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Logo na iniciação da película em questão, somos cativados por um prólogo que soa profético para com aquilo que estaria por vir, quando um carro completamente destruído é rebocado por outro veículo em meio a um cenário tomado pela neve. Nesse instante, o automóvel destruído pode não significar muita coisa, mas é no mínimo estranho perceber que a imagem em questão é acompanhada por uma melodia não diegética intensa e, sobretudo, exagerada. Poucos instantes depois, na introdução da película, somamos dois mais dois e podemos conectar aquilo que havia sido testemunhado por nós nesse prólogo a uma situação no mínimo exótica: um sujeito endividado pede para que dois indivíduos sequestrem a sua própria esposa, filha de um empresário rico, para que uma parte do dinheiro a ser recebido, no resgate, possa sanar certas dívidas suas. Se a situação agora ressaltada por nós cria expectativas em relação àquilo que estaria por vir, tais expectativas são ainda mais alimentadas pelo prólogo aqui descrito.
Não demora muito para conhecermos a futura vítima da situação e, também, o tal sujeito que havia solicitado o sequestro, Jerry (William H. Macy), um indivíduo que tem dificuldades de lidar com os problemas do dia a dia, sobretudo com os problemas do seu trabalho, que está relacionado ao gerenciamento de venda de automóveis. Nota-se, nesses instantes de constatação do seu cotidiano, um considerável grau de humor ser impresso pelo modo como Jerry não consegue dar conta da satisfação dos seus clientes, clientes pendidos à caricatura quando exageram nas suas reclamações, por exemplo. Mais abaixo, a propósito, descreveremos outros pedaços de Fargo que estariam atrelados à proposta da comicidade, um dos aspectos mais bem trabalhados pela película em questão.
Antes dessa proposta mais cômica ser mais bem consolidada, contudo, é notável a bela dinâmica instalada no interior da narrativa, dinâmica que é capaz de costurar os mais diversos arcos que, pouco a pouco, consolidariam um tom trágico, fazendo jus ao prólogo profético, na fita em questão. Somos apresentados, desde os primeiros passos da projeção, a uma série de personagens sedutores. Em pouco tempo de projeção, para citar alguns casos, acompanhamos o cotidiano de Jerry e da sua família, além de testemunharmos o planejamento dos sequestradores ser gradualmente exposto para o público. Um pouco mais tarde, depois de um verdadeiro banho de sangue ser derramado num cenário congelante, que destacaria ainda mais a vermelhidão do sangue pela brancura da neve, conheceríamos uma policial perspicaz, Marge (Frances McDormand), que daria um fim na investigação de um caso extremamente violento, violento pelo simples fato de os sequestradores assassinarem um policial, que tem a sua cabeça, em primeiro plano, atravessada por uma bala de um revólver, e duas outras pessoas que nada tinham a ver com o crime do sequestro, mas que, por acaso, entraram no caminho dos criminosos e colocaram, no radar, a citada Marge.
Além do banho de sangue, cativa o modo como Fargo constrói o seu jogo de tensão, coordenado por um suspense mais clássico, é verdade, mas um suspense que, em diversas ocasiões, flerta com um estranho tom de humor. Se o longa-metragem que conta a história de uma série de erros e de surpresas que vão desdobrando um sequestro exótico é carregado principalmente por esses jogos de tensão, tudo isso é, felizmente, muito bem dirigido. O suspense é quase sempre cristalizado por longas pausas, o que nos proporciona o entendimento de que a fita, portanto, é paciente quando precisa segurar certas informações importantes com o objetivo de prender a curiosidade do seu público, a exemplo do que visualizamos na cena em que a mulher sequestrada parece ter morrido, ao cair de uma escada, e somente depois de algum tempo, graças à bela trava construída pelo trabalho da montagem paralela, é destacado que a mesma ainda está viva. Fargo controla a atenção do seu público, e consequentemente a curiosidade deste, por meio de uma série de pausas, por meio de uma série de suspensões, artifícios que são, seja dito de passagem, o principal aspecto de constituição de qualquer suspense.
Chega um instante, aliás, a partir da segunda metade da película, que tais suspenses passam a ser constantemente complementados por inúmeras surpresas, pois o fio de história principal, o sequestro, sai completamente do controle daqueles que planejaram o crime, derramando consequentemente, na obra, camadas mais espessas de sangue. A película é, desde o princípio, cheia de dinâmica, como apontamos mais acima, sendo cortada por diversos núcleos que, aos poucos, vão sendo conectados até se tornarem responsáveis por concretizar, na trama, uma legítima pegada de tragédia, não podendo ser esquecido o fato de que a fita em análise, durante parte da sua projeção, abriga a comicidade, seja quando personagens terciários apresentam certo grau de caricatura, seja quando um dos sequestradores, na hora de executar o sequestro, por exemplo, retira a sua máscara (que deveria ser mantida no seu rosto para ocultar a sua identidade) e interrompe a sua perseguição contra a vítima para, bizarramente, cuidar de um ferimento mais leve. Soa ainda mais engraçado o fato de tal criminoso, preocupado com o seu leve ferimento, ser um brutamonte violento e intimidante, um sujeito responsável por alçar a violência gráfica a níveis jamais alçados por outros personagens.
São tênues as fronteiras entre a comédia e a tragédia nesta grande obra do talentoso Joel Coen, uma obra capaz de divertir o público pelo ridículo, obviamente, ao passo que é capaz de executar, por outro lado, um excelente suspense e um impacto dos mais relevantes pelas cenas mais violentas, a maioria delas desencadeada pelo brutamonte citado acima. Fargo é sem dúvidas uma pérola do cinema estadunidense, uma das grandes fitas do cinema norte-americano naqueles anos 1990, não é por menos que, como comentamos logo no primeiro parágrafo deste texto, se torna pouco digerível a ideia do filme em questão ter perdido o principal prêmio do Oscar para um longa-metragem tão morno, e esquecível, como O Paciente Inglês.


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