Um plano geral e vemos uma ilha composta por rochas nos seus entornos, por um casebre e por um farol, um enorme farol que se destaca. Naquele ambiente isolado, chegam dois sujeitos, um mais velho e um mais novo. São dois faroleiros, sendo o segundo citado um novato que substitui um outro faroleiro que, conforme o que diz o indivíduo mais experiente no ramo, morreu devido à loucura. O mesmo diria mais tarde que o tédio causa a loucura, que o tédio forma, melhor transcrevendo os seus dizeres, vilões.
O silêncio local, apenas com o barulho do mar e das aves aquáticas, soa tranquilo, a calmaria local é admirável, é invejável, mas tal quietude é logo interrompida pelo insólito e pela atmosfera crescentemente infernal. O silêncio, então, em vez de nos cativar pelos fatores bióticos e abióticos, passa a ser nada menos do que perturbador, visto que aquele cenário de leveza é interrompido com certa frequência por diversos fatores, como a trilha musical agonizante, agonizante por se assemelhar a um constante zumbido, que envolve o personagem principal e que envolve, consequentemente, o espectador.
Assim como o recurso musical, o faroleiro mais experiente, Thomas (Willem Dafoe), se torna mais autoritário com o passar do tempo. Ele discursa, quase sempre se dirigindo ao novato, Ephraim (Robert Pattinson), de modo agressivo, e aquele cenário gradualmente parece se configurar como algo cada vez mais assustador. Muito desse autoritarismo passa, sem dúvidas, pelas suas ordens de trabalho. Ele diz ao outro o que deve fazer no dia a dia, mas diz também o que ele não deve fazer. Ephraim não pode subir ao topo do farol, à luz, por algum motivo, e o tempo inteiro é repreendido quando tenta alguma aproximação ao local. O novato chega a ser repreendido com certo nível de violência até, algo que soa instigante, mas muito instigante, para nós espectadores, além de parecer estranho para o rapaz, cada vez mais interessado no que há no alto da torre.
Banhado de curiosidade, Ephraim chega a ver, em um determinado momento, uma espécie de tentáculo gigante que rasteja sobre a plataforma superior do local, momento em que olha para cima enquanto Thomas está fazendo o seu trabalho no turno da noite. Diante de uma visão dessas, estranhíssima, como não se lembrar de Andrzej Zulawski e de Possessão (1981), sua obra mais conhecida? À medida que a curiosidade domina cada vez mais o protagonista, o longa-metragem passa a flertar gradualmente com o fantástico, que é construído nos entornos de um clima de potencial insanidade.
Sonhos estranhos, ou pesadelos, tomam conta das imagens, e da mente de Ephraim. Thomas conta, em um dos muitos diálogos entre ambos os personagens, que o seu antigo parceiro faroleiro morreu pela razão de ter sido dominado pela loucura, como já apontamos. Parece inevitável, então, não ceder ao desequilíbrio naquele ambiente isolado e espacialmente limitado, por isso sentimo-nos ao mesmo tempo assustados e empáticos para com os personagens em questão, por isso os muitos plongées e contraplongées da câmera, enquadramentos inclinados, de cima ou de baixo, que nos fazem pensar que ora os personagens são loucos, coitado deles (plongée), ora pensamos que são legítimas monstruosidades, posto que não conseguimos categorizar as suas ações, insanas, em caixinhas muito bem organizadas, eles são imprevisíveis, moralmente duvidosos, por vezes visualmente sombrios, e isso se torna mais macabro quando é acionado o contraplongée.
Acompanhando essas dualidades da câmera, não podemos nos esquecer do trabalho de iluminação, que entre a luz e a sombra, fator realçado pelo preto e branco da película, nos faz pensar nos conflitos do Outro. A intensa batalha luminosa evidenciada pelo chiaroscuro, que quando captado por simples contraplanos destaca em um breve intervalo de tempo os dois personagens nas trevas e nas luzes, é uma forma perfeita de acolhimento do desequilíbrio, da assombração e do medo por parte da fotografia, seja pelos enquadramentos citados mais acima, seja pela iluminação impecável que mais nos lembra, em certos momentos, da atmosfera de A Hora do Lobo (1968), de Ingmar Bergman.
Dão as caras também as assombrações realizadas por sereias, elementos que ditam a histeria de Ephraim. E enquanto uma tenebrosa tempestade se aproxima depois do mesmo Ephraim ter matado uma gaivota, ação que segundo Thomas traz má sorte pela razão de a ave aquática carregar consigo a alma de um navegante morto, o que parece ter mudado os ventos, vide o plano-detalhe que mostra um cata-vento mudar de direção, observamos a intensificação dos conflitos entre o experiente faroleiro e o novato, a ponto de um clima de descontrole se instalar nos diálogos, mas também nas ações, como na parte em que Thomas corre com um machado, à lá O Iluminado (1980), atrás de Ephraim.
O descontrole é elevado a níveis imensuráveis a ponto de o tempo cronológico se embaralhar com o tempo psicológico: não há mais precisão na passagem do tempo, é simbólico o soco que Ephraim concede a um relógio de parede, e damos razão a ele, visto que o som daquele ponteiro era perturbador. É tão escandaloso o desequilíbrio de ambos os personagens que a residência local se encontra completamente destruída ao final da obra: são muitas as brigas físicas entre ambos, tudo eles destroem, embora o mar tenha a sua parcela de culpa, sendo o mar, podemos interpretar assim, uma parte de Ephraim, é a natureza agressiva respondendo aos seus sentimentos irados, ao seu estado emocional desnorteado. Nesse caso, podemos ligar a destruição do ambiente interno, muito ligada talvez ao emocional do protagonista, àquilo que ocorre em Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, quando Carole (Catherine Deneuve) faz ruir completamente a sua residência.
A loucura do isolamento parece se somar à loucura da bebida, mas será que tudo isso não é originado da loucura patológica? Cada vez mais podemos pensar que aquela ilha rochosa é a mente embaralhada, sombria e desequilibrada de Ephraim, sendo Thomas a sua assombração. Podemos pensar assim até mesmo por Ephraim, mais ao final, dizer que se chama Thomas. Nesse sentido, entendemos que a sua identidade está rachada, embora seja consolidada a ideia de que há somente um personagem só naquele ambiente. Quando tenta enterrar Thomas, Ephraim (ou Thomas) logo depois o desenterra. Se ele está naquele purgatório, talvez um processo terapêutico, quer se livrar de Thomas (ou da loucura, da assombração), só que logo o desenterra, é como se não conseguisse mais viver sem aquilo, é algo que, já há muito, faz parte de si.
Por isso que, na conclusão, quando Ephraim o mata de vez, numa cena que traz resquícios de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, pela maneira como Thomas assusta o novato com o machado, o descontrole se acentua absurdamente. Quando finalmente mata aquela assombração que é Thomas, Ephraim alcança a luz, finalmente vai ao topo do farol e se encontra com a brilhante e intensa luminosidade, mas desaba imediatamente, rolando escada abaixo, e não poderia ser diferente, dado que mata uma parte sua. Ele portanto, seguindo a nossa premissa, volta às sombras, desta vez ao máximo da decadência, ao fundo sombrio de sua mente.
Essa decadência máxima, esse fundo obscuro da sua mente, o carrega à morte. Ephraim, ao matar Thomas, acabou se matando, como William Wilson, em “William Wilson” (1839), conto de Edgar Allan Poe, mata a si mesmo quando esfaqueia o seu doppelgänger. Se inicialmente as gaivotas soavam pacíficas e até mesmo tranquilizadoras pelos seus sons e pelas suas aparências visuais no mínimo simpáticas, desta vez, no desfecho, elas aparecem de modo assustador, desta vez são os pássaros de Hitchcock, embora elas estejam no seu papel natural em meio a um processo de decomposição de um organismo morto, um organismo que, em pouco tempo, será reduzido ao nada.
O silêncio local, apenas com o barulho do mar e das aves aquáticas, soa tranquilo, a calmaria local é admirável, é invejável, mas tal quietude é logo interrompida pelo insólito e pela atmosfera crescentemente infernal. O silêncio, então, em vez de nos cativar pelos fatores bióticos e abióticos, passa a ser nada menos do que perturbador, visto que aquele cenário de leveza é interrompido com certa frequência por diversos fatores, como a trilha musical agonizante, agonizante por se assemelhar a um constante zumbido, que envolve o personagem principal e que envolve, consequentemente, o espectador.
Assim como o recurso musical, o faroleiro mais experiente, Thomas (Willem Dafoe), se torna mais autoritário com o passar do tempo. Ele discursa, quase sempre se dirigindo ao novato, Ephraim (Robert Pattinson), de modo agressivo, e aquele cenário gradualmente parece se configurar como algo cada vez mais assustador. Muito desse autoritarismo passa, sem dúvidas, pelas suas ordens de trabalho. Ele diz ao outro o que deve fazer no dia a dia, mas diz também o que ele não deve fazer. Ephraim não pode subir ao topo do farol, à luz, por algum motivo, e o tempo inteiro é repreendido quando tenta alguma aproximação ao local. O novato chega a ser repreendido com certo nível de violência até, algo que soa instigante, mas muito instigante, para nós espectadores, além de parecer estranho para o rapaz, cada vez mais interessado no que há no alto da torre.
Banhado de curiosidade, Ephraim chega a ver, em um determinado momento, uma espécie de tentáculo gigante que rasteja sobre a plataforma superior do local, momento em que olha para cima enquanto Thomas está fazendo o seu trabalho no turno da noite. Diante de uma visão dessas, estranhíssima, como não se lembrar de Andrzej Zulawski e de Possessão (1981), sua obra mais conhecida? À medida que a curiosidade domina cada vez mais o protagonista, o longa-metragem passa a flertar gradualmente com o fantástico, que é construído nos entornos de um clima de potencial insanidade.
Sonhos estranhos, ou pesadelos, tomam conta das imagens, e da mente de Ephraim. Thomas conta, em um dos muitos diálogos entre ambos os personagens, que o seu antigo parceiro faroleiro morreu pela razão de ter sido dominado pela loucura, como já apontamos. Parece inevitável, então, não ceder ao desequilíbrio naquele ambiente isolado e espacialmente limitado, por isso sentimo-nos ao mesmo tempo assustados e empáticos para com os personagens em questão, por isso os muitos plongées e contraplongées da câmera, enquadramentos inclinados, de cima ou de baixo, que nos fazem pensar que ora os personagens são loucos, coitado deles (plongée), ora pensamos que são legítimas monstruosidades, posto que não conseguimos categorizar as suas ações, insanas, em caixinhas muito bem organizadas, eles são imprevisíveis, moralmente duvidosos, por vezes visualmente sombrios, e isso se torna mais macabro quando é acionado o contraplongée.
Acompanhando essas dualidades da câmera, não podemos nos esquecer do trabalho de iluminação, que entre a luz e a sombra, fator realçado pelo preto e branco da película, nos faz pensar nos conflitos do Outro. A intensa batalha luminosa evidenciada pelo chiaroscuro, que quando captado por simples contraplanos destaca em um breve intervalo de tempo os dois personagens nas trevas e nas luzes, é uma forma perfeita de acolhimento do desequilíbrio, da assombração e do medo por parte da fotografia, seja pelos enquadramentos citados mais acima, seja pela iluminação impecável que mais nos lembra, em certos momentos, da atmosfera de A Hora do Lobo (1968), de Ingmar Bergman.Dão as caras também as assombrações realizadas por sereias, elementos que ditam a histeria de Ephraim. E enquanto uma tenebrosa tempestade se aproxima depois do mesmo Ephraim ter matado uma gaivota, ação que segundo Thomas traz má sorte pela razão de a ave aquática carregar consigo a alma de um navegante morto, o que parece ter mudado os ventos, vide o plano-detalhe que mostra um cata-vento mudar de direção, observamos a intensificação dos conflitos entre o experiente faroleiro e o novato, a ponto de um clima de descontrole se instalar nos diálogos, mas também nas ações, como na parte em que Thomas corre com um machado, à lá O Iluminado (1980), atrás de Ephraim.
O descontrole é elevado a níveis imensuráveis a ponto de o tempo cronológico se embaralhar com o tempo psicológico: não há mais precisão na passagem do tempo, é simbólico o soco que Ephraim concede a um relógio de parede, e damos razão a ele, visto que o som daquele ponteiro era perturbador. É tão escandaloso o desequilíbrio de ambos os personagens que a residência local se encontra completamente destruída ao final da obra: são muitas as brigas físicas entre ambos, tudo eles destroem, embora o mar tenha a sua parcela de culpa, sendo o mar, podemos interpretar assim, uma parte de Ephraim, é a natureza agressiva respondendo aos seus sentimentos irados, ao seu estado emocional desnorteado. Nesse caso, podemos ligar a destruição do ambiente interno, muito ligada talvez ao emocional do protagonista, àquilo que ocorre em Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, quando Carole (Catherine Deneuve) faz ruir completamente a sua residência.
A loucura do isolamento parece se somar à loucura da bebida, mas será que tudo isso não é originado da loucura patológica? Cada vez mais podemos pensar que aquela ilha rochosa é a mente embaralhada, sombria e desequilibrada de Ephraim, sendo Thomas a sua assombração. Podemos pensar assim até mesmo por Ephraim, mais ao final, dizer que se chama Thomas. Nesse sentido, entendemos que a sua identidade está rachada, embora seja consolidada a ideia de que há somente um personagem só naquele ambiente. Quando tenta enterrar Thomas, Ephraim (ou Thomas) logo depois o desenterra. Se ele está naquele purgatório, talvez um processo terapêutico, quer se livrar de Thomas (ou da loucura, da assombração), só que logo o desenterra, é como se não conseguisse mais viver sem aquilo, é algo que, já há muito, faz parte de si.
Por isso que, na conclusão, quando Ephraim o mata de vez, numa cena que traz resquícios de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, pela maneira como Thomas assusta o novato com o machado, o descontrole se acentua absurdamente. Quando finalmente mata aquela assombração que é Thomas, Ephraim alcança a luz, finalmente vai ao topo do farol e se encontra com a brilhante e intensa luminosidade, mas desaba imediatamente, rolando escada abaixo, e não poderia ser diferente, dado que mata uma parte sua. Ele portanto, seguindo a nossa premissa, volta às sombras, desta vez ao máximo da decadência, ao fundo sombrio de sua mente.
Essa decadência máxima, esse fundo obscuro da sua mente, o carrega à morte. Ephraim, ao matar Thomas, acabou se matando, como William Wilson, em “William Wilson” (1839), conto de Edgar Allan Poe, mata a si mesmo quando esfaqueia o seu doppelgänger. Se inicialmente as gaivotas soavam pacíficas e até mesmo tranquilizadoras pelos seus sons e pelas suas aparências visuais no mínimo simpáticas, desta vez, no desfecho, elas aparecem de modo assustador, desta vez são os pássaros de Hitchcock, embora elas estejam no seu papel natural em meio a um processo de decomposição de um organismo morto, um organismo que, em pouco tempo, será reduzido ao nada.

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