Por Gabriel Costa Resende
É algo que talvez você devesse ignorar. Principalmente porque acha que é a única pessoa viva na casa. Na verdade, é uma dessas raras noites em que você preferiria ter a certeza de estar só. Uma cantilena baixa e insistente incomoda o seu sono. A rotina que te fez aprender a ouvir seletivamente também te condicionou a ocultar, sob motores e falatórios cotidianos, quaisquer ruídos informes, sem origem rastreável. Ruídos que talvez desde sempre estivessem lá, sorrateiros, ocultos no caos, hoje, justamente quando você presume estar só, decidiram se impor.
É tarde. Ou seja, a salvação de uma barulheira esporádica é improvável, o que em outra circunstância você, que preza o sossego, com certeza comemoraria. Excepcionalmente, um tiro ou vários, um foguetório aleatório, um ronco ocasional de uma moto numa corrida noturna, seriam bem-vindos neste exato momento. Pois a única vibração lá fora é da “voz”, da possibilidade de voz imiscuída no ruído sem identidade.
Poucas condutas lhe parecem realmente adequadas na situação. Como suas escolhas não são ilimitadas, e uma vez que a existência assalariada tem triturado com constância os nervos do seu corpo, a ponto de transformar as escolhas mais econômicas nas melhores escolhas em todas as ocasiões, é prontamente deliberado pelo tribunal de um só magistrado da sua consciência engraçadinha, apesar de um tanto apavorada, que o melhor é esperar mais um pouco.
A cantilena tem uma letra indiscernível, que não pode ser apurada com precisão. Estreitar os ouvidos para conferir inteligibilidade à incógnita que te acovarda é arriscar ir ao encontro de uma resposta indesejada. Hoje lhe falta coragem para se achegar aos lábios de vidro da janela, esgueirar-se pra fora o suficiente apenas para que a curiosidade se apague no mesmo átimo em que salte, sobre seu entendimento, com garras afiadas ou inofensivas, a consequência de uma confirmação.
Um exercício mental lhe ocorre: invocando a razão e a lógica, com tanta frequência impotentes em outros momentos existenciais decisivos, buscar descartar os espíritos e demônios vagos que seu pensamento se apressou em pintar dentro dos seus olhos. O excesso criativo é o melhor amigo da privação de sono. Ora, seria adequado pensar que a canção (agora se parece mesmo com uma canção?) é só um capricho do vento. O vento tem direito à expressão. Afinal, a janela dá suficiente passagem para que o oxigênio impuro e familiar da cidade inspecione a sua casa. A porta do seu quarto, indecisa entre abertura e fechamento, suas únicas funções, dança com leveza à mercê dos influxos das correntes de ar. Os espasmos da porta combinam com a trilha-sonora da “voz”: a harmonia te surpreende e de algum modo te devolve à realidade. O consolo é que, por macabra que seja a mobilidade do inanimado, esta é a confirmação de que o seu mundo ainda é o mundo.
A razão nutrida por longos anos de educação formal, o espírito embrutecido por longos anos de trabalho informal, decidem triunfar sobre a hesitação diante do desconhecido. O ridículo de sentir medo prepondera sobre o próprio medo, iluminando a sua mente com autoconsciência, revigorando tudo que estava alquebrado por instintos habituados à inércia. A decisão é automática: fechar a janela.
Eu adoraria dizer que a singela atitude lhe trará o conforto da familiaridade, apesar do leve desapontamento com a comprovação do ordinário. Que, logo abaixo do parapeito da janela, do lado de fora, não estarão pairando os restos espectrais de uma pessoa ou alguma outra coisa, mortalha esvoaçante sob pés flutuantes, totalmente ausentes quaisquer traços fisionômicos que remetam a um rosto verossímil, te cortejando com um cantar que de perto será muito mais reconhecível, e muito menos humano, e que terá por testemunha somente o olhar anônimo da escuridão.
Adoraria confirmar que você não irá reconhecer, tarde demais, que o canto em questão te perturbava tanto porque, agora é sabido, ele sempre foi aquele que ressoava subliminar nos seus pesadelos. Adoraria confirmar que não foram os mesmos pesadelos que te faziam acordar suando frio e levar horas para se refamiliarizar com o próprio corpo. Ou que a porta abrindo e fechando não é trabalho da mão invisível de um antigo proprietário, ou de um ancestral decepcionado com os seus pecados, que entoa a segunda voz do dueto em que esses disfarces de gente te conclamam a dançar na noite vazia.
Eu não posso garantir nada nesse sentido. O que eu posso fazer é uma sugestão, pois você ainda tem outra escolha. Ela é simples: levantar um escudo contra os horrores… potencializando os horrores. Que tal esquecer os espíritos lá fora, ou os que te espreitam pela fechadura, e assistir a um filme de terror?
Perdão pelo anticlímax, mas eu sei que meu artifício foi útil pelo menos em um sentido: se você está comigo até agora, talvez queira continuar me lendo. Desta vez eu sou levado por um ímpeto de nobreza relativa. Quero argumentar rapidamente que o horrível, sob um regime de controle criativo, pode ser uma terapia estranha.
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| "Rapazinho, como vai a saúde?" |
Veja, eu tenho a convicção de que o horror é veneno para a imaginação, embora veneno necessário – muitos trabalhos fizeram o esforço de acoplar à história do horror literário e cinematográfico uma função pedagógica que, mutatis mutandis, já se apresentou moralizante, subversiva, reflexiva, etc. – e remédio estético para espécies mais reais de monstros, bem menos interessantes, que nos perseguem sem depender de nenhuma força de imaginação.
Ler romances góticos do século XVIII ou assistir a slasher movies não só nos habituam a uma série de convenções e artifícios, às gramáticas específicas de gêneros; são experiências que têm o potencial de nos distrair e confortar… e de nos arremessar violentamente em um estado de purgação por meio de emoções potentes como o medo. Aristóteles diz algo parecido com o que estou dizendo, só que com muito mais beleza e autoridade, e de forma mais completa, na sua Poética, que é de onde nós moderninhos ainda tiramos a definição lapidar do efeito de kátharsis que os tragediógrafos gregos buscavam inspirar em suas plateias. Não à toa as tragédias gregas, se pensarmos com cuidado, formam um cânone bem mais assombroso e violento do que o dos filmes de terror. Isto, por sinal, não as desautoriza como pináculo de beleza na história ocidental das artes narrativas.
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| Anguish (1987) |
Não estou fazendo distinção entre os usos de horror e terror, mas é academicamente protocolar, e eu nunca consigo me livrar inteiramente dos protocolos, ressaltar a diferença conceitual entre os termos. Segundo Ann Radcliffe, um dos nomes maiores da literatura gótica, o terror e o horror na verdade “são completamente opostos”1. No terror, a suposição é mais terrível do que a certeza; no horror, a causa do medo é explícita e depende da surpresa. Uma sugestão de adaptação em termos modernos seria pensar o terror como um efeito de suspense e o horror como um efeito de choque. Enquanto o terror “expande a alma e desperta as faculdades a um alto grau de vida”, o horror “contrai, congela e quase as aniquila”. Para Radcliffe, o terror é superior ao horror, mais “racional” e efetivamente ligado ao sublime. Os melhores momentos de Hamlet seriam um exemplo supremo das engrenagens do terror em ação (enquanto Titus Andronicus, que Radcliffe não menciona, certamente estaria mais próximo do horror).
Tal hierarquia setecentista, depois do avançar do romantismo e dos desdobramentos da própria ficção gótica em que Radcliffe é referência, ainda interessa a uma metadiscussão mais aprofundada sobre o tema, mas seu alongamento tem pouca relevância no uso vernacular dos termos que estou adotando aqui. Então voltemos às trevas em estado de trevas mesmo2.
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| Possum (2018). |
Eu sei que você pode ressalvar que a realidade tem o potencial de ser tão hedionda, tão vil, que um texto de horror só poderia almejar, isto se eficiente, o efeito de redundância ou de reforço. Meu primeiro impulso, prezado inimigo de Sófocles e Shakespeare, é dar zero pra você. Mas não sendo impulsivo, posso admitir que entendo a lógica por trás do argumento. “Por que adicionar o atroz ao atroz?” é uma pergunta que pareceria convincente, se não fosse falaciosa.
A grande questão é que o horror estético ou artístico (estou me baseando na etiqueta bem didática de um dos guruzões acadêmicos dos estudos de horror, Noël Carroll, mas não é necessário lembrar disso) redime um atributo que escapa frequentemente ao horrível empírico: a sua capacidade de fazer sentido. Mesmo o horror mais inexplicável, de natureza mais indecifrável, aparência mais imotivada ou brutalidade mais injustificada, possui uma reserva de significação quando isolado pela ficcionalidade de um livro ou filme. A distância estética, prerrogativa da mímesis, coloca as trevas mais indevassáveis sob os holofotes do pensamento. Ou seja, o horror artístico é escuridão, e pode ser escuridão profunda como o breu do abismo, mas também é iluminação. Sem a sua provocação, corre-se o risco de cegueira insensível diante daquilo que é delicado e belo no mundo.
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| "Não aceita o terror porque o terror é você!" |
Alguns filmes de horror talvez demonstrem de modo prático o que estou defendendo, então vou deixar duas indicações de safra nova, uma mais perturbadora e uma mais puxada pro terrir, ambas com profunda consciência do próprio gênero. Assistam ao britânico Possum (2018), um excelente exemplar de gótico cinematográfico recente, e ao japonês Sayuri (2024), cuja luminosidade surpreendente em um filme de onryō3 valida a deliberada desigualdade de tom das suas partes. Não os prescrevo por suspeitar de um poltergeist perturbando seu sono, mas para te ajudar a se colocar com mais firmeza, talvez mais “purgado”, diante do próprio caos incongruente e deselegante da realidade.
O horror não funciona pra todo mundo, é verdade. Alguns não conseguem achar a graça da coisa ou acham graça até demais, e o horror está mesmo a uma linha tênue do cômico: às vezes abraçando-o desbragadamente ou recaindo lá por acidente, às vezes mantendo-se com intencionalidade em um entre-lugar destas coisas (recomendo, para quem se interessar, a leitura de pesquisas sobre a estética do grotesco4).
Além disso, a arte, mesmo a melhor arte, não vai sempre te proteger da miséria humana e da apatia natural do cosmos. O mundo é pleno de matizes sombrias até quando não as estamos procurando. Mas acho que não estou sozinho quando digo que, sem a possibilidade de ficção e poesia, inclusive as horríficas, tudo fica muito pior.
Agora vai lá. Feche a janela.
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Notas:
1. Estou usando a tradução do pesquisador Hélder Brinate para o ensaio “Do sobrenatural na literatura” (1826), de Radcliffe, em que estas ideias sobre terror e horror são discutidas. A tradução está no livro As artes do mal: textos seminais, organizado em sua segunda edição por Claudio Zanini, Júlio França e Oscar Nestarez, um importante reader de textos teóricos clássicos sobre o gótico, o horror, o monstruoso, etc.
2. Momento “Ed Motta” de raiva inútil: você não é cidadão dos Estados Unidos, que de história costuma se limitar a conhecer (mal) a própria e só a partir da Segunda Guerra, pra vir com esse papo de “pós-horror” e “horror elevado”. Se você for estadunidense e por algum motivo chegou até aqui, torço para que minha generalização não se aplique a você. E meus pêsames.
3. Fantasma vingativo japonês. É provável que você conheça ao menos as vilãs de Ringu e Ju-on: Sadako e Kayako. As duas também já caíram na porrada em um filme pavoroso, no pior sentido, do mesmo diretor de Sayuri, Kōji Shiraishi.
4. Um ótimo especialista no assunto é Daniel Augusto Pereira Silva, professor da Uerj. Recomendo a leitura de sua tese sobre o grotesco finissecular na França e no Brasil.




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