A sensação que dá, no começo de “O despertar dos mortos” (1978), de George A. Romero, é a de que a película é iniciada pelo clímax. Em uma espécie de emissora de televisão, uma enorme confusão é cristalizada quando se tem a ciência de que está acontecendo um apocalipse zumbi, e logo depois, numa espécie de segundo núcleo do longa-metragem, ainda nos instantes iniciais da fita, um enorme grau de violência é concretizado quando policiais invadem um prédio lotado de mortos-vivos, um segmento que gera horror pela forma como as criaturas se alimentam e pelas muitas mortes que ocorrem.
Um enorme caos é evidenciado nesse começo, e além desse tumulto, ótimo para evidenciar um pouco do tom que seria firmado na película mais tarde, uma película cheia de intensidade, uma rápida parte expositiva apresenta a forma como os zumbis se alimentam, como eles devem ser mortos e por qual motivo devem ser mortos. Para o espectador que está iniciando em obras com tais figuras macabras em suas tramas, a brevíssima exposição é bem-vinda, e para aquele que já está mais acostumado a tais tramas é uma forma de se (re)ambientar, de se acomodar, em relação à temática.
Após a concretização do caos e da exposição, quatro personagens se juntam, dois funcionários que trabalhavam na emissora anteriormente referenciada e dois policiais que estavam na operação do prédio infestado de zumbis. A partir disso, cada vez mais as cenas violentas se tornam comuns nos filmes, close-ups acolhem os mortos-vivos no momento em que estão sendo baleados na cabeça, e os enquadramentos mais afastados, deve-se dizer, acolhem o horror, como o plano geral visto de um helicóptero, em que pode ser vista uma horda de zumbis andando por diversas regiões na superfície, nos entornos dos principais personagens.
Ao se estabelecer em um shopping center, local para onde os quatro personagens vão e se fixam, os mortos-vivos, que também estão por lá, passam uma sensação, senão outra coisa, de medo, de aflição, pois, mesmo que andem vagarosamente, se aproximam, em bandos, dos personagens principais. Em uma cena, por exemplo, para que isso que está sendo dito seja ilustrado, podemos observar o posicionamento simplista da câmera, colado a um desses personagens ocupados com alguma tarefa, e a constante aproximação de um zumbi a essa mesma câmera, um zumbi que parece que atacará, a qualquer instante, o sujeito por quem tememos e que está muito próximo do narrador, uma belíssima exploração do espaço cênico e do enquadramento por parte de Romero para gerar apreensão.
Os acertos destacados acima são importantíssimos para a criação do plano de tensão, claro, e é fundamental ressaltar que, ao longo de todo o desenvolvimento da obra, é possível encontrar blocos cativantes quanto a esse mesmo elemento da aflição, blocos que prendem o espectador naquela perigosa situação vivida pelos quatro personagens principais, lembrando que muito disso passa, indubitavelmente, pela fotografia. Se não bastassem os enquadramentos mais ligados à questão de noção de espaço, de aproximação e distância entre zumbi e humano, podemos destacar, por outro lado, os muitos planos-detalhe que aparecem ao longo do filme como um recurso que, também, provoca tensão, podendo ser destacado, sobre essa estratégia, um revólver, elemento que indica perigo, sendo manuseado por uma pessoa, ou uma maçaneta que se mexe enquanto um dos mocinhos aponta uma arma para a porta, criando expectativas para o que pode sair de lá, precavendo-se em relação ao perigo.
A fotografia, em seus enquadramentos, é muito bem explorada por Romero, como foi analisada mais acima de acordo com algumas cenas específicas, e a trilha musical, conforme o tempo passa, também se destaca como um elemento fundamental na composição de uma atmosfera mais sombria, mais medonha. Em algumas ocasiões, é verdade, a música exagera em suas alturas, atrapalha a tensão quando abre mão do silêncio em algumas oportunidades, mas ela, além da composição mais sinistra, acerta, curiosamente, na busca pela concretização do deboche, algo que acontece quando, carregando certo tom caricato com uma música ambiente de shopping, constrói, diante do contexto, uma crítica ao consumismo desenfreado.
Devo lembrar ao leitor, para que tudo fique mais bem entendido, que a trama se fixa em um shopping center, esse é o seu principal cenário, e os zumbis, claro, estão por lá. De maneira atrapalhada, os mortos-vivos andam por aquele local enorme, eles passam pelas vitrines, e a sensação dada, muito por conta de uma música ambiente de shopping estar inserida em um contexto macabro, é a de que os consumistas compulsivos, simbolicamente falando, não passam de zumbis. Os vivos, os quatro personagens que acompanhamos, também são alvos de crítica, eles querem saquear coisas inúteis, como televisões, em meio àquele ambiente perigoso, em vez de roubarem apenas o necessário para a sobrevivência, sendo considerados, portanto, consumistas, conforme diria Bauman em sua “Vida Líquida” (2005).
Outros pontos interessantes que devem ser destacados são os dramas ligados à gravidez de uma personagem, em que se discute o aborto ou a aceitação da chegada de um filho em um meio tão caótico, e o drama da mordida, um drama menos reflexivo, mais direto, é verdade, mas capaz de impactar o espectador pela razão de acontecer em uma altura em que já nos apegamos bastante àquelas figuras. Há também a parte em que refletimos sobre o perigo, que não está ligado somente aos mortos-vivos, mas também aos humanos, tanto é que o clímax se configura com base nisso, numa batalha extremamente pesada entre os saqueadores e os personagens que acompanhamos desde o começo, tendo como peças importantes, que são inseridas no meio dessa batalha, os zumbis.
Enquanto “A noite dos mortos-vivos” (1968), o debute de Romero, é mais fechado a um ambiente, o filme analisado aqui é mais aberto em questões de espaço, possui mais deslocamentos, embora não seja menos claustrofóbico com essa abertura. A quantidade imensa de zumbis é capaz de executar tal aspecto, um aspecto importante para a concretização de uma proposta mais sombria, dramática, um acerto enorme do cineasta estadunidense, que não perdeu a mão após voltar, depois de dez anos, a dirigir uma trama de mortos-vivos.


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