Medir palavras para descrever o tamanho de Edgar Allan Poe é complicado. Muitas vezes fogem adjetivações no momento em que é preciso descrever o autor, ou melhor, descrever a qualidade de suas obras. Na poesia e na prosa, uma prosa, aliás, ligada a poderosos contos, o escritor estadunidense marcou o seu nome e estilo na história da Literatura, revolucionou, principalmente como contista, aquele século XIX recheado de inovações no campo das artes.
Muitos dos meus textos preferidos de toda a Literatura passam por Edgar Allan Poe. “William Wilson” (1839) é um exemplo deles, talvez a minha obra literária preferida de todos os tempos. Três anos depois de lançar esse conto brilhante, Poe traria aquela que, muito provavelmente, é a sua obra mais sufocante, “O poço e o pêndulo” (1842), outra pérola sua. Temos muito a agradecer a Edgar Allan Poe, e se não bastassem tantos formidáveis trabalhos, como alguns dos citados, é preciso destacar “Os assassinatos da Rua Morgue” (1841), conto que será analisado aqui, um texto fundamental para o desenvolvimento da literatura policial moderna, que serviu de base para autores consagrados como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie.
O título, por natureza, já chama atenção daquele leitor mais ligado a questões linguísticas. O termo “Morgue”, que dá nome à rua onde ocorrem dois assassinatos brutais, realizados por um sujeito misterioso, é um termo que, hoje em desuso, significa, no inglês e no francês, “necrotério”. Os nomes das obras de Poe não são tão simpáticos, diga-se de passagem, pois se percebe, em suas composições, uma forte tendência para escolha de um vocabulário próprio para um ponto de partida voltado para o horror: “O Gato Preto” (1843), ligado à superstição negativa; “O Corvo” (1845), poema que tem como principal figura um pássaro que remete à morte; “Enterro Prematuro” (1844), atrelado, mais uma vez, à morte; e outros casos.
O que encontramos também em comum aos outros contos de Poe, em “Os assassinatos da Rua Morgue”, é o longo prólogo. No texto em análise, o narrador em primeira pessoa não apresenta, de cara, o horror da trama, os assassinatos expostos no título, mas discute, de maneira detalhada, um detalhamento recheado de analogias, sobre capacidades de observação, de análise, por parte de um indivíduo quanto a uma situação. Instantes depois, uma rápida ambientação é feita pelo mesmo narrador-personagem, dizendo que estava em Paris, no verão de um ano que não é deixado claro, só sabemos que é no século XIX, e que o mesmo sujeito firmou uma amizade com um certo Monsieur C. Auguste Dupin, peça fundamental para o desencadear da história.
Alguns pulos temporais são conferidos pela narrativa para que pudesse, sem mais delongas, dar espaço à grande virada da trama, além de tal aspecto ser importante para que toda a introdução, contando com o prólogo, não se atrelasse ao maçante. As marcações temporais também cristalizam a amizade entre o narrador-personagem e o certo Dupin, e são importantes, outrossim, para enfatizar, no meio de um ritmo consideravelmente veloz, certos elementos curiosos de ambas as figuras: o isolamento, pois viviam em uma área afastada, e o gosto pela noite, em que chegam a fechar as persianas durante o dia para que sentissem o clima noturno, clima que seria estabelecido posteriormente durante os principais eventos da história.
A atmosfera, então, começa a ser desenhada, marca os dois protagonistas e, além disso, climatiza a paisagem pelas situações noturnas. Sem demoras, um primeiro elemento estranho é acionado, quando Dupin, durante uma noite, advinha exatamente o que o narrador-personagem estava pensando. Isso, ainda, não representaria a grande virada, seria apenas uma afirmação quanto à capacidade de observação, de análise, de Dupin, lembrando que tal aspecto é bastante destacado, debatido, no prólogo. Nota-se que há um poder imenso em relação aos olhares de Dupin, mas este, diferente da pseudociência mesmerista que podemos ver em “Os fatos do caso do Sr. Valdemar” (1845), se apropria pura e somente da razão, explica, em um rápido flashback, diante de um discurso monológico, como conseguiu prever o que o amigo pensava.
A apresentação, desde o prólogo até a afirmação intelectual de Dupin, mostra-se precisa e sem pressa, ambienta facilmente o público, e tudo muda quando uma manchete de um jornal francês diz em caixa alta: “Assassinatos Extraordinários”. O conto, doravante, é transbordado de descrições, solidifica o mistério e joga com o público. Os homicídios são fortíssimos, em que duas mulheres foram brutalmente assassinadas em seu apartamento três dias depois de terem retirado do banco uma quantia consideravelmente alta de dinheiro. No rosto de uma das vítimas, “viam-se inúmeros arranhões e, pela garganta, negros hematomas, além de marcas profundas de unhas, como se a vítima houvesse sido morta por estrangulamento.” (Poe, 2013, p. 310). As descrições são daí para pior, e até mesmo a imaginação menos fértil é capaz de ser atraída pela cena, dado que as descrições de Poe são poderosas.
O crime foi feito, é o ponto de partida para todas, ou quase todas, as histórias policiais. Diante desse impulso, depoimentos são dados por diversos indivíduos que, de alguma forma, tiveram contato, direto ou indireto, com os assassinatos. Não sabemos quem foi o assassino, por isso há um interrogatório junto a essas pessoas, dos conhecidos da vizinhança ao banqueiro que foi responsável por dar o dinheiro às duas vítimas. O jogo com o leitor é iniciado aí, pois pistas são dadas, algumas mais claras, outras nem tanto, mas, de qualquer forma, curiosas para que o espectador possa se envolver no violento caso estabelecido pela narrativa.
Muitas das informações dadas se contradizem, e, como consequência, podemos refletir sobre a psicologia da percepção, sobre pontos de vista, fundamentais para que certas coisas sejam ouvidas, para que certas coisas sejam vistas. Além de ser descrito pela narrativa que um “assassinato tão misterioso, e tão desconcertante em todas suas particularidades, jamais foi cometido antes em Paris”, (POE, 2013, p. 315) nivelando a importância do caso, é dito, também, que a “polícia está complemente às escuras.” (POE, 2013, p. 315). Sem pistas, sem saber por onde começar, a polícia, então, acaba sendo substituída, de maneira previsível, levando em conta todo o prólogo e a introdução, pela ocupação detetivesca do personagem-título e de seu sidekick Dupin.
A configuração do texto policial se afirma depois do crime, que é sequenciada pelos depoimentos e pelos detetives, dois aspectos tão presentes no gênero. Praticamente um discurso monológico, diria Mikhail Bakhtin, toma conta da obra a partir de então, com Dupin, o exímio observador, contando, pelo meio da narrativa, que já havia desvendado o caso, esquadrinhando cada elemento envolvido no assassinato, o que cria expectativas. Hipóteses, artifícios tão comuns na literatura policial, também passam a ganhar presença, e como faria em inúmeros casos o detetive preferido de Agatha Christie, o famoso Hercule Poirot, no século XX, Dupin começa a descartar ideias óbvias e aprofunda, pouco a pouco, a complexidade do caso, que se liga a um final simplesmente surpreendente.
Longos parágrafos, alguns de uma página inteira, acolhem o conteúdo da explicação do personagem. O pior é quando se fala, em um desses longos parágrafos, que o criminoso é certamente dono de uma “agilidade surpreendente, força sobre-humana, ferocidade brutal” (Poe, 2013, p.327), momento em que a trama começa a inclinar o seu final, alimentando ainda mais as expectativas pelas descrições, no mínimo, estranhas. Menos sombras e mais luzes vão povoando, pouco a pouco, a busca pelo assassino, até que se chega, finalmente, à resolução do caso – outro importante aspecto do texto policial –, que, como já foi destacado, é das mais surpreendentes, positivamente surpreendente.
Ainda que certas tramas ligadas a uma revelação no final se concentrem muito no clímax e na conclusão, o desenvolvimento de “Os assassinatos da Rua Morgue” é cativante por toda a elocução brilhante de Dupin, um personagem que, a cada linha, prende a atenção do público por suas deduções reveladoras. Inovador e muito bem construído, como o leitor pôde perceber ao longo desta análise, Edgar Allan Poe acertava mais uma vez em sua bibliografia impressionante, uma bibliografia ímpar, talvez o ápice da Literatura.
Muitos dos meus textos preferidos de toda a Literatura passam por Edgar Allan Poe. “William Wilson” (1839) é um exemplo deles, talvez a minha obra literária preferida de todos os tempos. Três anos depois de lançar esse conto brilhante, Poe traria aquela que, muito provavelmente, é a sua obra mais sufocante, “O poço e o pêndulo” (1842), outra pérola sua. Temos muito a agradecer a Edgar Allan Poe, e se não bastassem tantos formidáveis trabalhos, como alguns dos citados, é preciso destacar “Os assassinatos da Rua Morgue” (1841), conto que será analisado aqui, um texto fundamental para o desenvolvimento da literatura policial moderna, que serviu de base para autores consagrados como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie.
O título, por natureza, já chama atenção daquele leitor mais ligado a questões linguísticas. O termo “Morgue”, que dá nome à rua onde ocorrem dois assassinatos brutais, realizados por um sujeito misterioso, é um termo que, hoje em desuso, significa, no inglês e no francês, “necrotério”. Os nomes das obras de Poe não são tão simpáticos, diga-se de passagem, pois se percebe, em suas composições, uma forte tendência para escolha de um vocabulário próprio para um ponto de partida voltado para o horror: “O Gato Preto” (1843), ligado à superstição negativa; “O Corvo” (1845), poema que tem como principal figura um pássaro que remete à morte; “Enterro Prematuro” (1844), atrelado, mais uma vez, à morte; e outros casos.
O que encontramos também em comum aos outros contos de Poe, em “Os assassinatos da Rua Morgue”, é o longo prólogo. No texto em análise, o narrador em primeira pessoa não apresenta, de cara, o horror da trama, os assassinatos expostos no título, mas discute, de maneira detalhada, um detalhamento recheado de analogias, sobre capacidades de observação, de análise, por parte de um indivíduo quanto a uma situação. Instantes depois, uma rápida ambientação é feita pelo mesmo narrador-personagem, dizendo que estava em Paris, no verão de um ano que não é deixado claro, só sabemos que é no século XIX, e que o mesmo sujeito firmou uma amizade com um certo Monsieur C. Auguste Dupin, peça fundamental para o desencadear da história.
Alguns pulos temporais são conferidos pela narrativa para que pudesse, sem mais delongas, dar espaço à grande virada da trama, além de tal aspecto ser importante para que toda a introdução, contando com o prólogo, não se atrelasse ao maçante. As marcações temporais também cristalizam a amizade entre o narrador-personagem e o certo Dupin, e são importantes, outrossim, para enfatizar, no meio de um ritmo consideravelmente veloz, certos elementos curiosos de ambas as figuras: o isolamento, pois viviam em uma área afastada, e o gosto pela noite, em que chegam a fechar as persianas durante o dia para que sentissem o clima noturno, clima que seria estabelecido posteriormente durante os principais eventos da história.
A atmosfera, então, começa a ser desenhada, marca os dois protagonistas e, além disso, climatiza a paisagem pelas situações noturnas. Sem demoras, um primeiro elemento estranho é acionado, quando Dupin, durante uma noite, advinha exatamente o que o narrador-personagem estava pensando. Isso, ainda, não representaria a grande virada, seria apenas uma afirmação quanto à capacidade de observação, de análise, de Dupin, lembrando que tal aspecto é bastante destacado, debatido, no prólogo. Nota-se que há um poder imenso em relação aos olhares de Dupin, mas este, diferente da pseudociência mesmerista que podemos ver em “Os fatos do caso do Sr. Valdemar” (1845), se apropria pura e somente da razão, explica, em um rápido flashback, diante de um discurso monológico, como conseguiu prever o que o amigo pensava.
A apresentação, desde o prólogo até a afirmação intelectual de Dupin, mostra-se precisa e sem pressa, ambienta facilmente o público, e tudo muda quando uma manchete de um jornal francês diz em caixa alta: “Assassinatos Extraordinários”. O conto, doravante, é transbordado de descrições, solidifica o mistério e joga com o público. Os homicídios são fortíssimos, em que duas mulheres foram brutalmente assassinadas em seu apartamento três dias depois de terem retirado do banco uma quantia consideravelmente alta de dinheiro. No rosto de uma das vítimas, “viam-se inúmeros arranhões e, pela garganta, negros hematomas, além de marcas profundas de unhas, como se a vítima houvesse sido morta por estrangulamento.” (Poe, 2013, p. 310). As descrições são daí para pior, e até mesmo a imaginação menos fértil é capaz de ser atraída pela cena, dado que as descrições de Poe são poderosas.
O crime foi feito, é o ponto de partida para todas, ou quase todas, as histórias policiais. Diante desse impulso, depoimentos são dados por diversos indivíduos que, de alguma forma, tiveram contato, direto ou indireto, com os assassinatos. Não sabemos quem foi o assassino, por isso há um interrogatório junto a essas pessoas, dos conhecidos da vizinhança ao banqueiro que foi responsável por dar o dinheiro às duas vítimas. O jogo com o leitor é iniciado aí, pois pistas são dadas, algumas mais claras, outras nem tanto, mas, de qualquer forma, curiosas para que o espectador possa se envolver no violento caso estabelecido pela narrativa.
Muitas das informações dadas se contradizem, e, como consequência, podemos refletir sobre a psicologia da percepção, sobre pontos de vista, fundamentais para que certas coisas sejam ouvidas, para que certas coisas sejam vistas. Além de ser descrito pela narrativa que um “assassinato tão misterioso, e tão desconcertante em todas suas particularidades, jamais foi cometido antes em Paris”, (POE, 2013, p. 315) nivelando a importância do caso, é dito, também, que a “polícia está complemente às escuras.” (POE, 2013, p. 315). Sem pistas, sem saber por onde começar, a polícia, então, acaba sendo substituída, de maneira previsível, levando em conta todo o prólogo e a introdução, pela ocupação detetivesca do personagem-título e de seu sidekick Dupin.
A configuração do texto policial se afirma depois do crime, que é sequenciada pelos depoimentos e pelos detetives, dois aspectos tão presentes no gênero. Praticamente um discurso monológico, diria Mikhail Bakhtin, toma conta da obra a partir de então, com Dupin, o exímio observador, contando, pelo meio da narrativa, que já havia desvendado o caso, esquadrinhando cada elemento envolvido no assassinato, o que cria expectativas. Hipóteses, artifícios tão comuns na literatura policial, também passam a ganhar presença, e como faria em inúmeros casos o detetive preferido de Agatha Christie, o famoso Hercule Poirot, no século XX, Dupin começa a descartar ideias óbvias e aprofunda, pouco a pouco, a complexidade do caso, que se liga a um final simplesmente surpreendente.
Longos parágrafos, alguns de uma página inteira, acolhem o conteúdo da explicação do personagem. O pior é quando se fala, em um desses longos parágrafos, que o criminoso é certamente dono de uma “agilidade surpreendente, força sobre-humana, ferocidade brutal” (Poe, 2013, p.327), momento em que a trama começa a inclinar o seu final, alimentando ainda mais as expectativas pelas descrições, no mínimo, estranhas. Menos sombras e mais luzes vão povoando, pouco a pouco, a busca pelo assassino, até que se chega, finalmente, à resolução do caso – outro importante aspecto do texto policial –, que, como já foi destacado, é das mais surpreendentes, positivamente surpreendente.
Ainda que certas tramas ligadas a uma revelação no final se concentrem muito no clímax e na conclusão, o desenvolvimento de “Os assassinatos da Rua Morgue” é cativante por toda a elocução brilhante de Dupin, um personagem que, a cada linha, prende a atenção do público por suas deduções reveladoras. Inovador e muito bem construído, como o leitor pôde perceber ao longo desta análise, Edgar Allan Poe acertava mais uma vez em sua bibliografia impressionante, uma bibliografia ímpar, talvez o ápice da Literatura.
Referências:
POE,
Edgar Allan. Os assassinatos da Rua Morgue. In:______. Contos de imaginação e mistério. São Paulo:
Tordesilhas, 2013. p. 301-337.

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