terça-feira, 28 de abril de 2026

Análise | O Diabo Veste Prada 2 (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Anos depois de sua experiência agridoce na redação da Runway, maior revista de moda dos EUA, a jornalista laureada Andy Sachs (Anne Hathaway), após ser recontratada como editora pelo CEO do grupo proprietário da revista, que enfrenta uma crise de imagem, reencontra a antiga chefe dos primórdios de sua carreira, Miranda Priestly (Meryl Streep). A confiança adquirida com o sucesso profissional vacila quase imediatamente diante do ícone: a mulher competente e inteligente regride por um instante àquela menina recém-formada ansiando por validação. Pode-se dizer que há um aspecto psicológico em jogo. Afinal, Miranda se notabilizava pelo rigor e pela exigência, no mundo já inóspito das revistas de moda, em proporção que beirava ou ultrapassava o assédio moral. As cicatrizes de um ambiente de trabalho tóxico, transformadas em trauma, podem nunca realmente curar – poucos ambientes imaginários podem se igualar ao infernal das assimetrias abusivas e das diferenças inconciliáveis de um escritório. Contudo, reduzir a reação de Andy a esta impressão seria uma meia cegueira, pois ignoraria que, mais do que o assombro do fantasma de antigos conflitos, o que realmente emana da jornalista veterana é um sentimento de profunda reverência.

Se o trabalho no mundo tardocapitalista é uma fábrica de infelicidade, Miranda, mesmo jogando o jogo e endossando tanto de sua disforia, é também a seu modo um ponto fora da curva. Por trás do olhar duro, sempre desconfiado e insatisfeito, esconde-se uma grande escola de mulheres poderosas (e a própria Andy, gentil, mas também brilhante e confiante, é certamente uma de suas melhores alunas), em um ordenamento de mundo que tem ojeriza a elas. Sofisticada, altiva, honesta e excelente no que faz, Miranda pode incomodar a sensibilidade de quase qualquer pessoa, mas sobretudo é o pesadelo supremo do imaginário redpillado. A propósito, O Diabo Veste Prada 2 é um filme em que os personagens homens são coadjuvantes das mulheres, com frequência sendo delas dependentes ou por elas chefiados e controlados. Isto não determina um suposto “desprezo” contra o masculino – o filme também tem sua cota de homens empáticos, bem-sucedidos, bons parceiros e profissionais. A diferença crucial é que, neste mundo ideal, a mera masculinidade não deve servir de critério para que se faça sombra sobre pares igualmente ou mais capazes.

Se os ditos cruéis e as demandas impossíveis de Miranda, ou os seus juízos de valor sem filtro (os quais, em nossos anos 20, levam-na de imediato ao curso de reciclagem, quando não ao cancelamento), são de fato vícios de uma velha nobiliarquia branca sem autoconsciência e dos privilégios do poder e do status, não por isso invalidam a profissional que precisa ser triplamente mais rigorosa do que a média para garantir a excelência e a respeitabilidade que se tornaram suas verdadeiras marcas registradas. O que Miranda tem de intragável, também tem de insubstituível.

É impossível não conversar sobre o elenco de O Diabo Veste Prada 2, a qualidade mais evidente do filme dirigido por David Frankel e escrito por Aline Brosh McKenna. A começar por Meryl Streep, que se diverte (e nos diverte) horrores com a famosa personagem, sem deixar de humanizá-la com as nuances de performance, as sutilezas de entonação e fisionomia, indiciando vislumbres do cansaço acumulado de alguém que vem trabalhando muito por muito tempo. Streep cristaliza o caráter de sua personagem: sua devoção profissional, além de nunca a tornar cega para seus inimigos e seus verdadeiros aliados, jamais se deturpa em força contrária ao seu amor-próprio ou à sua aura de autoridade. E bote “aura” nisso, como os mais jovens, sem (provavelmente) a leitura de Walter Benjamin, gostam de repetir. Pense no brutamontes ficcional mais poderoso que você conhece: garanto que, caso Miranda adentrasse um mesmo aposento, ele teria de se sentir compelido a abrir passagem, se calhar abaixando a cabeça. Por sua vez, Emily Blunt e Stanley Tucci, bons atores, também retornam aos seus personagens com um trabalho divertido e sensível, enquanto Kenneth Branagh faz uma participação de luxo.

Contudo, o coração do filme é mesmo a Andy de Anne Hathaway, uma atriz talentosa que agora conta com um incremento substantivo de experiência. Mantendo o seu idealismo, matizado pela experiência dos anos de redação, Andy, de modo não declarado, é a maior “cria” de Miranda, pois “melhor” do que ela em mais de um sentido. Pupila sensível e idônea, ela nada bem longe do modelo neoliberal da girl boss que personagens como a sua chefe supostamente teriam inspirado. Hathaway compõe uma figura definida pela competência e inteligência, não mais pela insegurança, com uma vida emocional equilibrada (na medida do possível) e cuja confiança sem egocentrismo na própria capacidade não é mais abalada por percalços e tiradas de superiores narcisistas. Confesso que as constantes piadinhas relacionadas ao seu “mau gosto” para moda parecem um tanto ridículas (e estou convicto de que o filme, e a personagem, têm consciência disso), uma vez que a presença estonteante de Hathaway é a única coisa tão magnética quanto a de Streep.

O Diabo Veste Prada 2, para o que acredito será a surpresa de muitos, não se resume a uma continuação caça-níquel, embora, é óbvio, não deixe de transparecer um pouco desta verve. O seu pano de fundo, o ocaso do jornalismo tradicional, é o primeiro sinal de há algo mais a ser dito. Se há duas décadas o cenário apocalíptico já começava a se constituir, ainda não se podia prever com clareza o ritmo avassalador que teriam a falência do jornalismo impresso, a explosão das redes sociais, a disseminação global das fake news e, mais recentemente, o avanço da inteligência artificial. Logo no início da trama, Andy recebe, no exato mesmo instante, um importante prêmio e a sua carta de demissão. Mais um veículo demitiu todos os seus profissionais, apesar do saldo positivo milionário naquele ano – cenário familiar que sugere se tratar menos de questão de premência e bem mais de otimização dos lucros (expressão horrorosa que a gente sabe ser eufemismo torpe para “ganância”), às custas de perdas qualitativas e de profissionais humanos qualificados. Quando retorna à redação da Runway, agora com a missão de salvá-la com uma linha editorial mais consciente, Andy se depara com uma revista que, apesar de se manter rica e influente, já não goza dos orçamentos ilimitados e prerrogativas glamorosas que a singularizavam no agitado universo do fashion business em seu auge. Não há o escrúpulo da fantasia aqui: até em seus domínios mais rentáveis, o jornalismo tradicional, ou o jornalismo como um todo, está sob ameaça de extinção, a exemplo de tantas outras áreas ligadas à criação e à reflexão humanas.

Em uma cena central de O Diabo Veste Prada 2, que registra o ápice da crise enfrentada pela revista e pelas suas protagonistas (pois Miranda antagoniza, mas não é uma antagonista per se), a poderosa personagem de Meryl Streep não consegue segurar a lágrima furtiva, até então inflexivelmente contida, tendo "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci como plano de fundo. Na ocasião, o mais paspalho dos personagens, o multibilionário Benji (Justin Theroux), possível comprador do grupo comercial que detém a Runway, sugere que as obras humanas, substituíveis em nível de mediocridade pelo subproduto das inteligências artificiais, estão perdendo seu lugar útil no mundo. Por mais imbecis que Benji e suas opiniões sejam, Miranda sabe que ele não está de todo errado. Entretanto, as hesitações nunca são definitivas para Miranda Priestly: um desabafo íntimo, na companhia de alguém que ama, é o suficiente para recobrar sua força “diabólica”. Faz-se necessário o protesto contra a destruição do que é belo pela manutenção do ícone.

Vale dizer que o filme é burocraticamente correto, mas demonstra um montante considerável de problemas. Do ponto de vista cinematográfico é bastante convencional, de modo quase doloroso ao desperdiçar as locações na Itália. Há subtramas mal resolvidas, personagens e situações que poderiam ser limadas e algumas piadinhas que não funcionam (estou cada vez mais convencido de que os estadunidenses desaprenderam a fazer humor no cinema). Além disso, a indústria de moda é um território politicamente muito mais complicado do que o que se afigura aqui. Estamos falando de um antro internacional de exploração humana. Qualquer problema nesse sentido, como é de fato aludido no início do filme, é tratado de modo esquivo, receoso, para que não se confrontem grifes que sem dúvida tiveram participação no budget. Pena que esta mácula considerável no item de Prada não deveria ser ignorada em um filme que, mesmo vestido de comédia, tem a pretensão de afirmar algo de significativo sobre o mundo.

Pelo menos O Diabo Veste Prada 2 não está tão preocupado assim com fashion magazines e desfiles. Seu verdadeiro interesse é a ideia de legado. Legado artístico, profissional, humano. Capacidade não necessariamente a de montar “marcas”, mas a de “deixar uma marca” de fato, de diversas maneiras. Se Mirandas podem em breve não ter mais lugar neste mundo, o que é uma lacuna sem reparo possível, é preciso ainda assim que Andys sucedam-nas, em áreas mais ou menos nobres do que a da moda, para salvar estas de sua vulgarização e morte. Há, deste modo, o que poderíamos chamar de esperança de continuação. Análoga, aliás, à que acalentava os fãs de Diabo Veste Prada, felizardos que terão seu desejo realizado em uma sequência à altura do original.


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