segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Análise | A nevrose da Cor (1903)

Julia Lopes de Almeida


Dos textos da prosa decadentista brasileira, aqueles de Julia Lopes de Almeida são deveras alguns dos mais marcantes. “A nevrose da cor”, um pequeno conto publicado em Ânsia Eterna (1903), livro composto por uma coletânea de contos da mesma autora, sem dúvidas é um dos melhores do decadentismo nacional, e não seria nenhum exagero afirmar que o texto é uma das melhores narrativas curtas do século passado, é um marco estético na literatura nacional, ainda que longe, mas muito longe, de alcançar o grande público, longe, inclusive, do grande volume dos estudos literários no meio acadêmico.

Em “A nevrose da cor”, o que vemos de imediato é uma breve ambientação quanto ao local (Egito), quanto aos personagens (a princesa Issira e o sacerdote) e quanto às ações, um começo bastante dinâmico, que é iniciado, digamos assim, com uma cena já iniciada, quando a citada Issira está ao lado de um sacerdote que a aconselha sobre certas atitudes que uma princesa deve tomar, reforçando, em dois momentos, ao final do seu aconselhamento, que a moça precisa ter horror ao sangue. Esse reforço, é preciso complementar, deixa o leitor imediatamente em alerta, dado que ele busca imaginar, já naquele início, os motivos pelos quais Issira deve sentir repulsa ao sangue.

Em meio a esses conselhos, as belíssimas descrições, cheias de palavras rebuscadas, destacam as fortes indicações visuais, como o brilho dos vidros das janelas e, principalmente, as cores das coisas, a exemplo da barba prateada do sacerdote, do cabelo e dos olhos escuros da princesa, além do manto de cor púrpura. Cores e mais cores, além de odores, são destacados na apresentação do conto, o que nos lembra, guardadas as devidas proporções, do brilhante Alberto Caeiro, pseudônimo de Fernando Pessoa que tanto explorou o sensacionismo, elemento tão comum, também, à poesia simbolista. Diferentemente do poeta português, porém, o que encontramos no texto em análise, na verdade, é uma inclinação dessas mesmas cores ao mistério e  ao terror, algo que vai mais ao encontro dos citados simbolistas, mais fúnebres de um modo geral, mais próximos de uma tonalidade macabra.

Antes de o mistério se consolidar e do terror vir à tona, contudo, um leve conflito é impresso, quando se opõem o plano concreto, ligado às falas do sacerdote, e o plano abstrato, ligado aos sonhos da princesa, que viaja no seu tom escarlate enquanto o sacerdote recita os seus importantes sermões. Tudo muito bem conduzido quanto à história, tudo muito bem desenhado e descrito; as paisagens, por exemplo, são deslumbrantes, e se percebemos a oposição entre sonho e concretude, percebemos também outro conflito, um mais acentuado e que mais nos interessa, um conflito entre luz e sombra:

O céu, azul-escuro, não tinha nem um leve traço de nuvem. A cidade de Tebas parecia radiante. Os vidros e os metais deitavam chispas de fogo, como se aqui, ali e acolá, houvesse incêndio; e ao fundo, entre as folhagens escuras das árvores ou as paredes do casario, serpeava, como uma larga fita de aço batida de luz, o rio Nilo. (ALMEIDA, 1940, p. 188).

Percebe-se, pouco a pouco, a alta valorização do discurso descritivo, é um traço fortíssimo da obra em questão, e o citado jogo de luz e sombra pode se relacionar, poeticamente, com um duplo existente no interior da instigante Issira: ao mesmo em que é uma princesa, o que nos faz relacioná-la à nobreza, à beleza, à luz, ela também é uma monstruosidade, se atrela à impureza, ao insólito, à sombra. Se pensarmos, ainda, na nevrose da cor, uma doença da princesa, uma obsessão de Issira quanto à cor vermelha, seus graus de monstruosidade são acentuados, pois o vermelho, cada vez mais presente na história, é a cor do sangue, por isso o sacerdote dizia, lá no começo, para a moça ter horror justamente a isso, ao sangue.

O narrador, sempre muito próximo da personagem principal, também parece estar contaminado pela obsessão quanto ao vermelho, por isso fala o tempo todo dessa cor maldita, chegando a utilizar palavras semelhantes, para não dizer sinônimas, com o objetivo de se referir a essa mesma cor, palavras como “encarnado”, “rubro”, “escarlate”. A coloração vermelha, pouco a pouco, domina as linhas do conto, ela aparece praticamente em todos os parágrafos e, como foi dito, com nomes diferentes, ganhando uma força dramática cada vez mais notória. Com o espectador já em alerta pelas informações já explicitadas sobre a doença da personagem, percebe-se que, em proporção à ascensão do vermelho no interior da narrativa, a princesa também tem esse seu distúrbio intensificado em termos de dramaticidade: em um primeiro momento, por exemplo, bebe o sangue das ovelhas, mas depois passa a beber o sangue dos seus escravos.

Não só sugeridas pelo narrador, as ações da vampiresca Issira , justamente pelo encadeamento verbal, são sombriamente marcantes, como na parte, por exemplo, em que abocanha o braço de um escravo:

Uma hora mais tarde, um escravo, obedecendo-lhe, estendia-lhe o braço robusto, e ela, arregaçando-lhe ainda mais a manga já curta do kalasiris, picava-lhe a artéria, abaixava rapidamente a cabeça, e sugava com sôfrego prazer o sangue muito rubro e quente! O escravo passou assim da dor ao desmaio e do desmaio à morte (ALMEIDA, 1940, p. 192).

Issira, diante de suas ações naquele Egito sombrio, pode ser pensada como uma femme fatale, chega a matar para conseguir o que quer, ao mesmo tempo em que é descrita como uma pessoa altamente sedutora e capaz de impor respeito até mesmo ao rei, que se sente intimidado frente à vampira.

Se mais pelo começo da narrativa observamos um conflito curioso entre luz e sombra, isso se acentua no clímax, quando as sombras, em meio aos tons de vermelho, tomam conta das linhas e dos parágrafos para desencadear a máxima da obscuridade, um clímax, é preciso reforçar, que não perde a sua conexão com os tons rubros, dado que o sangue se mescla com as trevas, podemos dizer dessa forma. Muito pelo contrário, a obra, ainda carente de estudos mais profundos, assim como a sua autora, acolhe o seu ápice dramático justamente ao lado da coloração em destaque ao longo de toda a trama, um final arrebatador, gradativamente decante, trágico, um final digno de aplausos para um texto brilhante.


Referência:

ALMEIDA, Julia Lopes de. A nevrose da cor. In._____. Ânsia Eterna. Rio de Janeiro: S. A. A Noite, 1940. pp. 186-197. [1903].

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