A primeira edição estrelada pelo Monstro do Pântano, de apenas oito páginas, foi o número noventa e dois da House of Secrets, antiga revista da DC Comics que funcionava como uma coletânea de histórias de mistério e de terror, mais ou menos o que fazia, também, a Tales of Suspense, da Marvel Comics. O debute desse anti-herói pode não ser nenhuma obra-prima, já que possui algumas escolhas duvidosas em relação ao excesso de contextualização e a exposições que soam pouco ou nada espontâneas. A verdade, no entanto, é que de imediato o quadrinho conquistou o público, foi um sucesso de vendas, e ganhou, um ano depois, uma série regular escrita e desenhada pelos criadores originais da trama.
Len Wein e Bernie Wrightson são os nomes responsáveis pela criação de uma das figuras mais interessantes dos quadrinhos. Na sólida House of Secrets 92, é narrada a história de uma moça que, desanimada com alguma questão que não sabemos muito bem de imediato (somente sabemos que ela sente saudade de alguém que se foi), tenta ser animada pelo seu marido. Aos poucos, compreendemos que esse sujeito, Damian, havia assassinado o seu parceiro de trabalho, Alex Olsen, para poder se casar com Linda, esposa de Alex quando este era ainda vivo.
Percebe-se, desde o começo da obra, as expressões cabisbaixas do Monstro do Pântano, que se mostra, além disso, distante fisicamente, isolado nas águas do pântano onde vive, daquela dupla referida acima, sempre situada dentro da mansão que está nos entornos daquela densa floresta. As expressões da criatura, muito bem captadas por Wrightson, são sacadas muito boas, e são colocadas em diálogo de modo perfeito com o clima noturno e chuvoso: “Uma chuva insubstancial começa a cair, tão fria e vazia quanto a profunda dor dentro de mim…” (WEIN, 2013, p. 12). Tais expressões são também colocadas em diálogo com as narrações em off do personagem-título, narrações que aos poucos evidenciam certos elementos soturnos, todos eles, diga-se de passagem, relacionados à Linda: “Você sorri porque é o que ele espera de você… Mas, nos sombrios corredores do seu coração, não há alegria verdadeira, e jamais poderá haver…” (WEIN, 2013, p. 10).
Vimos que as falas tristes e pessimistas do personagem isolado e melancólico estão sempre inclinadas a um caráter soturno, e quando o narrador, sob o comando de Olsen, abre espaços para que a sua narração mergulhe no passado e mostre os porquês daquele isolamento do personagem principal e os porquês da tristeza de Linda, além dos motivos pelos quais ele se transformou no Monstro do Pântano, a dramaticidade é alavancada por compreendermos aos poucos ter havido uma traição. As falas de Alex Olsen são de fato importantes para a explanação das informações, mas o grande vilão, o seu antigo parceiro Damian, também tem o seu monólogo explicitado, atreves de balões de pensamento importantes para o desenrolar da narrativa: “Nunca perdoei Alex por casar com você quando ele sabia o quanto eu a amava… Você nunca saberá o quanto me foi difícil manter a fachada de ‘eterno amigo’…” (WEIN, 2013, p. 12).
Diante dessas suas falas, somamos as peças que nos são dadas e formamos o quebra-cabeça: Alex foi assassinado pelo seu amigo Damian. Se não bastassem as reviravoltas do passado, que são desaguadas em um presente melancólico e sinistro, marcado ainda pelo chiaroscuro das imagens que remete à instabilidade (drama) e à obscuridade (horror) da ocasião, o momento presente da narrativa ganharia outras peripécias sinistras, quando Damian decide matar Linda antes que ela descobrisse a verdade. Acontece que, observando desde algum tempo aquela casa, o Monstro do Pântano trabalha como um deus ex machina e salva a personagem em perigo, protagonizando uma sequência dinâmica e sinistra do quadrinho, quando chega de surpresa, quebrando o vidro de uma janela da casa, e ataca Damian, sob os seus olhos vermelhos e rabiosos e da sua monstruosidade corporal pantanosa.
A gótica House of Secrets 92 é um excelente quadrinho, como vimos nesta breve análise, uma das mais belas obras de terror já lançadas pelas grandes editoras, isto é, por DC Comics e Marvel Comics. Citamos anteriormente o problema com o excesso de contextualização na revista, mas a genialidade de outros diversos fatores, de fatores primordiais para a construção da narrativa, consegue amenizar esses pequenos problemas vistos no texto em questão. O Monstro do Pântano, em suma, teve um excelente e invejável debute, um dos mais impressionantes se comparado àqueles dos personagens mais conhecidos das comics em geral.
Referências:
WEIN, Len; WRIGHTSON, Bernie. House of Secrets 92. In: WEIN, Len; WRIGHTSON, Bernie. Clássicos DC: Monstro do Pântano - Raízes. São Paulo: Panini Comics, 2013. p. 8-16.
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