terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Análise | Little Joe (2019)

Little Joe - movie

No momento em que sobem os créditos iniciais, visualizamos, em uma grande estufa, incontáveis plantas, uma apresentação precisa, dado que tais seres vivos seriam relacionados, imediatamente, a um dos grandes pilares narrativos de Little Joe (2019), belo longa-metragem dirigido pela austríaca Jessica Hausner. O principal ambiente da película, diga-se de passagem, é um laboratório de biogenética, onde são feitos inúmeros experimentos, experimentos feitos, inclusive, seres vegetais, sendo um desses experimentos uma das grandes apostas de uma empresa para uma importante feira científica.

Alice (Emily Beecham), que viria a ser, ao lado das plantas, a grande figura do filme, é o cérebro da sua equipe na condução de um projeto em que tais seres expeliriam um perfume capaz de fazer o seu dono uma pessoa mais feliz, um projeto que visa, segundo o que dizem, uma sociedade mais leve, um mercado altamente lucrativo e uma revolução no campo das ciências. A engenheira genética, então, conduz com cuidado os passos do experimento valiosíssimo, mas, pouco a pouco, instala uma atmosfera estranha, sobretudo quando o cão de uma das funcionárias, que sempre a acompanha nos dias de trabalho, muda o seu dócil comportamento após ter inalado o perfume das mesmas plantas. A primeira virada da trama se afirma aqui, ainda que antes tenhamos visto que tais criaturinhas haviam matado um conjunto de plantas que dividia a mesma estufa com elas, um elemento também importantíssimo para que relacionemos aquelas pequenas e aparentemente inofensivas plantinhas ao plano do esquisito.

O que também intensifica o nosso estranhamento frente às plantas é uma trilha musical, gradualmente mais presente, de sons esquisitos, sejam batuques agressivos, seja uma flauta com sons inclinados ao misterioso ou uma sobreposição de latidos de cães que chega a ser perturbador. Somado a isso, se encontra o plano-detalhe, enquadramento que, muitas vezes nos trechos em que esse tipo de música é acionado, focaliza as plantas e lhes concede certo protagonismo, afinal, a sensação dada é a de que elas são como aqueles seres alienígenas, à lá John Carpenter, que misteriosamente se instalam no nosso planeta e, silenciosamente, vão dominando o mundo. Isso acontece porque a espécie de planta adaptada geneticamente, de maneira aparente, muda o comportamento de quem inala o seu cheiro, e a mudança se dá como uma espécie de manipulação, é como se a planta, ou o conjunto de plantas, desejasse ganhar certa autonomia sobre aquele que inalou o seu perfume e quisesse coordená-lo a manipular outros para que mais pessoas inalem aquele tão misterioso aroma.

Pouco a pouco, sob o ponto de vista de Alice, o que vemos é uma situação cada vez mais claustrofóbica, é como se todos estivessem sendo manipulados, é como se todos estivessem se voltando contra ela. O espectador, de fato, sente isso, já que estamos, senão o tempo todo, durante boa parte do tempo acompanhando o ponto de vista da personagem. Em um primeiro momento, Alice tem o apoio de outros que sentem que há certa mudança de comportamento sobre aqueles que inalaram o perfume das plantas, sobretudo o apoio da dona do cachorrinho que, misteriosamente, se tornou um animal de outra personalidade, passou a ser um outro ser. O grande número de personagens presentes no filme, da protagonista aos personagens secundários e terciários, acaba acentuando a claustrofobia em questão, e o suspense também, pois a sensação dada é a de que uma grande revelação, ou um grande acontecimento, acontecerá a qualquer instante.

Ficamos tensos a cada vez que um personagem entra na estufa, afinal, as plantas estão inclinadas ao estranho, à monstruosidade. A trilha musical citada acima continua acompanhando-as na solidificação do mistério, um mistério excelente, que cativa. Nota-se que, nesse meio, inteligentes movimentos de câmera são perfeitamente casados com a atmosfera de insegurança. Se o suspense caminha vagarosamente, com bastante delicadeza, não é diferente com os incontáveis travellings da narrativa, importantes, certas vezes, por agonizar o espectador e produzir um isolado jumpscare, mas mais importantes por simbolizar a ideia de que aquele “vírus”, como os próprios funcionários chamam aquilo que é exalado pelo perfume, está se espalhando para todos os cantos do espaço cênico, lembrando que os travellings percorrem os mais diversos cantos dos ambientes onde são acionados. Também muito importante é o zoom in, um tipo de movimentação que está associado a uma aproximação da imagem sobre algo. Se os travellings, então, parecem evidenciar, simbolicamente, a ideia de espalhamento, o zoom in parece evidenciar que aquele “vírus” está se aproximando dos principais personagens que acompanhamos. Tais movimentações são sutis, porém numerosas, e estão longe da gratuidade.

Embora duvidosas, explicações científicas são concedidas pela engenheira genética para que tente esclarecer o que está acontecendo, e é notável que o jargão da ciência esteja muito presente nas falas dos personagens, aspecto muito bem-vindo, diga-se de passagem, pois são elementos ambientadores e  geradores de credibilidade aos donos do discurso, aos cientistas, elementos, portanto, que também estão atrelados à construção dos personagens. Quem aparece, outrossim, como um importante membro da ciência é a assídua psicóloga de Alice, uma personagem capital principalmente por alimentar todo aquele suspense e por nos inclinar a uma outra leitura sobre a obra. Diferentemente de uma leitura mais superficial e, portanto, mais relacionada ao campo do maravilhoso (terminologia que trago da leitura de Todorov), leitura em que passamos a entender que aquelas plantas, de fato, estão tentando conquistar o mundo por meio dos seres humanos, entendemos, ao contrário, justamente pela presença da mesma psicóloga, que tudo aquilo relacionado a mudanças de comportamento não passa da cabeça de Alice, que ou distorce tudo pelas novas escolhas do filho, pelas novidades na vida deste, como ter uma namorada, ou distorce tudo por ser uma workholic, por não ter tempo para perceber que as coisas de um modo geral estão mesmo mudando, mas estão mudando de modo natural.

Dependendo da maneira como Little Joe é encarado, a psicóloga, na conclusão, pode até ser enxergada como uma figura a ser ameaçada por aquelas misteriosas plantas, mas para aqueles que interpretam a película diante de um ponto de vista mais atrelado à psicologia, a epifania é fundamental na construção de Alice, uma personagem, no mínimo, muito curiosa, uma personagem digna para um filme igualmente muito curioso, bem dirigido e criador de grandes expectativas, lembrando que as expectativas são o principal alimento de qualquer trama de suspense. Premiado no Festival de Cannes, o longa-metragem que tem no título o nome das plantas experimentais pode até abrigar um enredo simples, mas a sua composição passeia por camadas mais densas, muitas vezes pouco entendidas pelo público em geral, o que é uma pena se levarmos em conta a qualidade desta fita.

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