terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Análise | Repulsa ao Sexo (1965)

Repulsa ao Sexo

Em “Repulsa ao Sexo” (1965), dirigido por Roman Polanski, uma mulher é desejada por diversos homens, ela é referida como uma jovem bonita até mesmo pelo namorado de própria sua irmã, seu nome é Carole (Catherine Deneuve). Ainda que seja dona de uma beleza incalculável, ainda que seja desejada por muitos, a moça citada pouco se importa com os elogios que recebe, pouco se importa, também, com o beijo recebido de um sujeito que a admirava; Carole, portanto, mostra-se indiferente quanto às questões amorosas, sexuais, desde os primeiros passos da fita.

A protagonista, na verdade, mostra-se inexpressiva frente a tudo o que a rodeia, inexpressiva e pouco enérgica, tanto é que, nos primeiros minutos de projeção da obra, percebemos que o ritmo do filme é extremamente estável, como se estivesse contaminado pela mesma personagem, algo que se acentua quando a irmã de Carole, mais agitada, sai do apartamento onde esta vive e o narrador passa a focar, somente, na personagem principal, completamente contaminado pela apatia. A irmã e o marido dessa irmã falam e gesticulam bastante, ao passo que Carole está sempre muito calada, sempre monossilábica, indo ao encontro do comportamento silencioso da narrativa, silenciosa a ponto de um tique-taque de um relógio ser capaz de rasgar o silêncio ambiente, silenciosa a ponto de fazer com que o barulho de gotas d’água caindo em uma superfície seja angustiante. 

Para que deixemos ainda mais clara essa ideia de inexpressividade, de apatia, que está sempre nos entornos de Carole na primeira parte de “Repulsa ao Sexo”, é bom que destaquemos outros contrapontos que marcam a adversidade da protagonista frente à sua irmã, lembrando que esta é a pessoa mais próxima da personagem principal. Se anteriormente ressaltamos que a irmã de Carole é mais barulhenta e mais falante, deve-se dizer, agora, que a mesma mulher sempre usa roupas de tons mais escuros e acolhe expressões mais bruscas, mais chamativas, ao passo que Carole, por outro lado, está atrelada à lentidão até mesmo no seu andar. Caso levemos em conta, também, que a figura de Catherine Deneuve está sempre com uma camisola branca-transparente, podemos chegar a conclusões mais profundas até, conclusões como a de que a mulher é um fantasma, um espectro errante no mundo dos vivos, um ser, no mínimo, estranho. 

Até mesmo quando Carole sai de sua casa, não percebemos a agitação, ao fundo, de um mundo cosmopolita. Tudo isso se dá, em primeiro lugar, pela razão de a centralidade da imagem se concentrar na personagem, o que faz com que boa parte do fundo do quadro seja tapado; em segundo lugar, os aspectos citados acima, como os trajes da moça e as suas expressões, adjetivam o ambiente, que deveria ser enérgico, de apatia. Além disso, complementando a questão que envolve a ideia de inexpressividade, devemos dizer que Carole está sempre de cabeça baixa, como se estivesse acuada, signo fundamental para que entendamos a sua fragilidade psicológica, elemento posteriormente intensificado. 

Um homem a beija em uma determinada cena, e ela não gosta, beija-o de olho aberto, mostrando a não cristalização do pacto no momento do beijo, uma reação natural caso não tenha sentido atração, é verdade, mas se levarmos em conta o que veríamos posteriormente, essa simples cena citada agora, aparentemente muito simplista, acabaria sendo chocante. Desesperada depois de receber o beijo, Carole corre para chegar em casa e, ao estar na residência, imediatamente vai ao banheiro para que consiga logo limpar a sua língua. Carole mostrou-se repulsiva àquele beijo especificamente, mas, posteriormente, entenderíamos que isso estaria atrelado a todos os beijos, ao sexo de um modo geral. Nota-se que, nesse momento de imediatismo da mesma, uma intensa música a acompanha para traduzir o seu ato explosivo, o som de uma bateria, que mais lembra um terremoto, acentuaria o tom de um filme outrora extremamente estável, um aspecto muito bem-vindo, seja dito de passagem, para captar uma reação mais brusca, a primeira da personagem até aquele instante.

Diante de uma personagem psicologicamente instável, alguns aspectos muito importantes seriam impressos na obra para compor uma complexidade ainda maior nos entornos de Carole. Depois que a citada irmã vai à Itália, a protagonista fica sozinha em seu apartamento, o que faz com que os seus distúrbios sejam ainda mais intensificados. A moça, inicialmente, passa a ver as paredes da casa, pouco a pouco, racharem, um símbolo atrelado ao seu psicológico, que também está rachado, lembrando que as paredes são a armação de uma casa, o que nos faz entender, portanto, que a base mental de Carole está danificada, digamos assim. 

Levando em conta que esse estado psicológico instável de Carole, percebemos, também, uma iluminação igualmente instável. A fotografia, nesse quesito, é magnífica ao compor cantos mais escurecidos, espaços vazios que buscam a ideia de obscurantismo, enquanto outros estão mais iluminados, mais claros, sobretudo no interior dos cômodos, um conflito de luz e sombra que vai ao encontro do conflito interior da personagem principal. Diante disso, a propósito, podemos perceber que há na mente da mesma, uma mente que pode ser entendida como algo externalizado naquele apartamento, alguns trechos mais sombrios, que assombram e apavoram aquela personagem, são trechos obscuros, como destacamos, que nos faz entender que existem questões mal resolvidas, nada claras, na vida daquela figura. Sendo Carole uma pessoa assombrada, uma pessoa sempre em altera, não podemos deixar de destacar que a sua ansiedade, ou algo semelhante, faz com que ela veja coisas, veja sujeitos, nos reflexos de um espelho, e faz com que ela ouça passos, passos invisíveis, nos arredores da sua residência, ela sente a presença homens ameaçadores. 

Ver, ouvir e sentir, o descontrole sensorial da personagem toma conta de cada um dos seus atos, tudo isso chega a ser refletido no seu trabalho, por exemplo, quando ela mesma corta, acidentalmente, o pedaço de um dedo de uma cliente com um alicate afiado, lembrando que Carole é uma manicure. Na cena, sangue é derramado, um prelúdio, podemos apontar assim, para o que seria configurado como patético, para trazer o termo de Aristóteles, posto que a mesma Carole mataria o sujeito que a cortejava e, mais tarde, mataria o dono da residência onde vive, um indivíduo que, ao ir ao local para cobrar o aluguel da nossa protagonista, tenta estuprá-la, mas uma sanguinária navalha seria usada pela figura de Deneuve em sua defesa. 

Mais ao final do filme, o descontrole da protagonista seria refletido na destruição completa do ambiente onde vive, e depois de a mesma ser encontrada no chão da casa, após ser visualizada por vizinhos preocupados e/ou bisbilhoteiros que tentam a confusão naquele apartamento conturbado, um sinal simplista do narrador alfineta a mente do espectador. Uma fotografia da família de Carole, anteriormente já focalizada, tem alguns segundos de protagonismo, esse elemento é aos poucos aproximado justamente na parte em que Carole abriga uma expressão, na época de sua infância, relacionada à raiva, é a única da família, por sinal, que não olha para diretamente para a câmera registradora, pois ela está olhando para o patriarca, olhando com expressões de ódio, de fúria, o que nos faz deduzir que a sua instabilidade psicológica está provavelmente relacionada àquele sujeito, um prato cheio para os psicanalistas.

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