George A. Romero é um cineasta que, de fato, ficou bastante famoso pelos seus trabalhos em filmes que envolviam, em sua temática, os zumbis, embora tenha sempre migrado para outros temas que, de uma forma ou de outra, acolhiam o terror. Em “A época das bruxas” (1972), por exemplo, Romero contou uma história, como diz o título, de bruxas, e em “Martin” (1977) trouxe ao protagonismo um vampiro.
Interessante notar que, em “Creepshow” (1982), Romero compôs um longa-metragem de homenagem às histórias em quadrinhos da EC Comics e, com isso, dirigiu episódios que migraram para os mais diversos campos temáticos do terror. Curioso notar que são seis contos distribuídos ao longo das duas horas de duração da película, uma maneira de captar um pouco a essência dos quadrinhos publicados nas revistas da época, que também continham alguns contos sem quaisquer ligações aparentes e com diversidade em seus temas sempre macabros.
O prólogo, ou primeiro conto, é interessante, é o momento mais saudoso de todos, é nostálgico, quando um garotinho, em sua casa, mesmo que reprimido pelo seu pai, se aventura nas histórias em quadrinhos de terror chamadas “Creepshow”, uma referência clara às clássicas comics dos anos 1950. Mais referências aos quadrinhos apareceriam ao longo dos contos, quando anúncios de itens para lá de esquisitos, tão presentes nos intervalos entre as tramas das revistas da época, ganham protagonismo em brevíssimos planos-detalhe no longa-metragem.
Depois de uma apresentação em que se vê, pelos olhos do garotinho, uma caveira que lembra a Guardiã da Cripta de “Tales from the Crypt”, um selo de terror da EC Comics na época, somos conduzidos aos cinco contos principais, lembrando que considero, aqui, o drama do garotinho como um dos contos da película. O drama do menino, aliás, é o drama do fã de terror, sendo ele considerado, pelo pai, uma pessoa subversiva, louca, por gostar de narrativas de medo. A rejeição do pai do jovem sobre os quadrinhos representa bastante a rejeição que se vê sobre o terror diariamente, como aconteceu, por exemplo, com a própria EC Comics antigamente, quando a editora teve problemas de censura com a publicação dos seus quadrinhos por conta da criação do Código de Ética.
Logo em seguida, no filme, o drama sai de cena e, de maneira nostálgica, o que vemos na tela é aquilo que o garotinho estava lendo. O suspense se configura de maneira caricata, através de personagens caricatos, que, no segundo segmento, contam a história de uma mulher que supostamente assassinou o pai e que, no dia dos pais, vai ao túmulo dele como uma maneira de se desprender um pouco da culpa. Chegando lá, ela passa a ser perseguida pela imagem assombrosa do zumbi do seu pai, dono de um visual convidativo coordenado por Tom Savini, e pelas falas repetitivas do mesmo progenitor morto-vivo, falas como “I want my cake”, que perturbam a personagem se levarmos em conta o contexto da narração. O grande equívoco do conto, que seria o equívoco de outros que veríamos posteriormente, é o excesso de música, música esta que somente inclina caricatura à imagem, parece não haver outro propósito. A trilha musical, também, por estar sempre tão alta, atrapalha a degustação do espectador frente às falas perturbadoras do zumbi, por exemplo, e ao seu visual interessante, simplesmente horripilante.
O mesmo problema do excesso, sobretudo pela trilha musical, se dá no segundo conto, um recurso que não se contém, que não possui limites, prejudicando um pouco o acompanhamento da obra, geralmente pautada pelo exagero. Deve-se destacar, por outro lado, as boas criações de expectativas acerca do que está acontecendo ao personagem extremamente caricato do segundo capítulo, personagem que, ao ter contato físico com um meteoro que caiu próximo da sua casa, começa a ser engolido por plantas esquisitas, plantas que passam a engolir tudo aquilo que está nos seus arredores, inclusive esse sujeito citado, mais ou menos assemelhado ao Monstro do Pântano no final das contas.
O nível começa a subir perceptivelmente no conto de número três, mantendo personagens caricatos, é verdade, mas menos exagerados desta vez, muito menos exageros. Durante uma vingança, um indivíduo enterra duas pessoas em uma praia, numa altura em que a areia, em determinadas partes do dia, é invadida pelo mar. O conto ganha por frear um pouco a caricatura, mas ganha, também, pela agonia criada ao modo de Edgar Allan Poe, pois a cada vez que uma pequena onda atinge a cabeça do personagem enterrado na areia sentimo-nos sufocados como ele, sendo o mérito aqui carregado, sobretudo, pelas escolhas de enquadramento em close-up, que limitam a imagem, que sufocam.
A trilha musical também é mais sutil nesse terceiro segmento da película, embora mais ao final, quando espécies de zumbis aparecem no clímax do conto, esse mesmo recurso se descontrole e atrapalhe um pouco a condução do terror. Felizmente há uma boa coordenação da montagem paralela na mesma altura do conto, na situação-limite, no clímax, quando boas situações de suspense são criadas, quando zumbis, tão caros a Romero, sobem a escada de um ambiente enquanto um indivíduo, o alvo dessas criaturas, busca alguma forma de se esconder desses monstros.
Se falamos de Poe anteriormente, podemos retomá-lo no quarto conto, lembramo-nos do autor quando uma criatura que mais lembra o orangotango de “Os assassinatos da Rua Morgue” (1841), texto do mesmo escritor inglês, começa a atacar e assassinar certas pessoas em uma faculdade. Esse quinto conto, interessante notar, até conserva a caricatura, mais voltada especificamente a uma personagem, mas a conserva para desferir um final fatal, curioso de acordo com todo o contexto. A fera destacada, diga-se de passagem, pode ser interpretada como a fera dentro de cada um de nós, pode ser interpretada como o nosso lado bestial.
Interessante notar que, em “Creepshow” (1982), Romero compôs um longa-metragem de homenagem às histórias em quadrinhos da EC Comics e, com isso, dirigiu episódios que migraram para os mais diversos campos temáticos do terror. Curioso notar que são seis contos distribuídos ao longo das duas horas de duração da película, uma maneira de captar um pouco a essência dos quadrinhos publicados nas revistas da época, que também continham alguns contos sem quaisquer ligações aparentes e com diversidade em seus temas sempre macabros.
O prólogo, ou primeiro conto, é interessante, é o momento mais saudoso de todos, é nostálgico, quando um garotinho, em sua casa, mesmo que reprimido pelo seu pai, se aventura nas histórias em quadrinhos de terror chamadas “Creepshow”, uma referência clara às clássicas comics dos anos 1950. Mais referências aos quadrinhos apareceriam ao longo dos contos, quando anúncios de itens para lá de esquisitos, tão presentes nos intervalos entre as tramas das revistas da época, ganham protagonismo em brevíssimos planos-detalhe no longa-metragem.
Depois de uma apresentação em que se vê, pelos olhos do garotinho, uma caveira que lembra a Guardiã da Cripta de “Tales from the Crypt”, um selo de terror da EC Comics na época, somos conduzidos aos cinco contos principais, lembrando que considero, aqui, o drama do garotinho como um dos contos da película. O drama do menino, aliás, é o drama do fã de terror, sendo ele considerado, pelo pai, uma pessoa subversiva, louca, por gostar de narrativas de medo. A rejeição do pai do jovem sobre os quadrinhos representa bastante a rejeição que se vê sobre o terror diariamente, como aconteceu, por exemplo, com a própria EC Comics antigamente, quando a editora teve problemas de censura com a publicação dos seus quadrinhos por conta da criação do Código de Ética.
Logo em seguida, no filme, o drama sai de cena e, de maneira nostálgica, o que vemos na tela é aquilo que o garotinho estava lendo. O suspense se configura de maneira caricata, através de personagens caricatos, que, no segundo segmento, contam a história de uma mulher que supostamente assassinou o pai e que, no dia dos pais, vai ao túmulo dele como uma maneira de se desprender um pouco da culpa. Chegando lá, ela passa a ser perseguida pela imagem assombrosa do zumbi do seu pai, dono de um visual convidativo coordenado por Tom Savini, e pelas falas repetitivas do mesmo progenitor morto-vivo, falas como “I want my cake”, que perturbam a personagem se levarmos em conta o contexto da narração. O grande equívoco do conto, que seria o equívoco de outros que veríamos posteriormente, é o excesso de música, música esta que somente inclina caricatura à imagem, parece não haver outro propósito. A trilha musical, também, por estar sempre tão alta, atrapalha a degustação do espectador frente às falas perturbadoras do zumbi, por exemplo, e ao seu visual interessante, simplesmente horripilante.
O mesmo problema do excesso, sobretudo pela trilha musical, se dá no segundo conto, um recurso que não se contém, que não possui limites, prejudicando um pouco o acompanhamento da obra, geralmente pautada pelo exagero. Deve-se destacar, por outro lado, as boas criações de expectativas acerca do que está acontecendo ao personagem extremamente caricato do segundo capítulo, personagem que, ao ter contato físico com um meteoro que caiu próximo da sua casa, começa a ser engolido por plantas esquisitas, plantas que passam a engolir tudo aquilo que está nos seus arredores, inclusive esse sujeito citado, mais ou menos assemelhado ao Monstro do Pântano no final das contas.
O nível começa a subir perceptivelmente no conto de número três, mantendo personagens caricatos, é verdade, mas menos exagerados desta vez, muito menos exageros. Durante uma vingança, um indivíduo enterra duas pessoas em uma praia, numa altura em que a areia, em determinadas partes do dia, é invadida pelo mar. O conto ganha por frear um pouco a caricatura, mas ganha, também, pela agonia criada ao modo de Edgar Allan Poe, pois a cada vez que uma pequena onda atinge a cabeça do personagem enterrado na areia sentimo-nos sufocados como ele, sendo o mérito aqui carregado, sobretudo, pelas escolhas de enquadramento em close-up, que limitam a imagem, que sufocam.
A trilha musical também é mais sutil nesse terceiro segmento da película, embora mais ao final, quando espécies de zumbis aparecem no clímax do conto, esse mesmo recurso se descontrole e atrapalhe um pouco a condução do terror. Felizmente há uma boa coordenação da montagem paralela na mesma altura do conto, na situação-limite, no clímax, quando boas situações de suspense são criadas, quando zumbis, tão caros a Romero, sobem a escada de um ambiente enquanto um indivíduo, o alvo dessas criaturas, busca alguma forma de se esconder desses monstros.
Se falamos de Poe anteriormente, podemos retomá-lo no quarto conto, lembramo-nos do autor quando uma criatura que mais lembra o orangotango de “Os assassinatos da Rua Morgue” (1841), texto do mesmo escritor inglês, começa a atacar e assassinar certas pessoas em uma faculdade. Esse quinto conto, interessante notar, até conserva a caricatura, mais voltada especificamente a uma personagem, mas a conserva para desferir um final fatal, curioso de acordo com todo o contexto. A fera destacada, diga-se de passagem, pode ser interpretada como a fera dentro de cada um de nós, pode ser interpretada como o nosso lado bestial.
Por fim, no último conto, temos, é verdade, um sujeito bastante caricato no protagonismo, mas a sua caricatura, como a da personagem no conto antecessor, é importante para que o impacto final seja ainda maior, uma caricatura, portanto, que acaba por funcionar. Nesse trecho final, a personalidade difícil do personagem principal acaba levando-o à morte, às ruínas, e muito disso passa, pode-se entender assim, pelas juras de maldição recebidas por pessoas que ele desprezava constantemente. O destaque do conto vai para a presença do horror, de imagens repulsivas, que se destacam com ainda mais forças graças a uma cenografia predominantemente branca, polida, completamente modificada com o passar do tempo.
Entre excessos de caricatura que não funcionam e caricaturas que funcionam, sobretudo nas tramas mais ligadas à conclusão, “Creepshow” contém um repertório de histórias interessantes, embora escorregue em certos recursos. O longa-metragem ganha muito pela homenagem, pelo sentimento de nostalgia quanto às histórias em quadrinho que homenageia, um fator que, de fato, deve ser levado em conta por conseguir potencializar tudo aquilo que acompanhamos durante o filme, embora não seja o suficiente para que classifiquemos a fita em questão como uma das melhores do seu diretor.

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