quinta-feira, 7 de março de 2019

Análise | O Diabo (1972), o caos e a tríade freudiana

Diabel

Como acontece geralmente em muitos romances literários mais modernos, “O Diabo” (1972), longa-metragem dirigido pelo excelente Andrzej Zulawski, é iniciado por uma situação-limite, à frente de uma batalha sangrenta que sucede na Polônia do século XVIII. Nessa batalha intensa, de muito sangue derramado, o exército prussiano invade sem piedade até mesmo as igrejas locais, e no nosso mundo ocidental sabemos que quando até mesmo as igrejas são invadidas uma atmosfera de caos, de desordem, é certa de estar instalada, justamente como ocorre no interior desta brilhante fita que será analisada aqui.

A parte mais agitada da obra, curiosamente, ocorre nesse instante da introdução; semanticamente falando, é a parte mais chocante pela razão de evidenciarmos mortes cruas, e outros elementos sinistros, que ocorrem contra indivíduos dentro de uma igreja. Diante de tanta instabilidade, para que tal momento de grande tensão seja captado, um inseguro e tremido plano-sequência percorre o posto religioso que está sendo invadido, vemos freiras correndo de forma desesperada, e não é difícil ouvir outras pessoas que estão no local uivando, berrando, graças à dor que sentem, dor esta desencadeada pelas ações violentas dos guardas. Há sangue nas paredes e sujeitos recém-mortos são jogados como lixo no chão daquela região, são imagens fortes com poucos minutos de filme, são imagens que impressionam.

A organização cênica, da cenografia às atuações, é muito importante para conduzir o sentimento de impacto no público. No meio desse tumulto, surge um estranho ser, um homem todo vestido de preto, deslocado de toda aquela confusão, que mais parece ser um anjo da guarda do que qualquer outra coisa, pois ele salva Jakub (Leszek Teleszynsky), um dos personagens principais da trama, daquele impiedoso massacre. Não sabemos quem é esse homem misterioso, nem o próprio Jakub o conhece, não sabe quem é aquela figura vestida de preto. Logo depois do sentimento de impacto cristalizado nos movimentos iniciais da película, um clima de mistério se instala no filme a partir da aparição desse herói, desse anjo da guarda.

Tão misterioso é aquele homem de preto que, em alguns momentos da trama, ele subi-tamente desaparece, ele parece se esconder do narrador, o que acaba reservando, para si, um grau ainda maior de obscuridade. De vez em quando, como um legítimo fantasma, o mesmo personagem vestido de preto aparece subitamente pendurado em uma árvore, ou aparece bem no canto de um enquadramento; às vezes a sua aparição se dá bem ao lado do protagonista, Jakub, aquele que havia sido salvo do caos nos momentos inaugurais da obra. É curioso notar que esse sujeito misterioso, repentinamente, discursa frases de cunho poético e filosófico relacionadas, em muitos os casos, à guerra. Cada vez mais sentimos o estranhamento rondar esse personagem, é uma figura realmente instigante. 

Zulawski - O Diabo 1972

Em meio a tudo isso, impulsionado pelos conflitos violentos, Jakub foge para aquilo que soa ser a sua cidade natal e, por lá, reencontra figuras que foram importantes no seu passado. Ele, que sofre de uma doença mental, parece estar sendo perseguido por uma maldição, pelo diabo, posto que, a cada arco da história que se abre, decepções contra si são acumuladas, além de ele mesmo ser alvo de torturas, por exemplo. Se antes o caos podia ser visto no ambiente externo, um caos cristalizado na invasão prussiana contra a Polônia, naquela cena da igreja que destacamos há pouco, a atmosfera caótica passa a ser vista no interior de Jakub, isto é, nas suas memórias, no seu comportamento, nos seus distúrbios.

O narrador, é bom destacar, está cada vez mais próximo de Jakub, este ganha em presença de imagem, digamos assim, o que nos ajuda a penetrar com mais intensidade, portanto, nos problemas interiores do sujeito, por isso a plausibilidade da leitura enfatizada acima, do caos interno passando por um processo de exteriorização, semelhante àquilo que encontramos em obras expressionistas de um modo geral. Jakub, em uma situação, é quase que estuprado por um grupo teatral que encenava no meio de uma floresta; logo depois, ao chegar a uma espécie de palácio, o mesmo observa a sua antiga amada em uma cerimônia de noivado junto a um antigo amigo seu, fazendo com que se sinta traído, é um primeiro momento de decepção do protagonista depois de ter fugido daquele cenário caótico da guerra. A figura principal, na verdade, troca um caos pelo outro, o da guerra pelas incertezas do passado, o do embate físico pelo resgate maldito de memórias extremamente dolorosas. O desvio comportamental de Jakub, aqui, só acentua os seus problemas, atua como um elemento de intensificação das situações delicadas.

Dando contunidade aos problemas do protagonista, visualizamos, com ele, uma relação sexual entre a sua ex-amada e o seu ex-amigo. No ato, a propósito, percebemos que a moça está entre o sofrimento e o prazer. A não exatidão emocional do personagens, sobre o que de fato está acontecendo, gera ainda mais estranhamento na trama, gera ainda mais instabilidade e alimenta o cenário caótico de interrogações, de incertezas. Depois, deslocando-se para outra casa, Jakub, em uma gradação de perturbações, encontra o seu pai morto, aparentemente recém-morto, encontrado em uma posição onde o vemos apoiado em um travesseiro branco manchado por uma grande marca vermelha, uma marca de sangue. O caos está sufocando o personagem, ele é perseguido, podemos interpretar desse modo, pela maldição do seu passado, pelas memórias verdadeiramente incômodas. A cada deslocamento é um desespero atrás do outro, é um estado de perturbação que soa infinito.

O longa-metragem, aproveitando o que foi dito, é pautado por muitos deslocamentos, por aparições súbitas, de personagens que não conhecemos, que só obscurecem aquele cenário já demasiadamente misterioso. Quando o protagonista, por exemplo, tenta enterrar o seu pai para que possa apaziguar um pouco a situação na qual se encontra, quem chega por lá, no instante do enterro, é o seu irmão, um sujeito que está cometendo um ato de incesto, dado que tem relações com a sua própria irmã. Esse surgimento do seu irmão abriga mais conflitos na trama, conflitos, para citar apenas um caso, relacionados a uma mãe que abandonou o próprio Jakub e que se tornou uma prostituta mais tarde. Esta, aliás, ao receber o personagem principal quando o narrador mais uma vez se desloca e abre mais um arco atrelado à vida do protagonista, tenta não demonstrar a rejeição do passado, mas a dor de Jakub, em relação ao caso, parece ser irreparável.

Tão complexa é a obra que podemos até pensar, por um viés psicanalítico, que muitos dos problemas atuais do personagem passam por esses problemas de família do passado; a memória de Jakub nos entrega, ao menos em relação à mãe, que houve algum tipo de rejeição na infância do protagonista, um possível causador, ou um possível intensificador, dos seus distúrbios do presente. Todo aquele cenário, que pode, sim, ser enxergado como a concretização do interior de Jakub, é pautado pelo caos, pela desordem, traduções, representações, do que se passa na psicologia do personagem, que vai ao encontro das atuações convulsivas dos atores, reflexos de uma atmosfera de instabilidade, de uma mente insana, atuações que seriam, aliás, influências para um posterior filme do mesmo Zulawski, filme este que é “Possessão” (1981).

Junto à representação do caos, o interior pouco ou nada saudável do personagem principal parece distorcer o comportamento de cada uma das figuras que se encontram com Jakub. Se cada local que ele visita parece ser um pedaço de sua memória, como tentamos apontar acima, cada visão dos seus parentes e dos seus amigos parece ser uma leitura sua, distorcida, sobre aquelas pessoas. Podemos nos apoiar na ideia de que todas as pessoas sofrem, inclusive a sua ex-amada, justamente no momento da citada relação sexual com o seu noivo. Sobre esse caso, especificamente, ou Jakub enxerga isso como um verdadeiro sofrimento para a moça, ou ele quer que ela sofra, quase como uma ideia de conforto para si. Se tudo parece ser projeção da sua cabeça, necessário que relacionemos o sentimento, as ações, de cada um dos indivíduos à visão, à leitura, do protagonista.

Além disso, o filme, de tão rico que é, fornece outras possíveis leituras, como uma atrelada às instâncias freudianas. Podemos pensar, por exemplo, que o próprio Jakub, uma espécie de mediador da situação, é o Ego, pois ele tenta equilibrar todo aquele caos, ainda que isso seja uma tarefa dificílima por conta de tudo o que foi comentado anteriormente. Por outro lado, como o Superego, poderíamos destacar a figura da freira, uma figura que, no meio de tanta desordem, de tanta desgraça, no meio de uma guerra, próxima àquele sujeito descontrolado, quase não tem voz, aparece pouco em termos de imagem e não consegue executar o seu trabalho, aquele atrelado a uma maior responsabilidade e aos valores morais, em um momento tão caótico, tão sombrio, como aquele. Falando em sombrio, importante destacar a iluminação natural da película que, além de buscar uma conexão com a época em que a história é passada, no século XVIII, parece contornar os personagens de trevas constantemente, tudo isso por haver pouca luz e muita sombra nos entornos daqueles indivíduos, algo que casa, também, com as paisagens frias, mais escurecidas por natureza, que estão em segundo plano.

O Diabo, Zulawski

Em relação ao Id, finalmente, a última das instâncias freudianas a serem citadas, podemos dizer que esse conceito se atrela à figura do homem misterioso vestido de preto, aquele que outrora havia sido o anjo da guarda por salvar Jakub da guerra. Se pensarmos um pouco além, entendemos que o protagonista é que na verdade se salva por ter sido coordenado pelo Id, isto é, por ter sido coordenado com base no instinto, lembrando que o Id não mede regras no momento de executar suas ações. Ao mesmo tempo, o homem de preto, no meio de tanto caos interior, torna-se um impulsionador sobre a matança que Jakub realiza em um extrato da fita, dado que ele segue apenas os seus impulsos, e é justamente a manifestação desse Id que dirige toda aquela situação, uma direção oculta pela razão de o Id agir furtivamente nesse caso, não é por menos que o sujeito misterioso geralmente aloja-se em locais eclipsados.

Possível que cheguemos à conclusão de que “O Diabo”, à frente de tudo o que discutimos ao longo deste texto, não é um filme fácil de ser digerido, é uma película violenta se levarmos em conta os aspectos puramente visuais e uma narrativa difícil de ser acompanhada. Toda a filmografia de Andrzej Zulawski, na verdade, pode ser resumida pela complexidade, uma filmografia que em momento algum flerta com o entretenimento, que está longe de alcançar o grande público, embora ela seja, certamente, bastante poderosa, com o longa-metragem de 1972, analisado aqui, sendo o seu carro-chefe, a sua magnum opus.

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