A Metamorfose (1915), do genial Franz Kafka, é decerto uma referência absoluta, um clássico da literatura mundial, novela dona, também, de uma das aberturas mais impressionantes dentre todas as narrativas literárias já lançadas:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta prestes a delizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos (KAFKA, 2012, p. 7, grifos meus).
No fragmento destacado, sem que haja qualquer ambientação, o leitor é logo impactado pela transformação repentina de Gregor Samsa, que viria a ser o protagonista, em uma barata, em um “inseto monstruoso”, o que acaba por causar certo estranhamento, ainda que não haja qualquer elo entre espectador e personagem, um tipo de movimentação que deve ser destacado, sobretudo, pela caracterização intensa desse primeiro parágrafo do texto, caracterização que, por sua vez, ditada por uma série de adjetivos, muitos deles relacionados às partes do corpo, desenham uma criatura, no mínimo, muito estranha.
A novela em questão, para além dessa abertura esquisita e genial na sua proposta de provocar o estranhamento, é conhecida pelo mal-estar que causa por, gradualmente, ressaltar os problemas relacionados à vida de Gregor desde a sua transformação bizarra. A transformação, como apontamos mais acima, é sem dúvidas muito gráfica, pois o narrador nos oferece uma série de elementos descritivos que compõem devidamente a nova e estranhíssima aparência de Samsa, mas as mudanças na vida do protagonista, para além do que comentamos, não estariam atreladas somente ao plano visual, mas, outrossim, ao psicológico do protagonista, às suas relações familiares, ao seu trabalho e a outros muitos elementos ligados ao cotidiano desse indivíduo que, antes dessa maldita transfiguração, era um caixeiro-viajante.
Ainda nos parágrafos seguintes, observamos que Gregor começa a sentir “uma dor ainda nunca experimentada, leve e surda” (KAFKA, 2012, p. 8), um pouco antes de reclamar, brevemente, da sua profissão, que é cansativa, segundo ele mesmo. A relação trabalho-transformação é, a princípio, uma mera coincidência, essa dor leve e surda experimentada pelo personagem parece nada ter a ver com o seu lado profissional, mas, pouco a pouco, percebemos que a ocupação profissional de Samsa passa a ser destacada cada vez mais pelo personagem e pelo narrador: “canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso” (KAFKA, 2012, p. 8). Complementando o que foi dito, logo na página seguinte, também é dito: “Acordar cedo assim deixa a pessoa completamente emboatada – pensou. – O ser humano precisa ter o seu sono” (KAFKA, 2012, p. 9).
Citamos, há pouco, apenas dois rápidos exemplos, mas, conforme o passar das páginas, perceberíamos um volume gradualmente maior de questões, de reclamações, que envolvem o trabalho do sujeito, a sua profissão de um modo geral. Isso, a propósito, seria ainda mais intensificado a partir do momento em que o gerente da empresa onde Gregor trabalha vai à sua residência, onde vivem também os seus pais e a sua irmã, para saber o que havia ocorrido com o caixeiro-viajante, dado que, diante de um horário tão avançado, tardio, Samsa ainda não havia saído nem mesmo para pegar o trem, o que poderia provocar problemas na logística da empresa onde o mesmo trabalha. Antes de penetrarmos nesse curioso caso de modo mais minucioso, porém, precisamos destacar, rapidamente, que o protagonista, para levantar da cama, possui uma imensa dificuldade, ele tem dificuldades com os movimentos do seu novo corpo e com a adaptação dos seus novos membros:
A princípio quis sair da cama com a parte inferior do corpo; mas essa parte de baixo, que ele aliás ainda não tinha visto e da qual não podia fazer uma ideia exata, provou ser difícil demais de mover; ela ia tão devagar; e quando afinal, quase frenético, reunindo todas as suas forças e sem respeitar nada, se atirou para a frente, bateu com violência nos pés da cama, pois tinha escolhido a direção errada; a dor ardida que sentiu ensinou-lhe que justamente a parte inferior do seu corpo era no momento, talvez, a mais sensível de todas (KAFKA, 2012, p. 13, grifos meus).
Nesse segmento destacado, percebe-se uma utilização inteligente e simbólica do recurso do ponto e vírgula, que vai exatamente ao encontro da dificuldade de Samsa. Se o uso recorrente desse tipo de pontuação trava uma condução mais fluida do texto, ele ocorre justamente no instante em que Gregor tenta dar fluidez aos seus movimentos para sair da cama, mas tem plenas dificuldades em executá-los. Essa estratégia pode soar gratuita e meramente acidental, mas não para Kafka, um gênio das letras. Nota-se, além do que comentamos, que há um quê burocrático nos entornos do personagem em questão, a dor também está relacionada às suas inúmeras dificuldades, fatores que, progressivamente no texto, ganhariam proporções ainda maiores, fatores responsáveis, outrossim, por criar situações deveras incômodas para o personagem principal, sempre mais agonizado.
Kafka e burocracia andam lado a lado, claro, basta nos lembrarmos, por alto, do que ocorre, temática e esteticamente, em O Processo (1925), a obra-prima do autor segundo alguns estudiosos. Tais questões burocráticas, então, intimamente ligadas ao plano da dor e da dificuldade, seriam marcadas, ainda, por um jogo de tensão a partir do momento em que Gregor passa a estar cada mais vez mais preocupado com a hora, com a hora do trem que não pode perder. O relógio, aliás, é um aspecto determinante para a situação, a ponto de haver uma curioso mistura de vozes, entre narrador e personagem, que questiona:
Por que Gregor estava condenado a servir uma firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama? (KAFKA, 2012, p. 16).
Linhas à frente, ainda tentando sair da cama, Gregor bateria com a cabeça por não ter tido cuidado o suficiente com tal membro, deixando-o, mais uma vez, com dor e com raiva, tons frequentemente impressos na trama. A irritação do mesmo e os seus protestos frente às questões do trabalho, muitas vezes complementadas por um narrador que se mistura ao personagem, criam cada vez mais uma sensação de que aquela transformação do Gregor humano em um Gregor inseto, em uma monstruosidade difícil de descrever, está, sim, relacionada ao seu árduo trabalho. Como podemos ver diante do que trouxemos até aqui, além de outros trechos que estão na novela de Kafka, Samsa é certamente uma peça da máquina burocrática, mas uma peça que, agora problemática, será descartada pelos seus superiores na firma, como sucede, por exemplo, com os personagens principais de A Última Gargalhada (1924), filme do alemão F. W. Murnau, e de O Posto (1976), filme do italiano Ermanno Olmi. Diferentemente do primeiro, no entanto, mais se assemelhando ao segundo, “A Metamorfose” traria uma conclusão nada otimista.
Quando o gerente chega na residência dos Samsa, o nível de apreensão é elevado a ponto de o narrador se preocupar com a permanência do protagonista no seu emprego e com a aflição da família atingida por essa bizarrice corporal de Gregor:
Porque ele não deixava o gerente entrar, porque corria o perigo de perder o emprego e porque depois o chefe iria perseguir de novo os pais com as antigas exigência? [...] É claro que, no momento, estava lá deitado no tapete, mas ninguém que conhecesse seu estado teria exigido seriamente dele que deixasse o gerente entrar. Mas por causa dessa pequena descortesia, para a qual se encontraria mais tarde, afinal, uma desculpa adequada, Gregor não podia ser demitido na hora. E a ele parecia muito mais razoável que o deixassem em paz agora do que perturbá-lo com choro e exortações. No entanto era justamente a incerteza que os afligia e desculpava o seu comportamento. (KAFKA, 2012, p. 19).
Um pouco mais à frente na trama, seria constatado que “[o] gerente precisava ser retido, tranquilizado, persuadido e finalmente conquistado; dependia disso o futuro de Gregor e de sua família” (KAFKA, 2012, p. 27). Percebe-se que profissão/trabalho e dificuldade, na trama, sobretudo no capítulo primeiro, estão cada vez mais alinhadas.
Tomando coragem, então, para se aproximar do seu gerente, Gregor “começou a girar, com a boca, a chave na fechadura. Infelizmente, ao que parecia ele não tinha dentes de verdade – com o que devia logo agarrar a chave? (KAFKA, 2012, p. 23). Nota-se a dificuldade do sujeito de, agora, sair do seu quarto, uma dificuldade que, mais uma vez, estaria relacionada ao plano da dor, visto que, nesse instante de tentar abrir a porta, “estava causando alguma lesão em si mesmo, pois um líquido marrom saiu da sua boca, escorreu sobre a chave e pingou no chão” (KAFKA, 2012, p. 23). É o dano, podemos entender assim, do processo burocrático, ou do processo kafkiano, que muitas vezes é remetido a uma imobilidade nada menos do que dolorida, não é por menos que Samsa quase não consegue sair do lugar, havendo muito esforço, muita dor, para que seja evidenciado um mínimo de evolução. As narrativas kafkianas, diga-se de passagem, estão intimamente ligadas à questão da imobilidade, algo que, a propósito, também se liga a Josef K, o protagonista do já citado O Processo.
Um dos maiores conflitos de A Metamorfose passam a ser evidenciados, no entanto, quando Gregor perde, consideravelmente, a sua capacidade de comunicação. O protagonista, na verdade, não estava mais sendo entendido pelos seus parentes, também não estava sendo compreendido pelo gerente, afinal, Samsa passou a reproduzir os sons, os rumores, de um inseto, não mais de um ser humano. De modo muito inteligente e também simbólico, então, a narrativa em questão concede cada vez menos espaços para monólogos e para diálogos, havendo, gradualmente, uma predominância da voz do narrador, o que evidencia, justamente pela ausência cada vez maior das suas falas, o problema de comunicação de Samsa.
Tudo isso, a propósito, ocorre apenas no primeiro capítulo do livro, um capítulo extenso e decerto impressionante. Se nesse primeiro episódio o que mais visualizamos é a dificuldade de adaptação por parte do protagonista, assim como a sua preocupação para com o trabalho, não podemos deixar de ressaltar mais um momento de dor física experimentado pelo personagem-inseto, quando o seu pai “desferiu, por trás, um golpe agora de fato possante e liberador e ele voou, sangrando violentamente, bem para dentro do seu quarto” (KAFKA, 2012, p. 31), um fortíssimo gancho, uma instigante transição para o segundo capítulo.
O segundo capítulo, finalmente, seria constantemente marcado por digressões que descrevem a falência dos negócios do pai de Gregor, “uma desgraça comercial, que havia levados todos a um estado de completa desesperança” (KAFKA, 2012, p. 41), um instante que, seja dito de passagem, parece irrelevante se comparado àquele absurdo que compõe o momento presente da narrativa. Nesse segundo capítulo do livro, inclusive, alguns trechos destacam com mais afinco os problemas da família no âmbito financeiro, pois Gregor era o responsável por bancar os seus pais e a sua irmã, não podendo mais realizar esse ofício, no presente, por conta do seu estado: “Quando a conversa chegava a essa necessidade de ganhar dinheiro, Gregor se soltava da porta e se atirava sobre o frio sofá de couro que se encontrava ao lado, pois ficava ardendo de vergonha e tristeza” (KAFKA, 2012, p. 44).
Diante dos muitos pulos temporais, não observamos mais a tortura do momento, o excesso da apreensão, de Gregor, em relação ao relógio, por exemplo, mas sim as consequências da sua transformação bizarra, como a questão financeira, cada vez mais preocupante, e também o afastamento dos seus familiares. Samsa, à luz da situação, pouco a pouco se encontrou cada vez mais privado da sua família, ao passo que ficou cada vez mais privado, também, das suas próprias coisas, o que vai ao encontro, de modo simbólico, da sua perda de identidade e de um vazio carregado por si:
Elas lhe esvaziaram o quarto; privaram-no de tudo que lhe era caro; já tinham carregado para fora o armário em que se achavam a serra e outras ferramentas; soltavam agora a escrivaninha fortemente cravada no chão, na qual havia escrito suas lições como estudante de comércio, ginasiano e até como escolar (KAFKA, 2012, p.52).
Diante desse estado simplesmente decadente, o último capítulo do romance está basicamente reservado para a sua deterioração. Gregor tem as suas dificuldades de adaptação, as suas dores e as suas preocupações no primeiro capítulo, ao passo que no segundo, mais bem adaptado ao novo e bizarro corpo, está cada vez mais afastado dos seus familiares e das suas coisas que possuem, para ele, algum tipo de afeto. As últimas páginas do livro, por outro lado, captam aquela “figura triste e repulsiva” (KAFKA, 2012, p. 59), para utilizar as falas do próprio narrador, em relação à sua deterioração, ao seu estado cada vez mais delicado, e uma família assombrada por uma “total falta de esperança e [pelo] pensamento de que tinha sido atingida por uma desgraça” (KAFKA, 2012, p. 62).
As costas de Gregor, atingidas por uma maça, mostrava-se infeccionada, o que marca, fisicamente, o estado problemático, de deterioração, do personagem, mas o ápice do caos seria evidenciado quando Gregor, enquanto ouvia, às escondidas, a irmã tocar o violino, acaba sendo visto pelos inquilinos do seu pai. Estes, então, se retiram da casa e se recusam pagar a estadia por conta das “condições repulsivas reinantes” (KAFKA, 2012, p. 73), consolidando-se como um peso para aquela família protagonista, que entende que o melhor caminho é se livrar do mesmo:
Precisamos tentar nos livrar disso – disse então a irmã exclusivamente ao pai, pois a mão não ouvia nada com tosse. – Isso ainda vai matar a ambos, eu vejo esse momento chegando. Quando já se tem de trabalhar tão pesado, como todos nós, não é possível suportar em casa mais esse eterno tormento. Eu não aguento mais (KAFKA, 2012, p. 75).
No fragmento em destaque, a utilização dos pronomes “disso” e “isso”, ambos com o objetivo de referenciar o homem-animal, nos lembram das narrativas de monstro, monstros que muitas vezes são referenciados dessa maneira, termos que, além disso, nos fazem entender que Gregor não é mais reconhecido pela sua família como um membro, apenas como um peso, como um inseto ou como um monstro. A atitude da irmã também chama a atenção, consolidando, indubitavelmente, a atmosfera melancólica, visto que a mesma era a mais próxima do seu irmão, era a que mais tentava entendê-lo, mesmo nas atuais condições, mas passa a entender que ele representa somente um peso para si e para os seus pais naquele cenário. Ocorre que Gregor morre, não por alguma ação direta da sua família, mas por uma maçã podre, presa em si mesmo, que inflama as suas costas e aos poucos o destrói, uma morte muito marcada, igualmente, pelo seu estado mental completamente destruído.
A morte de Gregor acabaria por se tornar um alívio para o seu pai, que agradece a Deus pela morte do filho, havendo, inclusive, no mesmo instante, o fim do inverno e o começo da primavera, um símbolo controverso e pesadíssimo na situação em questão se levarmos em conta que a primavera, na literatura e nas narrativas de um modo geral, geral, frequentemente tem a ver com vida, ao passo que o inverno está associado à questão da morte. Mesmo assim, entendemos que Samsa morre quando o inverno está terminando e quando a primavera está nascendo, o que nos faz entender, tomando como base a tradicional relação entre as estações e a literatura, que a morte desse personagem, na verdade, representou para a sua família um ganho de vida. Ainda no plano simbólico, não podemos nos esquecer de destacar que, logo depois da morte de Gregor, o quarto deste é iluminado, a luminosidade chega de imediato com a sua morte, como se aquilo que o pai expressou, o alívio, fosse de fato constatado também por uma possível força maior.
Repara-se que, nas últimas páginas do mesmo romance, o campo semântico é completamente cambiado. Como vimos ao longo de toda esta análise, palavras e termos relacionados à melancolia e à repulsa tomaram conta dos mais diversos segmentos da novela de Kafka, só que a conclusão é recheada de vocábulos e de termos mais brandos, mais leves e de cunho positivo, como “novos sonhos” e “boas intenções”, termos que, claro, não apagam ou nem mesmo amenizam aquela história tenebrosa e triste, visto que um sabor no mínimo amargo é carregado mesmo nessa finalização mais branda, mas são termos que, por outro lado, não deixam de ser significativos e de firmar um peso ainda mais considerável sobre a figura de Gregor, pois, após a sua morte, tudo se torna mais calmo, mais tranquilo, para a sua família e, também, para o narrador, tachado dessa forma por causa das estratégias mais brandas que utiliza.
Referências:
A Última Gargalhada. Dir. F. W. Murnau. Alemanha: Universum Film (UFA), 1924.
KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
KAFKA, Franz. O Processo. São Paulo: Companhia das Letras: 2005.
O Posto. Dir. Ermanno Olmi. Itália: Titanus et al., 1961.

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