segunda-feira, 29 de abril de 2019

Análise | Martin (1977), a ruptura sobre o vampiro tradicional

Martin - movie

Depois de afirmar a sua estética macabra na primeira metade dos anos 1970 com A Época das Bruxas (1972) e O Exército do Extermínio (1973), George Romero voltaria a trabalhar com o terror em Martin (1977), seu primeiro longa-metragem com uma temática que envolve vampiros. Interessante notar que, independente da qualidade, Romero acolheria diferentes temáticas que envolvem o terror, de bruxas a vampiros, passando, também, pelos zumbis, sendo estes os seus tipos macabros preferidos.

Em Martin, filme que será analisado neste texto, acompanhamos, na primeira cena, a entrada de algumas pessoas em um trem, trem este que serviria de ambiente para apresentar a morbidez do personagem-título. Martin é uma espécie de vampiro, entendemos isso rapidamente se levarmos em conta as informações extratextuais e a ação que é concretizada no mesmo trem destacado, quando o mesmo sujeito citado aqui ataca uma mulher com um sonífero e a corta no pulso para que pudesse chupar o seu sangue.

Interessante que muitos pontos são positivamente destacados com poucos minutos de filme. O primeiro deles pode se atrelar aos planos-detalhe, recursos fotográficos importantes que captam objetos cortantes, como seringas e navalhas, e que seriam explorados novamente ao longo do desenvolvimento da trama com o intuito de causar agonia, de derramar sangue. Não poderia ser diferente, é comum haver o derramamento de sangue em uma trama vampiresca, mas Martin, muito interessante, é um filme que, por outro lado, rompe, na execução da sua estética, com certos elementos da tradição das narrativas de vampiro, e isso começa a ser percebido justamente na citada cena do ataque de Martin contra a mulher no trem.

Durante a investida, como pode ser percebido, Martin não utiliza seus dentes e morde o pescoço da sua vítima, mas, primeiro, coloca-a para dormir e, depois, a corta com uma navalha para obter o seu sangue. Todo o desenvolvimento da trama, a propósito, seria pautado pelo conflito interior de Martin, conflito sobre o ser ou não ser um vampiro, e pela quebra da narrativa em relação a elementos canônicos quanto àquilo que envolve os vampiros nas diferentes mídias, seja no cinema, na literatura ou em outro campo da arte.

Martin entra naquele trem com o objetivo de ir à residência do tio que acredita fielmente que seu sobrinho é um vampiro. Em alguns trechos do desenvolvimento, diga-se de passagem, o tio do rapaz é acionado como uma figura que expõe certas informações sobre a sua família, a mesma do personagem-título, uma família amaldiçoada aparentemente, que é composta por alguns membros vampirescos, incluindo Martin, que, segundo o que é dito, tem mais de oitenta anos. Essa exposição familiar é rápida, bem-vinda como uma forma de alimentar o mistério que envolve o protagonista, e sobre a sua idade é necessário dizer, ainda, que alguns inserts são esporadicamente acionados, mostrando pedaços, em preto e branco, em imagens cheias de sombras, do passado de Martin.

A idade do sujeito parece se confirmar, e os inserts são fundamentais para que os aspectos sombrios sejam realçados, vide as sombras da fotografia que carregam aquela história de obscurantismo. O negócio é que, tirando a questão idade, não se pode atrelar o vampirismo do personagem aos aspectos mais fantasiosos, digamos assim, que rondam as criaturas dentuças, bebedoras de sangue, já que Martin diz ao seu tio, e diz a um interlocutor misterioso que conversa pelo telefone, que ele pode comer alho, que ele pode andar sob a luz do sol, que no máximo sente dores nos olhos quando muito exposto à claridade, fator mais do que natural para um ser humano comum.

O vampiro de Romero é um vampiro mais humano, menos monstruoso e assombroso, um vampiro que se distingue daqueles que encontramos em Drácula (1931), dirigido por Tod Browning, e em Nosferatu (1922), a obra-prima de F. W. Murnau. Há uma cena, aliás, que Martin é levado para ser exorcizado, mas nada funciona, nada acontece, e zombando o seu tio, responsável por levá-lo ao local onde aconteceria o exorcismo, o protagonista se veste como um vampiro estereotipado, com capa e dentes postiços, para assustar esse seu parente e mostrar, pelo exagero da caracterização, que ele não se liga a esse tipo de vampiro, um segmento que serve, de quebra, como uma desconstrução mais explícita sobre o clichê vampiresco.

Não podemos nos esquecer, é claro, da forma como a obra se aproxima de uma composição mais natural, que coincide com a proposta diferenciada de Romero. “Martin”, por exemplo, é um filme pautado por uma câmera tremida, aspecto que pode ser lido como uma tradução da instabilidade interior do seu personagem principal, por uma cenografia mais singela e pela valorização do som diegético. A película em análise pouco se preocupa com cenários mais expressivos, complexamente elaborados, e pouco aciona a melodia não diegética, havendo, portanto, poucas interferências do narrador como instância superior.

Sobre o conflito do personagem, há momentos em que Martin age impulsivamente, mata as pessoas porque tem vontade de beber o sangue delas, mas muitas vezes tenta se livrar desse seu lado, como ele mesmo diz em suas confissões ao interlocutor misterioso no telefone. Ainda, o personagem principal, que nunca tivera uma relação sexual anteriormente, dado que a alimentação pelo sangue era o suficiente para saciá-lo, consegue se relacionar sexualmente com uma mulher da cidade onde vive, o que acaba por afastá-lo das suas antigas ações macabras e sanguinárias.

Depois de acompanharmos um personagem que se liga, sim, a um problema existencial, podemos chegar à conclusão de que não existe, por lá, nenhum vampiro. A idade de Martin poderia ser uma farsa, e os inserts, que mergulhariam em um possível passado do sujeito, podem ser lidos como falsas memórias, falsas narrativas impostas a ele de alguma forma, uma mentira que virou verdade. Além disso, é importante ressaltar que Martin não tem dentes exageradamente pontiagudos, o mesmo não se transforma em morcego, não tem problemas com alhos, como apontamos, e se ele bebe sangue humano para se saciar é porque ele possui algum problema, algum desvio comportamental ou fisiológico.

Tragicamente, a única semelhança do sujeito com um vampiro, fora a vontade de beber sangue, é a morte que lhe é conferida, morto por uma estaca enfiada bem no centro do seu peito, coisa que lhe acontece por conta da crença duvidosa do seu tio, por conta da obsessão desse mesmo indivíduo, um legítimo fanático. A questão é que Martin, assim como os vampiros, e também como os seres humanos, é vulnerável a tal tipo de violência. Muito interessantes são as leituras possíveis de Martin, um longa-metragem que, naqueles anos 1970, acolheria uma composição diferente de tudo daquilo que estávamos mais acostumados a ver em filmes de vampiro.

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