Em uma cena chave de Star Wars: Os Últimos Jedi, o espírito de Mestre Yoda aparecia para seu antigo pupilo, Luke Skywalker, com uma última importante lição (que eu reproduzirei em ordem sintática mais natural), sugerindo que Yoda talvez fosse leitor de Elizabeth Bishop: “o maior professor é o fracasso”. Com todo o respeito ao poderoso mestre, a sua sabedoria milenar tem se provado bastante lacunar, ou o seu argumento talvez requisitasse maior desenvolvimento de suas premissas, a julgar pelo impacto dos projetos recentes da Disney. Detentora da Lucasfilm, e por extensão dos direitos da franquia Star Wars, uma das mais adoradas do mundo, a fábrica de sonhos vem amargando pesadelos convertidos em decepções de público e/ou crítica, apesar de ter sob tutela tantas marcas de inestimável popularidade. Se havia alguma lição a tirar do fracasso, mentes criativas da Disney parecem estar matando as aulas mais importantes.
Uma das supostas exceções, contudo, teria sido a série The Mandalorian, criada por Jon Favreau, que explora o universo estendido de Star Wars sem se aferrar ao drama familiar dos Skywalkers. Favreau introduziu alguns personagens que logo se tornaram queridinhos dos fãs, como o próprio mandaloriano do título, o caçador de recompensas Din Djarin, que descende de uma longa linhagem de guerreiros temíveis (interpretado por Pedro Pascal, quase sempre mascarado, mas que por este personagem alcançou um novo nível de estrelato), e o adorável Grogu, durante algum tempo conhecido pela alcunha de “Bebê Yoda” por pertencer à mesma espécie do já mencionado mestre Jedi, e que possui, embora ainda sem lapidação, um considerável potencial com a Força. Apelando frequentemente para a nostalgia, que se tornou ao mesmo tempo o principal produto da Disney e um dos seus mais salientes sinais de desgaste, The Mandalorian pelo menos tinha/tem o mérito de apresentar mundos e rostos novos, ainda que recorrendo à segurança do familiar e “capitalizando” em cima do seu valor de marca para dar sobrevida à bilionária galinha dos ovos de ouro que é Star Wars. Também é muito interessante que a série tenha investido em ser uma espécie de faroeste espacial, um space western e não exatamente uma space opera, afastando-se substancialmente do tom épico da Saga Skywalker, com consequências na verdade bastante benéficas para a saúde deste universo ficcional.
Assim, é com um certo dissabor que venho informar que Star Wars: O Mandaloriano e Grogu não é muito mais do que um formulaico episódio estendido da série, dirigido pelo próprio Jon Favreau e manufaturado para garantir muito dinheiro nos cinemas. Está evidente que o que poderia haver de renovador na série já está tão morto quanto Darth Vader, Imperador Palpatine, Obi-Wan Kenobi, Han Solo, etc, restando apenas o seu fantasma (mas dos ruins, não um fantasma da Força).
Chega o momento de repassar algumas palavrinhas sobre a trama. No filme, Din Djarin ou “Mando” (como costumam chamá-lo) e Grogu, seu parceiro e filho adotivo, envolvem-se em importantes missões encomendadas pela Nova República com o fito de encontrar o paradeiro de antigos oficiais do dissolvido Império Galáctico, principal ameaça à reconstrução democrática do universo. Lá vem um comentário óbvio e chato, desculpe-me. Este filme foi produzido nos Estados Unidos, certo? Sobretudo em tempos de Donald Trump, “república”, considerando o que já foi permitido sob sua égide, deveria já ser reconhecido como conceito esvaziado. Imaginar uma oposição moral exata entre república e monarquia, enquanto ambos os sistemas de governo, no mundo real, têm sediado na prática regimes autocráticos e democracias de fachada, é de uma ingenuidade maniqueísta que só faz sentido na fantasia profundamente estadunidense, e desgastada, de Star Wars.
Tá, deixemos de lado a minha chatice, que posso admitir derivar de implicância desproporcional de minha parte com a previsível simplificação política de uma franquia “family-friendly” produzida no ocidente. Star Wars, mesmo quando se mostrava curiosamente envolvido por intrigas políticas nas prequels, raras vezes foi bem-sucedido em tratar estes aspectos com efetiva complexidade. Talvez a qualidade surpreendente da série Andor, esta sim uma verdadeira exceção, tenha me levado a nutrir expectativas pouco realistas em relação a novos projetos. Adianto: temos outros problemas pela frente e vou ter de ser implicante de novo.
A primeira metade do filme concentra-se no resgate de Rotta, filho do falecido mafioso Jabba. Din Djarin procura trazê-lo de volta para os tios em troca de informações privilegiadas destes sobre um elusivo ex-membro do alto escalão do Império. Talvez o filme desse uma deixa para uma reflexão sobre paternidade, algo até sugerido no apreço e na “inveja positiva” que Rotta sente pela relação de "Mando" com Grogu, mas a narrativa se exime de quaisquer comentários mais elaborados. Um pouco de reflexão demonstraria que a coisa, na verdade, desanda bastante.
Rotta, tritagonista do filme, oposto moral do seu tirânico pai e dos demais Hutts, é uma alma sensível e gentil, apesar do seu intimidador corpanzil musculoso, que vive sob a sombra do legado de horror de um dos mais temidos criminosos da galáxia. Ao contrário dos outros Hutts, é claro, Rotta fala inglês, o que em Star Wars faz as vezes de língua universal da humanidade – e este é o critério civilizatório para o estrangeiro ou racializado ser assimilado à sociedade. O filme só aceita a redenção através da aculturação positiva. Afinal, falar um inglês perfeito e ostentar um corpo (relativamente) saudável são as principais marcas que o diferenciam dos criminosos obesos que constituem a espécie maligna, inatamente violenta e estrangeira de seu pai e de seus tios. Com inúmeras possibilidades de aproveitar a sua diversidade de espécies fantásticas para discutir com mais inteligência questões como racismo e xenofobia, o filme prefere seguir uma rota tão fácil, tão fácil, que se torna árida como Tatooine no que guarda de problemática. De boas intenções o covil do Rancor está cheio.
É cômico que os responsáveis pela nova era de Star Wars tenham sido atacados nos últimos anos por supostamente defenderem “valores woke”, espantalho muito estimado por discursos neoconservadores e reacionários, sendo que qualquer ideia progressista efetivamente gestada em Star Wars é filtrada por uma mundivisão neoliberal, por um imaginário “americanocêntrico”. Lembremos que Star Wars, a marca, está ela mesma a serviço de um “império” corporativo e configura-se, em relação à influência cultural dos Estados Unidos, como potente arma de soft power.
A muleta da nostalgia em O Mandaloriano e Grogu é outro aspecto que incomodará qualquer pessoa que não esteja amorosamente envolvida com estes produtos. Diálogos e situações precisam fazer referência, mesmo que da forma mais artificial possível, a personagens e cenários reconhecíveis, pois há uma crença de fundo de que Star Wars dependeria da produção contínua de familiaridade para se garantir, com baixo risco, como produto vendável. Até a presença de Sigourney Weaver como figura de autoridade ecoa de propósito o consagrado papel de Ellen Ripley na saga Alien (que agora também é propriedade da Disney). Assim, não se é incentivado a fazer um bom filme, que se sustente como obra de arte independente, mas a anexar mais eventos e personagens, mais itens consumíveis, a um aglomerado que só pode ser integralmente apreciado com o usufruto incessante de outros produtos, isto é, dos outros anexos.
Porque, enquanto filme, O Mandaloriano e Grogu é simplesmente uma colagem pouco imaginativa de cenas de ação, entupidas de efeitos digitais, com pontuais intermissões para reforçar a ligação entre os protagonistas: olha quão fofo Grogu é! Olha quão dedicado ao filho adotivo Din Djarin é! Ainda assim, o que há de mais significativo sobre eles? Sim, eu sei que Grogu é fofo. Eu também sei que querem me induzir a comprar um boneco, uma bolsa, uma mochila, uma camisa oficial, uma garrafa térmica, o que quer que seja, com um Grogu estampado. Um mérito inegável: Jon Favreau acertou ao insistir no uso de fantoches para animá-lo, criando um bem-vindo contraste com o artificialismo digital reinante no filme. Resistir a Grogu é difícil e eu mesmo não sou completamente imune ao seu charme. Agora, com honestidade, o que é este pequeno jedizinho enquanto personagem? Um ET bonitinho que ama o seu pai e o salva e protege quando preciso? Ele entra no filme de um jeito; ele sai do filme do mesmo jeito. Para a Disney, ele é um lucrativo produto que vale a pena manter o mesmo. Seu crescimento seria um risco. A paternidade de Mando pode ser bonita, mas essa outra...
A propósito, e Din Djarin/Mando? Se o personagem realmente tinha certo desenvolvimento na série, encontrando um ápice dramático na segunda temporada, tem-se a impressão de que ele já deu tudo o que tinha pra dar. Din Djarin não diz nada de novo sobre si próprio neste filme. Ele tem duas exclusivas funções: ser pai dedicado e ser badass. A sua inexpressividade como personagem se confunde com a do seu capacete: e, neste filme, o curto tempo no qual Pedro Pascal exibe o seu rosto não faz a menor diferença. As sequências de ação e as crises enfrentadas pelos protagonistas (que nunca convencem, senão como pretexto para exaltar a paternidade fofa de um, a fofura natural de outro e o cuidado fofo de um com o outro) não conseguem camuflar a inércia emocional da narrativa.
O Mandaloriano e Grogu tem um compromisso declarado com o agradável, e talvez de fato agrade aos seus fãs, mesmo que isto implique a eliminação de voos artísticos mais altos. Não sejamos ingênuos: o filme é fruto de muita “ambição”. É o mais ambicioso do mês ou do ano. Só que a sua ambição não é do tipo que desejaríamos. Não dá pra tirar muito das lições de Yoda se a sua sensibilidade está mais afinada com a do Imperador.


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