quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Análise | Núpcias de Lama (1974): o ápice do cinema de incômodo

Núpcias de Lama

“Núpcias de Lama” (1974) talvez seja o maior dos nomes, em terreno cinematográfico, quando pensamos na instigante estilística do incômodo. Mesmo que, com o passar dos anos, tenhamos tido exemplares geniais na proposta de revirar o estômago, a exemplo do italiano “Salò, ou os 120 dias de Sodoma” (1975), de Pier Paolo Pasolini, ou do mais recente “Anticristo” (2009), de Lars von Trier, nada parece superar o filme belga dirigido por Thierry Zéno, um filme simplista, barato, quanto aos seus recursos, quanto ao seu orçamento, um longa-metragem que, com o tempo, não esteve nos holofotes, talvez nem mesmo para aqueles que mais buscaram se aprofundar em tais estilísticas voltadas ao plano do incômodo.

Uma boa obra de arte, seja dito de passagem, é aquela capaz de causar certo incômodo, visto que a sua sintaxe, tomando como base aquilo que fala Chklovsky, “desautomatiza” a linguagem usual e a arquiteta com o fim em si mesma. Se voltarmos no tempo, para os primórdios da história do cinema, “A chegada do trem na estação” (1895) causou certo estranhamento, causou, portanto, algum tipo de incômodo no seu público, por isso muitos dos espectadores correram da sala de cinema no momento da projeção, com medo daquela nova (estranha) mídia, dando ainda os seus primeiros passos. Nada se compara, contudo, àquelas fitas que, mais do que causar o estranhamento, mais do que causar o incômodo com uma arquitetura original, ímpar, potencializam a sua estética, já “desautomaizada”, a favor de um incômodo mais intenso, de um incômodo mais dolorido, digamos assim.

“Núpcias de Lama”, voltando à obra destacada primeiramente, é um representante perfeito de tudo isso que comentamos há pouco, sendo um filme que conta a história de um indivíduo extremamente solitário, que vive em uma residência consideravelmente grande e recheada de animais, animais como porcos, como galinhas, como patos e perus. Os primeiros segmentos da fita já são estranhos por natureza, eles captam um sujeito que, posto em primeiro plano, é evidenciado ao lado de uma gaiola com alguns pássaros dentro dela. Nesse exato instante, o personagem, configurado mais tarde como o protagonista, pega esses mesmos pássaros e tenta colocar, em suas respectivas cabeças, faces de bonecos que mais lembram bebês. 

Essa cena descrita agora, silenciosa por não haver falas, um tipo de comportamento que seria constatado no restante da película, não é explícita quanto àquilo que quer designar, mas é possível deduzir, já nesse início, que o sujeito parece possuir alguma questão envolvendo crianças. O protagonista, no entanto, vive sozinho por lá, e conforme o tempo passa é possível perceber que os únicos seres vivos com quem ele se relaciona são aqueles seus animais domésticos citados mais acima, sendo possível, naquela altura da projeção, sentir pena do rapaz devido ao seu isolamento, à sua solidão, até que as coisas são completamente mudadas, pois o personagem principal, de modo bizarro, passa a ter relações sexuais com a sua porca. 

Em mais de uma situação visualizamos o sujeito, completamente nu, indo em direção ao animal citado. A porca, depois de algumas dessas situações, fica grávida do mesmo indivíduo, e sabemos disso pela razão de não haver, de não ser mostrado, qualquer outro ser que poderia ter concebido os filhotes de porco. Essas cenas são bizarras, são estranhas e, por natureza, são incômodas, a zoofilia impulsiona, naturalmente, o desagrado no espectador, mas é necessário destacar que a estética, com os seus planos mais abertos, capta a correria doentia do protagonista, nu, para pegar a porca e nela realizar a penetração, é o resumo perfeito da estilística do incômodo. O título, diga-se passagem, nos entrega um pouco dessa realização bruta e, também, nos lembra de que a zoofilia se dá, ainda, em um chiqueiro, o que só acentua a repulsa frente à situação. 

Nota-se que o filme é cortado por outros momentos horrendos ligados ao personagem principal não nomeado ao longo de toda película, lembrando que muito disso da não nomeação talvez passe pelo seu isolamento, não havendo um personagem-orelha sequer, momentos como aqueles em que o mesmo se encontra defecando em uma espécie de bacia que fica localizada no quintal da sua casa, justamente onde os animais ficam. Nessas situações, o incômodo é concretizado em relação ao visual, claro, mas, nesses segmentos, o que mais provoca o espectador é o plano sonoro, e isso acontece pela razão de os efeitos de som se encontrarem nas alturas no momento de representarem os sons das flatulências do rapaz. Fora isso, mais visualmente falando, planos-detalhe captam o excremento do homem, sendo esse enquadramento aquele que, ao lado do close-up, mais destaca aquilo que o narrador pretende expor em um primeiríssimo plano.

O riso, nesses momentos, pode até ser executado, o que inclina a obra, portanto, ao grotesco, mas isso se perde com o passar da projeção, posto que cenas ainda mais estranhas e ainda mais brutais passam a tomar conta daquele cenário difícil de ser catalogado. A pobre porca, grávida do sujeito, mais um dos pontos esquisitos da película, tem os seus filhotes certo dia. O nascimento dos mesmos é, por incrível que pareça, muito bonito, é carismático e convidativo visualizar os pequenos animaizinhos sendo alimentados pela mãe, mas, diante do que já havíamos visto, é impossível, ou quase impossível, não criar expectativas para com aquilo que estava por vir, tudo isso porque a estética bruta, bizarra, acompanhada até aquele momento, nos faz esperar por mais momentos agonizantes, e eles logo chegam. 

A camada sonora continua imprimindo a proposta incômoda, ela cristaliza estresse com um sintetizador inquieto colocado nas alturas, mas, além do que ressaltamos, esse mesmo recurso atrelado ao som tenta, ou finge, representar, de modo bizarro, as falas de algumas das aves do protagonista, como se elas comentassem ou fofocassem sobre os acontecimentos terríveis vistos naquela residência que pode ser lida/entendida como uma casa mal-assombrada, como um legítimo locus horribilis. Deve-se dizer, outrossim, que o plano sonoro seria, mais tarde, acentuado nos momentos em que, em trechos extensos, o personagem mostraria estar ofegante, agoniado, depois de tentar, nos blocos finais do filme, o suicídio.

O suicídio do mesmo é desencadeado depois de o mesmo entender que a sua porca ou se matou ou, abalada emocionalmente, sofreu um acidente e acabou morrendo depois de se desequilibrar durante uma caminhada. Essa tragédia é executada, também é preciso destacar, depois de a figura principal, depois de o monstro, entender que aqueles três porquinhos, os seus filhotes, dão mais atenção à mãe do que a ele mesmo e que os pequenos animais não conseguem se comportar como legítimos humanos, vide a cena em que o rapaz os coloca à mesa, para o jantar, e, na situação, os mesmos não sossegam frente aos seus pratos banhados de leite, o que é entendível, afinal, são meros animais. Não conseguindo o que quer, o personagem principal os mata friamente, enforcados, mas a narrativa, nos poupando um pouco daquele cenário já volumosamente caótico, não os mostra sendo executados, os mostra apenas mortos, o que impacta, é claro, mas é um tipo de situação que não é dolorosa como seria se o narrador nos destacasse a morte em andamento, em processamento. 

É necessário acrescentar e dizer que poupar o público da execução dos três porquinhos não é um ato de piedade da narrativa, mas sim uma tentativa da direção de não deixar tudo muito forçado, apelativo. Até o momento em que o personagem principal tenta se matar ao se enterrar ao lado da pobre porca, recentemente morta, o filme estava longe de tais apelações, na verdade, só que esse tipo de movimento, infelizmente, seria concretizado no bloco final da fita. Ao mesmo tempo que o longa-metragem acerta ao compor a máxima do incômodo na altura do clímax, pois é, afinal, o ápice do descontrole do sujeito, é possível visualizar um tipo de atitude errônea por parte da narrativa, uma atitude relacionada à pura apelação. 

Filmes ligados à potencialização do incômodo tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, geralmente, caem nessa armadilha da apelação, mas, por incrível que pareça, dado o conteúdo extremamente incômodo e bizarro, “Núpcias de Lama”, até o seu bloco final, não pende tanto a esse tipo de comportamento. A representação do ápice do descontrole do protagonista ocorre de maneira apelativa ao evidenciar o único ser humano do filme se alimentando das suas próprias fezes, sendo um dos momentos mais fortes, sobretudo pela proximidade dos planos ao ato, a parte em que o homem vai até a bacia onde havia defecado e começa a colocar pedaços do seu próprio estrume, ainda inteiros, na sua própria boca. 

Cenas como essa são tão fortes ou mais até do que aquela em que o personagem executa relações sexuais com a sua porca, mas a grande questão é que essa última não apela, possui até certo grau de afastamento por parte do narrador, que testemunha o terrível ato de mais longe. As cenas em que as fezes são ingeridas, porém, são diferenciadas nesse quesito, são volumosas em tempo de imagem, além de serem vistas em composições diferentes, quando, por exemplo, um bule esquenta o estrume, como se estivesse sendo cozinhado, preparado para comer. 

O mais curioso de tudo é que um dos grandes acontecimentos da obra, que é a morte dos filhotes do sujeito com a porca, se dá de forma incoerente, pois, enquanto o protagonista tenta humanizar os porquinhos, ele mesmo é pouco ou nada humanizado, uma incoerência muito bem-vinda à película, diga-se de passagem, pois só enriquece o plano bizarro que está sendo impresso no longa-metragem. “Núpcias de Lama”, diante de tudo o que vimos, é a máxima do cinema pautado pela estética do incômodo, e o melhor de tudo é que boa parte da obra não se dá pela apelação, apenas o seu final é assim, um final muito bom por representar o máximo da brutalidade na altura do clímax, quando a figura principal mostra o ápice do seu descontrole, mas ruim quando se comporta de maneira apelativa devido a sua disposição volumosa e repetitiva de um mesmo ato.

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