“O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), filme alemão dirigido por Robert Wiene, é dono de um bloco inaugural que pende o tom da realização em questão à estilística do medo, dado que um sujeito ainda desconhecido por nós, enquanto conversa com outro, comenta sobre a presença de espíritos nos entornos das pessoas, espíritos que, conforme ele mesmo diz, estão espalhados por toda parte. Ao lado desse indivíduo que comenta sobre fantasmas, se encontra um rapaz mais jovem, o seu interlocutor, e uma mulher que se encontra um pouco mais afastada da dupla, uma mulher que está de pé no ambiente onde o narrador e aqueles dois indivíduos se encontram, que caminha pelo espaço de forma fantasmagórica, como se estivesse perdida, o que transmite, consequentemente, uma sensação de estranhamento, de esquisitice.
Percebe-se, à frente daquilo que foi explanado há pouco, que o longa-metragem expressionista nos insere no meio de um ambiente sinistro, onde se fala sobre fenômenos sobrenaturais, onde uma mulher exala medo. Os artifícios relacionados ao terror, todavia, seriam claramente intensificados a partir do momento em que o citado rapaz, que diz ser noivo da mulher que erra pelo espaço cênico da abertura, aparentemente mergulha no seu passado e conta àquele velho senhor, dono da afirmação sinistra sobre os espíritos, uma história associada a um sonâmbulo que, nas mãos do Dr. Caligari (Werner Krauss), uma espécie de ilusionista excêntrico e histérico, foi apresentado como um profeta do caos em uma feira de exposições circenses.
Essa feira, é interessante observar, é ressaltada, claro, pela movimentação das pessoas no interior do local, mas é possível que visualizemos, também, um belo trabalho de cenário, que nos ambienta rapidamente ao destacar lonas nos arredores do espaço, lonas que lembram circos, além de conferir, ao fundo da imagem, em um segundo plano, uma pequena cidade, uma cidade curiosamente marcada, em seus aspectos decorativos, por designs estranhos, designs disformes, a exemplo das casas pontiagudas, estilo que mais tarde seria acentuado no longa-metragem em análise. Antes, contudo, na transição do primeiro ao segundo ato da trama, somos informados, e é a partir disso que o primeiro grande conflito da obra é evidenciado, que um crime acaba por acontecer, um crime contra uma pessoa importante da região, contra o secretário municipal.
Se os suspenses, na sua maioria esmagadora, são construídos com base nas pausas, isto é, por suspensões, tais mistérios atrelados à ação criminosa são deixados de lado momentaneamente e a narrativa retoma as ações hiperbólicas, histéricas, de Caligari, o ilusionista, que apresenta Cesare (Conrad Veidt), o sonâmbulo, sujeito que, segundo ele, dorme ininterruptamente há vinte três anos e que só pode ser despertado pelo seu senhor. Sensível, nessa cena, é a sugestão fotográfica de Wiene no momento em que o citado Cesare desperta. O sonâmbulo, para que ilustremos, é captado praticamente por longo um close-up, um enquadramento fechado no seu rosto, momento em que, de modo assustador, o sujeito abre os seus olhos e os esbugalha, um tipo de ação ocular, a propósito, tão cara aos filmes de terror posteriores. Essa proximidade da câmera, e consequentemente da visão do público, é capaz de nos arrepiar, tendo que ser enfatizadas, também, as duas manchas pretas e fortes que estão localizadas logo abaixo dos olhos de Cesare, trabalho muito bem executado pelo recurso da maquiagem com o objetivo de transmitir estranheza; o longa-metragem, de um modo geral, apresenta “efeitos estilizados, mágicos e teatrais que exageram ou caricaturam a realidade” (Newman, 2010, p. 30-31).
Diante do que foi escrito até o momento, é grande a quantidade de elementos que pendem a película em questão a um tom ligado ao insólito, ao medo, uma estilística reforçada, ainda nos entornos de Cesare, pelo andar do personagem, um andar lento, zumbi-ficado, provavelmente originado dos seus muitos e muitos anos em estado de inércia, um caminhar que nos lembra o andar dos mortos-vivos que, posteriormente, seriam conferidos nos filmes de George A. Romero. Cesare seria ainda mais inclinado aos aspectos do macabro quando Caligari passa a dizer que o sonâmbulo, envolvido por misticismo, conhece o passado e o futuro das pessoas. Quando um dos espectadores, por exemplo, questiona o sonâmbulo sobre a data da sua morte, aquela figura aos poucos associada à monstruosidade o responde dizendo que ela aconteceria na manhã seguinte, o que banha o indivíduo de plateia de desespero.
Além de Cesare, as ruas da pequena cidade, onde a história se passa, também seriam demarcadas por elementos vinculados ao plano do medo. Em primeiro lugar, necessário dizer que boa parte da história se passa durante a noite, um aspecto resgatado, talvez, das narrativas policiais da literatura, lembrando que “O Gabinete do Dr. Caligari” apresenta uma estrutura próxima das histórias de investigação, “o que indica a preocupação comercial dos seus realizadores” (Cánepa, 2006, p. 67). As vias da mesma cidade também chamam a atenção, outrossim, pelas arquiteturas tortas e pontiagudas das residências (podem ser atreladas à revelação final do filme) e pelos graus de iluminação conflituosos da região, pois algumas casas são banhadas de um maior nível de luz, outras, porém, são ditadas por um completo breu. À frente disso, alguns cantos do espaço cênico, da cidade, soam mais obscurecidos do que outros, e se as sombras são tão importantes para o expressionismo alemão e para o terror em geral, aquele sujeito da plateia, da morte anunciada no espetáculo de Caligari, seria assassinado, dentro do seu próprio quarto, por esfaqueamento, uma ação visualizada nas sombras da parede do local, ação que impacta o público e que funciona como um belo gancho para o segundo ato da película, um magnífico trabalho, portanto, das estratégias de iluminação.
O terceiro ato, por outro lado, é basicamente cortado pela “bonança”, um bloco da narrativa que baixa o seu ritmo e compõe uma falsa ideia de conforto, um elemento que, seja dito de passagem, corroboraria com a construção do terror, pois uma surpresa chocante, posteriormente, seria projetada no longa-metragem de Robert Wiene. Ocorre que o assassino à solta é capturado em flagrante, no momento em que tenta matar uma velha senhora. Esse sujeito, um homem barbudo, carregava consigo uma faca para executar a mulher, lembrando que a faca era exatamente o instrumento utilizado no assassinato do rapaz da plateia e no do secretário municipal. Nota-se, entretanto, que o suspeito nega a acusação contra si, ele confirma que havia tentado matar a velha senhora, mas que não era o responsável pelos dois assassinatos precedentes. Se houve um brevíssimo período de pacificidade, de conforto, ele passa a ser quebrado a partir dessa declaração do suspeito.
“O Gabinete do Dr. Caligari” constrói uma falsa ideia de conforto nesse terceiro ato, despistando o público para com aquilo que seria testemunhado mais tarde, quando Cesare, o sonâmbulo, acossa uma mulher. Nessa situação, como o leitor pode imaginar, Cesare é revelado como o criminoso procurado, e somos ainda mais surpreendidos, nesse extrato, graças à citada falsa ideia de conforto, aquela de que o assassino havia sido capturado, há pouco ressaltada por nós. Naquilo que pode ser entendido como o ápice sinistro do filme, ao menos em questões imagéticas, Cesare invade o quarto de uma moça, tenta matá-la, só que ele a sequestra antes disso, carregando-a pelos telhados da cidade enquanto a mesma está aparentemente desmaiada nos seus braços. Ainda nesse segmento da invasão do quarto da jovem, é importante destacar que Cesare rasteja estranhamente pela parede da casa da moça, e depois, já no interior da residência, acompanhamos o personagem monstruoso se aproximando vagarosamente da mulher: primeiro ele a observa da janela, até que penetra no ambiente enfocado e chega cada vez mais perto, com uma faca na mão, da futura vítima, sendo o sonâmbulo, nos instantes finais dessa cena, captado por um belo close-up, que evidencia as suas expressões de desequilíbrio quando está prestes a esfaquear a jovem.
Um dos blocos mais interessantes da película, no entanto, é o quinto ato, quando outra revelação, também surpreendente, é executada. Aquele que nos conta toda essa história de crimes, Francis (Friedrich Fehér), nos indica que o Dr. Caligari era, na verdade, o diretor de um hospício, uma informação que seria mantida até o final da trama, e que o mesmo era o verdadeiro responsável pelos assassinatos ocorridos, dado que, diante do que compreendemos com os relatórios e com os diários do mesmo Caligari, Cesare havia sido hipnotizado pelo personagem-título para que, em nome da ciência, o doutor pudesse entender se um sonâmbulo seria capaz de matar alguém sem que se lembrasse, depois, do seu ato vil.
É possível entender que o filme em análise, por conta dos seus inúmeros aspectos que provocam surpresas e modificações bruscas nos rumos da trama, joga com o público o tempo inteiro, seja quando propõe uma falsa ideia de conforto e depois a desconstrói, seja quando compõe uma vilanização das grandes nos entornos de Caligari e as desmente mais tarde. O ato final, entretanto, mais uma vez de modo surpreendente, reservaria mais espaços para grandes movimentações, para grandes transformações. A conclusão, certamente excepcional, nos indica que Francis, o responsável por nos contar aquela história, é um louco, que é um dos muitos que estavam internados em um hospício gerenciado justamente pelo Dr. Caligari, visto pelo personagem insano como um antagonista. No desfecho, não mais na mente enlouquecida de Francis, vemos Caligari não mais demonstrar expressões histéricas, dando a entender que, pelo contrário, é um sujeito sereno, um “médico aparentemente benevolente” (Cánepa, 2006, p. 67). Cesare, se é que ele se chama realmente dessa maneira, é também uma das pessoas que estão internadas naquele manicômio, algo que pode ser dito, outrossim, sobre a mulher que é atacada pelo mesmo Cesare na história.
“O Gabinete do Dr. Caligari”, como pudemos ver neste texto, possui uma introdução que nos ambienta com facilidade na atmosfera de medo; logo depois, o filme desenrola um desenvolvimento pautado por crimes misteriosos e pela consolidação de um vilão sinistro, construindo, finalmente, uma conclusão surpreendente, capaz de chocar o seu espectador depois de muitas viradas que, entre falsas ideias de conforto e falsas revelações, movimentam a narrativa. Se antes, na iniciação da fita, aquela conversa entre os dois sujeitos, entre Francis e um velho senhor, parecia ser desenrolada em uma praça, em um local aberto e tranquilo, acabamos por entender, no último ato, que essa mesma conversa estava ocorrendo, na verdade, em um hospício, no pátio de um hospício. A finalização é deveras chocante, a película, como um todo, é uma verdadeira obra-prima, uma das muitas do expressionismo alemão, uma das muitas do cinema de terror.
Referências:
CÁNEPA, Laura Loguercio. Expressionismo alemão. In:______. História do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006. – (Coleção Campo Imagético). p. 55-88.
NEWMAN, Kim. O Gabinete do Dr. Caligari. In: ______. 1001 filmes para ver antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. p. 30-31.
O Gabinete do Dr. Caligari. Dir. Robert Wiene. Alemanha: Decla-Bioscop AG, 1920.


Nenhum comentário:
Postar um comentário