As palavras “absurdo” e “Oscar” nunca estiveram tão conectadas, é comum relacioná-las constantemente nos últimos anos, e isso se deve, sem dúvidas, a alguns acontecimentos simplesmente bizarros que foram conferidos pela Academia. Desde que a premiação, na verdade, voltou com indicações mais numerosas na principal categoria, volta que aconteceu em 2010, ocorreram absurdos atrás de absurdos, como a indicação do fraquíssimo “O Jogo da Imitação”, em 2015, ou a mais recente indicação do pouco espontâneo “Estrelas Além do Tempo”, que aconteceu em 2017.
Abrir mais vagas, como tem feito o Oscar, é quase sinônimo de risco, risco relacionado à ideia de poder indicar filmes medíocres, ou melhor, poder indicar filmes que não mereciam estar entre os melhores do ano, justamente como aconteceu com os dois destacados anteriormente, dois absurdos, diga-se de passagem. Diante de tantas vagas e tantos filmes duvidosos nomeados ultimamente, eis que surge um questionamento ligado a “Green Book”, indicado a cinco categorias (filme, roteiro original, ator, ator coadjuvante e edição) na 91ª premiação: mais um absurdo no Oscar?
Quem conhece a carreira de Peter Farrelly, que dirigiu muitos filmes ao lado de seu irmão, Bobby, sabe do que estou falando, dado que seu currículo, muito ligado ao pastelão (“Debi & Lóide” (1994), “Quem vai ficar com Mary?” (1998), “O Amor é Cego” (2005)), cria, no mínimo, uma tremenda curiosidade em relação às indicações do seu “Green Book”. Farrelly não tem a carreira interessantíssima de Alfonso Cuarón, a brilhante de Yorgos Lanthimos ou a promissora de Adam McKay, trio que está disputando o prêmio principal do Oscar deste ano por, respectivamente, “Roma”, “A Favorita” e “Vice”. Mesmo que o leitor não concorde com as indicações de tais filmes, ao menos reconhece que tais cineastas possuem currículos mais sólidos, currículos que poderiam levá-los à premiação apenas por essa razão, muito diferente do que acontece com Farrelly.
O diretor de “Green Book”, como se costuma dizer muitas vezes quando se fala de Oscar, não está sendo homenageado por sua carreira, não é uma indicação-homenagem, não é uma indicação que envolva algum tipo de mérito no passado, mas sim algo que está relacionado, somente, ao presente, ao seu filme que, diferente das suas comédias apelativas de anos atrás, se encontra no caminho de um drama racial, ainda que seja pautado por blocos pontuais de humor. “Green Book” não é, em termos de qualidade, um filme para Oscar, está longe, mas muito longe, dos melhores do ano, até mesmo se pensarmos somente nas películas de língua inglesa, embora a obra também não seja nenhum desastre como muitos dos trabalhos antecessores de Peter Farrelly. O longa-metragem questionado neste texto, no entanto, possui aquilo que tem cativado, e muito, os representantes da Academia ultimamente, uma discussão sobre racismo.
A história do longa-metragem é interessantíssima, quanto a isso não há dúvidas, pois acompanha um motorista branco e racista que, aos poucos, criando uma amizade com seu empregador, um pianista negro, deixa seu lado preconceituoso e entende, mais do que nunca, que todas as ações segregacionistas são para lá de covardes. É um tipo de temática que tem conquistado o Oscar, vide “Histórias Cruzadas” (2011), “12 Anos de Escravidão” (2013), “Selma” (2014), para não falar dos coetâneos de “Green Book”, “Infiltrado na Klan” (2018) e “Pantera Negra” (2018). Muito da indicação do longa-metragem na principal categoria passa, sem dúvidas, por aí, pela temática, já que, como foi dito, e é bom reafirmar, Farrelly não tem uma carreira sólida pela qual a Academia o indicaria.
“Green Book” erra na sua composição ao apelar e se limitar, quase que exclusivamente, aos atos preconceituosos pelo qual o pianista sofre, o que deixa a trama extremamente enjoada pela sua repetição, chegando a ser previsível, e ser previsível não é nada interessante para uma narrativa. Por outro lado, a película acerta no bom humor que é capaz de produzir, também acerta na química evidenciada entre os dois personagens principais, assim como nas atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali, ambos realmente cativantes no papel de, respectivamente, um sujeito mais caloroso, mais impulsivo, e um sujeito mais frio. Farrelly tem seus méritos na direção desses pontos positivos, não há dúvidas quanto a isso, mas é pouco, dado que o filme, como já foi dito, é limitado, se encontra apenas em um plano mediano, não oferece tanto quanto às questões puramente cinematográficas.
Deve-se dizer, por fim, que a Academia, desde os seus primeiros passos, nunca foi uma premiação de só conceder prêmios a obras-primas e nomear, pelas suas mais diversas categorias, grandes pérolas do cinema, não, nunca foi isso, mas cada vez mais se questiona a qualidade dos filmes indicados, a cada ano que passa as coisas parecem estar cada vez mais duvidosas, não é por menos que o grupo de nomeados a melhor filme nesta 91ª cerimônia do Oscar é um dos mais fracos da história, senão o mais fraco, salvo, excepcionalmente, por “Roma”, uma obra-prima indiscutível. Tão duvidosas são as escolhas da premiação que Peter Farrelly, mesmo que traga uma direção competente, consegue beliscar uma vaga na principal categoria, e podemos chegar a conclusão de que “Green Book” é e não é, ao mesmo tempo, mais um absurdo no Oscar: se levarmos em conta toda a história da Academia, pensamos, sim, que é um absurdo, já que a obra é apenas mediana, tal como é um absurdo vermos as indicações de “Pantera Negra”, “Bohemian Rhapsody” e “Nasce uma Estrela, mas não é um absurdo se levarmos em conta a quantidade de obras medíocres nomeadas nos últimos, muitas delas piores do que o nosso discutido “Green Book”, a exemplo de “Até o Último Homem” (2016), de Mel Gibson. Independente de qualquer ponto de vista, de uma coisa estamos certos: nós vivemos para ver Peter Farrelly indicado a melhor filme no Oscar, e duvido que alguém tenha apostado, um dia, nessa proeza.
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