quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Análise | O tenebroso jogo de luz e sombra em Elektra Vive (1990)


Lançada em 1990, roteirizada e desenhada por Frank Miller, Elektra Vive é uma das obras mais interessantes que foram publicadas pela Marvel mesmo que levemos em conta toda a história da Casa das Ideias. Executada como uma graphic novel, a história em quadrinhos destacada é tudo isso que foi falado pela razão de ser muito bem organizada estruturalmente e apresentar uma leva de possíveis leituras em que o leitor pode se direcionar.

No primeiro momento da narrativa, uma página composta por cores esbranquiçadas acolhe um elemento estranho, um elemento atípico, pois em plena primavera acontece uma tempestade de neve em Nova Iorque, parece que o inverno se estendeu, e isso causa alguns transtornos na Big Apple, como no seu trânsito. Outros aspectos estranhos apareceriam na história, como as fronteiras pouco rígidas entre sonho e realidade, mas o que mais chama a atenção nesse início é uma coloração mais clara que, logo depois, entraria em um constante conflito com o seu lado oposto, com uma coloração mais escura, carregando elementos poéticos à obra.

Depois de caminhar pela cidade banhada de neve citada acima, Matt Murdock, o personagem-condutor da história, entra em uma igreja, e a primeira impressão que se tem é a de um local bastante escuro, escuridão que representa bastante, diga-se de passagem, as falas de Matt, falas direcionadas a um padre que serve como um personagem-orelha para dar sequência à trama. A representação é válida pela razão de as trevas coincidirem com o conteúdo do diálogo, conteúdo ligado a um luto ainda não finalizado por parte de Murdock, e coincidirem com os pesadelos macabros que o Homem sem Medo descreve. De mais iluminado naquela escura igreja só encontramos os vitrais com imagens de anjos, santos e figuras semelhantes, imagens que estão localizadas, quando a narrativa se encontra no centro religioso, no alto das páginas, um fator interessante se pensarmos que Matt pede a ajuda dos céus para superar o trauma por conta da morte de Elektra.

Falando nas questões que envolvem o jogo de luz e sombra, logo depois de Matt sair da igreja e, no seu sono, ser mostrado em imagens, não mais em palavras, um pouco dos pesadelos constantes que o protagonista tem com Elektra, é possível perceber que, em alguns quadros, o personagem está pautado por pedaços de luzes que, às vezes, cobrem o seu rosto, mas também por um fundo que está composto somente pela escuridão. Mais tarde, depois de alguns dias, quando Murdock tenta contato com Karen Page, que está em Los Angeles, vemos que na cena da ligação o seu corpo inteiro, salvo o seu roupão, está coberto pela escuridão, pelas trevas, um trabalho muito bom da dupla de autores na representação do momento complicado, de vazio interior, que vive aquele personagem.

Nem mesmo quando Matt está ligado a uma relação sexual, pelo meio da história, cores mais quentes, que seriam pautadas por uma iluminação mais sólida, tomam conta das imagens, pois o que visualizamos, novamente, é a predominância da escuridão, escuridão que enche de sombras os cômodos onde o protagonista se encontra. Em contrapartida, o personagem, quando tem pesadelos com a sua antiga amada, Elektra, não mergulha em imagens escuras, mas sim em imagens iluminadas, iluminadas como um dia ensolarado, embora não menos perturbadoras e sombrias que aquelas em que a ausência de luz se firma.
Elektra Vive

Acontece que, nos pesadelos, intercalados o tempo todo na história junto ao cotidiano de Matt, uma intensa nevasca serve de base para a construção imagética, por isso a claridade. Embora haja luz em termos visuais, não há luz em termos simbólicos, isto é, não há estabilidade, pacificidade. Os sonhos de Murdock estão ligados o tempo inteiro ao sombrio, à agonia, em que Elektra é perseguida por mortos-vivos, em que Elektra luta contra ninjas e, durante a luta, derrama um balde de sangue, sangue que fica ainda mais enfatizado graças à intensa nevasca das cenas. Toda a composição clara dos pesadelos, portanto, é enganosa, pois é tão cruel, tão sombria, tão agonizante, quanto às cenas em que a escuridão toma conta dos arredores do protagonista.

O ápice da escuridão, pensando por um ponto de vista puramente visual, ainda que tenha fortes contornos simbólicos, acontece quando Matt vai ao necrotério conferir se o Mercenário (Bullseye), vilão que matou Elektra, está realmente morto, isto é, vai ao local para realizar o reconhecimento do corpo. Em uma das páginas em que o personagem se encontra com o corpo, a coloração preta, quase que plenamente, toma conta da imagem, quase a página inteira é banhada pela escuridão, uma referência clara a uma das principais cores do uniforme do antagonista, mas também uma ligação profunda com um momento desolador para Matt, dado que aquele momento não é de alívio, alívio por ver o assassino em série morto, mas um momento que o relembra que o Mercenário foi o pivô sobre aquilo que é talvez o maior trauma da sua vida, que é a morte de Elektra, talvez maior do que o acidente que o deixou cego e talvez maior do que a morte do seu pai.

Falando no Mercenário, depois de dado como morto, um grupo de ninjas do Tentáculo invade o necrotério em busca do corpo do sujeito, com o intuito de ressuscitá-lo, e quem vai buscá-lo é ninguém menos que Elektra, uma Elektra descontrolada, estranha, que luta contra inúmeros mortos-vivos no local. Sonho e realidade parecem se misturar aqui, a atmosfera é perturbadora se levarmos em conta os desabafos antecessores de Matt, e como de costume na obra que está sendo analisada aqui, o jogo de luz e sombra, entre o claro e o escuro, volta a acontecer com bastante solidez, é retomado em situações que ganham cada vez mais intensidade por conta da aproximação junto ao clímax.

Elektra aparentemente está de volta, faz justiça ao título da história, e o Mercenário também parece ter retornado, renascido depois dos diabólicos sacrifícios feitos por alguns membros do Tentáculo. Elektra e Matt, mais para o final da trama, lutam contra o antagonista, uma luta feroz, em que mais sangue é destacado no momento do combate, elemento natural quando se entende que a luta dos mocinhos acontece contra um dos maiores assassinos do Universo Marvel. As consequências da luta são graves, com Matt sendo espancado a um nível verdadeiramente preocupante e com Elektra, mais uma vez, se encontrando com a morte.

Em uma splah page magnífica, brilhante, uma releitura clara de Pietà (1499), escultura de Michelangelo, Matt, com um manto negro, segura o corpo de Elektra, que está vestida com uma densa roupa branca, roupa que mais lembra os traços de um traje de uma freira. As cores extremas mais uma vez se encontram aqui, representam o momento confuso, um momento dono de uma forte oscilação de trevas, representadas pelas cores pretas e pela morte, e de luz, representada pelas cores brancas, luz que está relacionada, também, ao reencontro de Murdock com a sua amada, mesmo que seja um brevíssimo encontro.

No final da história, veríamos que Matt, a exemplo do sacrifício sofrido de Otelo contra Desdêmona na peça de Shakespeare, peça esta chamada Otelo (1604), sofre com a sua ação libertadora, pois liberta a sua antiga companheira com o fogo, e o fogo, como pode ser percebido, ilumina, assim como confere sombras, como as que cobrem, plenamente, uma enorme cruz. Se há uma oposição, o tempo inteiro, entre luz e sombras, entre o preto e o branco, também é possível encontrar alternâncias entre o anjo, visto nos vitrais iniciais e na presença de Elektra, e o demônio, seja na figura do Mercenário, composto por cores levemente avermelhadas, seja no sacrifício que fazem para ressuscitar o mesmo assassino, seja no alter ego de Murdock, o Demolidor.

Elektra Vive, além de conter tais oposições destacadas ao longo de todo este texto, é uma obra que pode ser lida de outras formas, pode ser lida, por exemplo, através de um ponto de vista psicanalítico, pela força do inconsciente como um mecanismo capaz de saciar um desejo irrealizável no plano da realidade, somente nos sonhos. Independente de qualquer direcionamento de análise sobre essa belíssima história em quadrinhos, não há dúvidas quanto a uma coisa, de que o texto analisado aqui é digno de aplausos.

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