esta função precípua (causar choque/repugnância/medo) poderia continuar sendo considerado bem-sucedido, ainda que a obediência a uma diretriz básica fosse a sua única virtude?
Se a resposta a esse questionamento for positiva, A Maldição da Múmia não é um mau filme. Terceiro longa-metragem do irlandês Lee Cronin, que ostenta sua assinatura no título original (o que é um tanto esquisito, já que a sua carreira é curta e, mesmo que interessante, pouco expressiva – falarei disso mais adiante), há aqui uma compreensão profunda da gramática básica do gênero. O design de som inquietante, a construção de tensão nas sequências de medo e susto, o enquadramento claustrofóbico, a paleta de cores mórbida: um filme de horror que faça bom uso destes recursos, na verdade, é bicho mais raro do que parece. A presença do feijão com arroz bem cozido, e bem servido, é com frequência o suficiente para nos surpreender em matéria de cinema de horror. Filmes igualmente corretos, como o recente O Primata, destacam-se do joio de tentativas fracassadas simplesmente por mobilizarem com mão segura um repertório básico.
Para ser justo, A Maldição da Múmia não é um terrorzinho tão burocrático assim. É seguro dizer até que está acima da média em termos de crueldade e brutalidade, sobretudo em relação a outras produções patrocinadas por grandes estúdios. Zero surpresa aqui: Lee Cronin dirigiu o segundo filme da nova franquia A Morte do Demônio (doravante referenciada pelo título original e mais famoso, Evil Dead), o que lhe conferiu liberdade criativa para retornar à ultraviolência e à nojeira neste novo projeto. A sua múmia herdou nitidamente o DNA dos deadites. Talvez até em excesso, a ponto de um “filho” ou “irmão” começar a soar mais como clone: A Maldição da Múmia poderia tranquilamente ser um spin-off. Na real, uma cena pós-créditos já seria o suficiente para juntar os dois universos.
Agora temos a deixa para voltar às questões do primeiro parágrafo. Afinal, operar como um dispositivo de medo funcional seria o bastante para sustentar um novo filme de horror? Isto é bem relevante aqui, pois Lee Cronin intercala sustos eficazes e cenas aflitivas com falhas notáveis de engenharia cinematográfica e uma miopia moral bem típica de cineastas estadunidenses.
Leia-se uma sinopse da trama: a menina Katie (Natalie Grace), filha mais velha de um casal de classe média norte-americano, é sequestrada no Egito, onde eles fixavam residência temporária por conta do trabalho, e é descoberta oito anos depois em um sarcófago, ainda viva, mas com uma constituição física e mental horrendamente debilitada, sendo então restituída à casa de sua família no estado do Novo México. A partir daí, em escala ascendente de violência, coisas terríveis se sucederão como consequência da volta da filha pródiga já não tão pródiga.
Ora, a leitura da fundamentação básica de qualquer estudo acadêmico sobre o monstruoso confirmará, sem equívoco, que uma de suas características mais usuais é a sua natureza “estranha”, “estrangeira”; enfim, a sua alteridade. Já diria Jeffrey Jerome Cohen: “o monstro mora nos portões da diferença”. As diferenças, no que elas têm de infamiliar, exógeno ou exótico, guardam um considerável potencial fóbico. E xenofóbico. É significativo que a família estadunidense esteja “amaldiçoada” desde o início, antes do surgimento de qualquer múmia ou demônio, pelo próprio “exílio” no país africano. Naturalmente, o Egito é retratado como um locus horribilis em que imperam os assassinatos, o tráfico de pessoas, a miséria material e os burocratas incompetentes e insensíveis (com exceções identificáveis pela capacidade de falar inglês, o que torna os indivíduos mais humanos, isto é, menos árabes e africanos). Mesmo quando os horrores se deslocam para os Estados Unidos (posto que para o Novo México, um dos seus estados mais etnicamente “estranhos” – e a abuela interpretada por Veronica Falcón, uma das vítimas prediletas do filme, tem um pé na caricatura), a origem da maldição em África, a contaminação malevolente de tradições antigas e crípticas, impuras demais para a família estadunidense heteroafetiva de bem, não são nunca ignoradas. Que A Maldição da Múmia pareça não ter consciência disso é revelador de uma grave inépcia reflexiva.
Falando em inépcia, salvo a performance de Natalie Grace como Katie, que em seus melhores momentos emula com algum grau de sucesso a Regan de Linda Blair, o filme padece de atuações abaixo da média. Em especial, os olhos sempre esbugalhados de Jack Reynor, que interpreta o pai, Charlie, causaram-me uma irritação insistente, não intencional, que eu demorei a entender estar associada ao namorado tóxico de Midsommar, papel do mesmo ator. Ao menos lá a sua aparente facilidade para encarnar tipos paspalhões foi melhor aproveitada. Se Charlie já não é lá grandes coisas (mas o “mocinho”, além de principal provedor, precisa ser o pilar de racionalidade no seu núcleo familiar – isto é uma american family, for God’s sake), a esposa Larissa (Laia Costa) é de uma presença em tela tão apática que, confesso, cheguei a ficar em dúvida se era efeito previsto na composição da personagem.
Esta ineficácia do elenco é agravada por deficiências de ritmo e estrutura. Dos seus 133 minutos de duração, a sala de edição poderia tranquilamente ter reduzido meia hora de filme. Muitas de suas sequências de horror, mesmo entre as que estabelecem com relativa eficiência algum nível de tensão, são frequentemente distensionadas por zigue-zagues espaciais – enquanto os horrores se desenrolam na casa no Novo México, temos de acompanhar, com cada vez menos interesse, as investigações de Charlie e da policial egípcia Dalia Zaki (May Calamawy) sobre o que teria sucedido de fato com Katie naqueles oito anos. Não há nada de instigante ou original nestas descobertas que justifique o tempo gasto para se chegar a elas, sacrificando um corte final mais sucinto.
É curioso que Lee Cronin tivesse tanta liberdade nesta produção. O pomposo título original Lee Cronin’s The Mummy, como se o jovem cineasta fosse um John Carpenter 2.0, parece indicativo de uma nova autoridade ou grande assinatura no gênero, mas o seu modesto currículo de dois longas, O Buraco no Chão e Evil Dead Rise, contradiz tal impressão. A Maldição da Múmia, como já antecipamos, compartilha muitos traços com Evil Dead Rise: por exemplo, a fotografia pontilhada de planos-detalhe e super close-ups (em coisas e eventos asquerosos), o design de som ruidoso aliado a acordes sinistros de violino, a maquiagem demoníaca, etc. Alguém poderia argumentar que se trata de um estilo em formação, mas acho que minha objeção é mais eloquente: trata-se muito menos do estilo peculiar de Lee Cronin do que de um pastiche de Sam Raimi. Qualquer pessoa que tenha assistido Socorro recentemente, mesmo ignorando que Raimi seja o criador original de Evil Dead, teria dificuldade para negar a semelhança entre o gosto muitíssimo específico pela nojeira e pelo gore aflitivo daquele longa-metragem e o deste filme de múmia (ou deadite disfarçado).
Então, o que exatamente a assinatura “Lee Cronin” traz de especial? Ou ela é só um selo de garantia de que “ei, este filme de terror até que dá susto!”, perdoada a sua mediocridade artística eventual? Talvez Lee Cronin traga a confiança daquela marca econômica de arroz que você compra em um mercado específico. Nada espetacular, nada premium, mas que pelo menos dá pro gasto.
De um modo geral, A Maldição da Múmia não é bom. Mesmo aquilo que tem de mais ousado, a desmedida da crueldade infligida em seus personagens, sofre uma retração meio covarde e ridícula no fim. Ao mesmo tempo, está tão absorvido pela sua necessidade de causar desconforto e medo, missão que de fato cumpre em alguns momentos, que não deixa de se tornar um tiquinho cativante pra mim. Há filmes de terror bem mais amaldiçoados por aí. Então, só desta vez, deixemos o dilema no sarcófago.


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