domingo, 15 de setembro de 2019

Análise | Midsommar - o mal não espera a noite (2019)


Geralmente, quando em contato com as artes em geral, da literatura ao cinema, entendemos que o inverno é uma estação que se atrela ao fim de um ciclo, ao isolamento, enquanto a primavera representa o renascimento, a renovação. Esse bonito símbolo pode ser encontrado em incontáveis obras e em “Midsommar” (2019), segundo longa-metragem dirigido pelo ótimo Ari Aster. Alguns dos primeiros quadros se pautam por uma acentuada queda de neve em uma cidade, quadros seguidos pelo protagonismo de Dani (Florence Pugh), uma jovem que possui sérias preocupações familiares.

Sem qualquer demora, apresentando bem a situação da protagonista, consideravelmente isolada, como manda o inverno muitas vezes, e colocada de lado pelo próprio namorado, a película se inclina a um evento impactante relacionado à mesma personagem, quando, tragicamente, seus pais e sua irmã morrem asfixiados. As imagens carregam certo peso nesse momento da introdução, uma introdução mais lenta, de poucos cortes, dona até de certa tensão que é conferida por Dani, mas nada à altura daquelas imagens horrendas que captariam a morte brutal dos familiares da menina.

Tal tragédia, diga-se de passagem, marcaria a virada da trama quando Dani, mesmo sem a aprovação da maioria dos envolvidos, viaja para um vilarejo sueco ao lado do namorado e dos amigos deste, sendo que um deles é nato da região e os guia até lá. Percebe-se que a chegada a Estocolmo, destino intermediário entre os Estados Unidos e a comunidade mirada pelos personagens, demonstra, profeticamente, que aquela viagem seria um pouco agitada, não é por menos que, no momento da aterrissagem, o avião balança ferozmente, e o som do filme, nas alturas, uma consequência da turbulência, chega a incomodar.

Se “Hereditário” (2018), longa-metragem antecessor de Aster, trata de um forte drama familiar com certo tom macabro por trás do elemento trágico, “Midsommar” se assemelha nisso, embora se diferencie no fato de que boa parte da trama não está concentrada no meio urbano, mas sim no rural, estamos diante de um folk horror. Ao chegar na comuna almejada, encantamo-nos com a vida bucólica vivida pelos habitantes locais, onde alguns animais andam lado a lado com os humanos, onde há belas construções de casebres, onde há flores e plantas espalhadas para todos os cantos, por isso ficamos maravilhados, como fica a maioria daqueles personagens estadunidenses que chega à região nórdica, com o vilarejo aparentemente muito simpático.

A chegada ao ambiente enfatizado, entretanto, soa cínica, e aos poucos, diante de um cenário tão curioso, exótico, enquanto os rituais daquelas pessoas são executados, apresentados, explicados, percebemos certos movimentos simplesmente bizarros. Um deles, deve-se destacar, se dá quando dois idosos, depois de alcançar certa idade, se jogam de um penhasco e caem em cima de uma grande pedra, um evento comum aos habitantes da comunidade, mas chocante para os personagens visitantes e também para o espectador, que testemunha um suicídio frio, sangrento, capaz de trazer, pelo impacto da queda, pedaços dos corpos, não é possível descrever de outra maneira, arrebentados. A exposição dos rituais, portanto, é mais do que uma simples exposição, é também o encontro com o horror.

As coisas, então, passam a ficar cada vez mais estranhas, o volume de situações daquele tipo, situações sempre voltadas aos rituais, passa a tomar conta da película. Nota-se que muitos dos visitantes, em meio aos hábitos exóticos, não seguram suas diferentes reações, ligadas muitas vezes a um estouro emocional. As reações parecem banais, pouco importantes, apenas um complemento, mas aquelas figuras se ligam, e muito, às reações do espectador, dado que Josh, por exemplo, representa a curiosidade, a vontade de conhecer mais sobre aquele povo tão diferente, sendo que Dani representa o medo, o pavor. Mark, por outro lado, representa o deboche e, vez ou outra, a ignorância, afinal, é difícil não soltar o riso diante de certas ações do povo local.

O citado “Hereditário” é um filme mais sério se comparado ao dicotômico e inteligente “Midsommar”, dicotômico por ser ao mesmo tempo uma película aterrorizante e, surpreendentemente, bem-humorada, isto é, uma soma que desencadeia o grotesco, que é o perfeito humor provocado por fatores bizarros. Percebe-se que nada é gratuito no filme em análise, e a dicotomia, podemos pensar ainda mais profundamente, se dá justamente pela disposição de personagens da trama: a comicidade retrata a naturalidade daqueles habitantes frente às cenas que para nós são chocantes, mas que para eles existe graça, existe alívio; o horror, ao contrário, se configura como um espanto dos visitantes e do público frente aos mesmos rituais.

Conforme acompanhamos o protagonismo de Dani, uma figura no mínimo muito interessante, observamos a sua metamorfose, do horror ao humor, do espanto à naturalidade, conforme o tempo passa, uma metamorfose dolorida. Ao sair de um ambiente mais comum a si, a sua cidade, em um momento traumático, e se adaptando àquele local novo, exótico, a moça passa por etapas complicadas, mas diferente daquele inverno, ou inferno, inicial, o ciclo das estações, para ela, se acaba em uma primavera, e pegando emprestado aquilo que se definia sobre o teatro grego na Antiguidade, a história termina, para Dani, como um final de uma comédia, o exato oposto se compararmos ao final dos jovens rapazes que a acompanharam na viagem, vítimas do clássico mecanismo de Agatha Christie em “E não sobrou nenhum” (1939).

Pelo o que pôde ser debatido ao longo deste texto, entendemos o quão diferente é o filme analisado se comparado ao debute em longas de Ari Aster, o que mostra que o diretor, além de não se relacionar com fórmulas apelativas do gênero, tão desgastadas ao longo das últimas décadas, está disposto a se renovar e a não se fixar em uma zona de conforto. “Midsommar”, uma homenagem implícita ao clássico “O homem de palha” (1973), dirigido por Robin Hardy, mais do que uma renovação de Aster por se diferenciar bastante do seu primeiro filme e conseguir ser bastante eficiente, mostra que não há necessidade de constituir o seu trabalho em elementos basilares do terror, como o clima noturno e a valorização de sombras, para que possa construir uma atmosfera recheada de tensão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário