quinta-feira, 17 de março de 2022

Análise | Alive: Tsutomu Takahashi (1999)

Alive - mangá



Alive (1999), de Tsutomu Takahashi, é iniciado com um discurso expositivo sobre o caso de Tenshu Yashiro, personagem que havia sido preso por ter matado quatro pessoas, três sujeitos, que violentaram a sua namorada, e mais tarde a sua própria namorada, havendo ainda, no meio disso tudo, uma ocultação de cadáver, uma soma de fatores que o levou à pena máxima, à pena de morte. Na hora do demônio, isto é, no momento em que os carcereiros esperam pela execução, observamos a narração captar cenários obscuros, onde se encontram as masmorras do presídio, marcadas por volumosas sombras e pela presença de expressões esgotadas por parte dos presidiários, donos de rostos tensos e suados, como o do protagonista, que, em uma splash-page, se encontra agachado e com expressão de pânico, sendo logo depois chamado para a sua execução.

Ainda que estejamos cientes dos crimes bárbaros cometidos por Yashiro, soa comovente o momento em que ele é levado para a execução, dado que, em outra splash-page, demonstra medo, e o seu rosto, em primeiro plano, é evidentemente marcado pelas grossas lágrimas que saem do seu rosto. Quando agradece aos companheiros de cárcere por aqueles momentos duros, e mais tarde quando os guardas comentam sobre a sua disciplina impecável e sobre a sua vontade de ler livros e de praticar certas atividades, como a de caligrafia, torna-se bastante claro o arrependimento carregado pelo personagem principal, arrependimento que é consagrado, de vez, a partir do momento em que o mesmo, como se quisesse se redimir do que fez, aceita ser levado, para não ser morto, a um local misterioso. Curioso notar que o personagem principal já estava muito bem conformado para com a sua execução, chega a dizer que seria purificado diante de tal pena, mas prefere a vida, mesmo assim, quando aparece uma oportunidade absolutamente estranha. 

Yashiro é levado, porém, como entendemos pelo nome do segundo capítulo do mangá, para uma espécie de segunda condenação, onde passa a dividir uma espécie de sala com um ex-presidiário e onde podem pedir quase tudo o que quiserem. Fica claro, desde o princípio, que ambos estão sendo observados como cobaias, eles são ratos de laboratório (isso ficaria ainda mais claro com o passar das páginas, quando o narrador deixa à mostra o trabalho de manipulação de uma equipe que não conhecemos), mas, inicialmente, em um espaço relativamente extenso para aquelas duas pessoas, onde podem beber e comer à vontade, parece mais suave a situação em questão do que aquela antecessora, na masmorra, encontrada logo nas primeiras páginas do livro. 

Bruxa - Alive - Takahasji
Ao contrário do que pensamos, por outro lado, a partir do terceiro capítulo, intitulado “A Bruxa”, as coisas parecem se tornar mais sérias, uma vez que Yashiro passa a ser ameaçado pelo seu colega de quarto, gradualmente mais agressivo e mais impulsivo, completamente diferente, é preciso dizer, do protagonista, mais racional, ao menos nessa altura da trama. A figura da bruxa, referenciada no título do episódio de número três, é uma mulher que, por trás de uma camada grossa de vidro, aparece nua, tomando banho, e com um discurso sempre sedutor. O parceiro de cela de Yashiro se mostra fissurado pela mulher misteriosa, e quando a mesma propõe que um mate o outro, oferecendo-se como recompensa para o vencedor, o personagem principal passa a ser de fato ameaçado, já que o colega de quarto do mesmo passa a se mostrar mais violento, mais descontrolado, mesmo que Yashiro o alerte, dizendo que aquilo parece ser parte de um experimento. Até aqui temos um confronto, podemos dizer assim, entre a razão e o impulso. 

Sabemos, como já apontamos, por meio dos deslocamentos breves do narrador à sala de controle da equipe que comanda aquele laboratório, que ambos estão na função de cobaias, em uma função perigosa, como podemos ver com a ilustração da cena acima. Aos poucos, por conseguinte, temos a sensação cada vez mais sólida de que aquele local é mesmo uma segunda condenação para os rapazes, mais ainda caso levemos em conta que os experimentadores, quando veem que os dois colegas de cela se mostram desejosos para com a bruxa, intensificam os seus impulsos, aumentando a temperatura da sala, deixando-os sem comida e diminuindo o tamanho daquele ambiente. Os impulsos mais primitivos do ser humano, a violência e o sexo, possuem gradualmente aqueles dois indivíduos. 

Se aquela organização parece misteriosa para com o seu experimento, o quarto capítulo intensificaria ainda mais as questões nos entornos da instituição, dado que descobriríamos que, com a bruxa, há uma espécie de entidade demoníaca que precisa ser passada para um corpo mais forte; o sobrenatural entra em campo e acentua os quês de mistério do texto. Nota-se, aliás, o bom trabalho sobre o suspense da narrativa, dado que o mangá, inteligentemente, cristaliza uma pausa nessa história da entidade demoníaca e mergulha no passado criminoso de Yashiro logo depois deste ser ameaçado pelo seu parceiro de cela, que diz que mataria, sim, para ter uma relação sexual com aquela bruxa. No flashback, que toma conta do capítulo de número cinco, veríamos que o protagonista aparentemente havia matado os sujeitos que haviam violentado a sua namorada, mas que, depois disso, esta havia se matado, embora a polícia tenha flagrado Yashiro com as mãos no pescoço da menina, já morta. O protagonista a enforcava, já morta, por tê-la visto, em uma alucinação sua, em uma forma fantasmagórica, com olhos completamente escurecidos, uma caracterização que pincela o mangá, diga-se de passagem, com tonalidades de medo, ao mesmo tempo em que inclina ainda mais melancolia nos entornos do pobre Yashiro, menos condenado, por nós espectadores, por aparentemente não ter sido o responsável pela morte da garota. 

Alive - Sonho - Takahashi
Quando a trama se reestabelece no instante presente da narrativa, observamos pouco a pouco o personagem principal ser ameaçado, já que a bruxa, em seu discurso sinistro, se mostra cada vez mais ameaçadora, ao passo que as paredes do salão onde se encontra o protagonista vão sendo juntadas, comprimidas, como uma ameaça de esmagá-lo completamente. Interessante notar, aliás, que a mesma bruxa dilacera o parceiro de sala de Tenshu, o estilhaça em uma splash-page que a evidencia meio que o engolindo. Fora isso, devemos destacar o fato de que a entidade, que teria a sua origem rapidamente contada em um dos capítulos mais avançados do texto, muitas vezes comanda a enunciação da sua hospedeira. Em alguns momentos, porém, um curto-circuito é executado, e a própria hospedeira, uma jovem vítima da situação, consegue veicular o seu discurso, mais brando, o que soa, em vez de algo mais sutil, ainda mais ameaçador, visto que compreendemos o estado lastimável de uma mulher que está sofrendo com aquela possessão. A ameaça se dá em duas frentes, portanto: na voz da vítima e na voz da entidade maligna. 

Os desdobramentos finais de Alive seriam marcados por cenas realmente desconcertantes, e não poderia ser diferente caso levemos em conta o alto nível de dramaticidade, de mistério e medo encontrado ao longo do texto. Um dos pontos principais desses últimos instantes do texto é o fato de haver uma espécie de transporte da possessão, em que o personagem principal, que passa gradualmente de um vilão para um herói, se sacrifica e consequentemente ajuda a vítima da situação, o que acaba por desencadear um verdadeiro banho de sangue, ligado principalmente ao próprio protagonista. Além disso, a conclusão é chocante, atrelada a uma atitude comovente por parte de Tenshu, e que se liga, mais uma vez, ao sacrifício, ao sacrifício pelo outro, o que somente reforça aquela ideia de que o personagem, embora com os seus diversos problemas e com as suas ações sinistras, se torna cada vez mais um herói. 

Embora a finalização do mangá seja deveras trágica e impactante, lembrando que o quadrinho japonês ainda conta com situações que causam repulsa devido aos seus altos níveis de violência gráfica, a trajetória de Tenshu é muito bonita, uma beleza heroica que, como vimos ao longo deste texto, se contrapõe ao horror que é evidenciado na maior parte da obra de Takahashi. Alive é genial, é um mangá duro de digerir, melancólico e, como apontamos, repulsivo em alguns instantes, mas que produz uma série de reflexões interessantes em meio a uma disposição estética genialmente trabalhada pelo seu autor.

Referência

TAKAHASHI, Tsutomu. Alive. São Paulo: Panini, 2017.

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