O começo de “O despertar” (2011), longa-metragem dirigido por Nick Murphy, é dos mais interessantes. No momento em que ocorre uma sessão espiritual, quando uma senhora tenta se comunicar com a pequena filha morta, sentimos certa tensão pelo cenário criado, pela invocação do espírito, pela iluminação mais apagada, pela música exagerada, mas Florence Cathcart (Rebecca Hall), a futura protagonista, desmascara a farsa do momento, repentinamente mostra que tudo aquilo era uma encenação de um grupo para tirar proveito da mulher que buscava entrar em contato com a filha.
É deveras divertida essa hipérbole inicial que é seguida de uma quebra bem-humorada, como se o longa-metragem em análise fizesse um deboche sobre o terror moderno, um nicho pautado justamente por esse aspecto, pelo exagero. Não apenas isso, mas a película em questão também demonstra, por essa cena, que a ciência prevalece, sendo Florence uma mulher que se dedica a desvendar casos sobrenaturais, provando, pela razão, que eles não existem. Por ela ser uma mulher respeitável na área, autora de um famoso livro, e por carregar um alto nível intelectual, acreditamos nas suas falas, na sua descrença.
Quando, um dia, um sujeito bate na porta da sua casa e a convida para desvendar um mistério que sucede em uma escola para crianças, a narrativa policial parece se mesclar à película, visto que o crime, grosso modo, seria o mistério de uma possível assombração na casa e a personagem em destaque, como veríamos, seria inclinada a uma figura detetivesca. Chama a atenção, no momento em que o professor da instituição conversa com a moça, as fotos mostradas, pelo indivíduo, para Florence, imagens que destacam a aparição de um possível espírito, sendo que retratos, de diferentes anos, são colocados na mesa, e o mesmo borrão, insistentemente, está por lá.
Tudo isso, no entanto, acaba sendo alvo de explicações racionais por parte de Florence, e mesmo quando a personagem chega ao local, uma enorme residência que abriga tantos alunos, que chega a lembrar o casarão de “Os Inocentes” (1961), filme de Jack Clayton, mostra-se segura de que todo aquele mistério será explicado à base de métodos racionais. A “detetive”, então, percorre pelo local, questiona as crianças e instala armadilhas para que possa pegar o farsante que finge estar sendo um fantasma.
Em uma cena noturna, em meio à investigação, quando a fotografia valoriza uma iluminação menos intensa, isto é, quando dá espaço às sombras, lembramo-nos de “Os outros” (2001), de Alejandro Amenábar, pois Florence caminha vagarosamente pelos corredores da instituição com uma espécie de lanterna que reflete a luz nas paredes, deixando o resto da imagem às trevas, o que assusta. A música, aliás, é sutil enquanto um complemento do suspense nos entornos de cenas como essa citada; somente às vezes é que ela estoura e, raramente, em quase duas horas de duração, se inclina ao terror moderno, com as tradicionais partes de susto, mas nada que atrele ou resuma o filme em análise a esse tipo de terror.
A verdade é que boa parte da fita é silenciosa, o que nos faz pensar, por esse ponto, que ela vai, sem dúvidas, na contramão desse terror moderno, e o silêncio, diga-se de passagem, é ótimo para provocar o suspense em certas ocasiões, sendo preciso, também, na construção de uma atmosfera melancólica. O ritmo é um outro fator que nos chama a atenção quanto à ideia de afastar a obra das tendências do terror pós-2000, dado que o recurso é lento e, somente em alguns casos, alcança alguns picos com o objetivo de conceder mais agitação à ação. Fora isso, é uma estratégia fundamental para condensar o mistério, não resumindo o filme a cenas de susto, e valorizar o trabalho detetivesco, dando espaço para pensarmos e refletirmos sobre o fio de história principal e sobre as tramas nos seus entornos.
Nota-se, também, pelo meio do filme, após uma breve investigação, que o caso de um menino morto há três semanas foi resolvido, uma subtrama a menos na obra, um fator trabalhado com inteligência, primeiro, por explicar o caso e por não deixa a fita se embolar com buracos ao final, e, segundo, por mostrar que uma articulação daquele mistério, uma mais simples, foi desmascarada, mas a outra, mais profunda, ainda não. Interessante reparar que a protagonista, a partir desse segundo momento da investigação, parece cada vez mais perturbada, já que as suas perdas do passado, ligadas ao amor e, ainda mais antigamente, aos pais, a assombram; apesar de estar debilitada emocionalmente, não se entrega a explicações atreladas ao sobrenatural.
O problema é que, com o passar do tempo, as coisas parecem pouco a pouco se inclinar a fenômenos sobrenaturais, parece que não há mais espaços para explicações racionais, até que chega o clímax, o momento da revelação sinistra e ao mesmo tempo tocante, e os movimentos paranormais estilhaçam a ciência. O clímax é, de fato, um segmento surpreendente na película, e se lembrarmos que esse é um momento-chave das narrativas policiais, “O despertar” acerta em cheio nesse trecho, ainda mais que relaciona a grande surpresa ao lado fantasmagórico que tanto trabalhou ao longo do desenvolvimento.
Interessante como, às vezes, a película se inclina a tendências contemporâneas do terror, com as tradicionais cenas de susto, por exemplo, mas as utiliza somente como um apoio para a construção do medo, sendo algo pontual, e em outro segmentos se afasta, e muito, dessa mesma tendência. A verdade é que a obra, na maior parte do tempo, vai na contramão do terror moderno, é uma fita de ritmo lento, é uma película silenciosa, mistura o horror ao drama. O medo está concretizado em vários aspectos, como no casarão enquanto um locus horribilis, mas o filme dirigido por Nick Murphy é mais do que um bom terror, pois se configura, também, como uma narrativa policial e a executa com perfeição, carregando o terror, aliás, enquanto uma forma de trazer a virada, de alimentar a investigação e de conceder um final surpreendente, atrelado, ainda, a questões que envolvem o trauma, dando mais complexidade à obra. O longa-metragem analisado aqui, diante de tudo o que vimos, é um espetáculo.
É deveras divertida essa hipérbole inicial que é seguida de uma quebra bem-humorada, como se o longa-metragem em análise fizesse um deboche sobre o terror moderno, um nicho pautado justamente por esse aspecto, pelo exagero. Não apenas isso, mas a película em questão também demonstra, por essa cena, que a ciência prevalece, sendo Florence uma mulher que se dedica a desvendar casos sobrenaturais, provando, pela razão, que eles não existem. Por ela ser uma mulher respeitável na área, autora de um famoso livro, e por carregar um alto nível intelectual, acreditamos nas suas falas, na sua descrença.
Quando, um dia, um sujeito bate na porta da sua casa e a convida para desvendar um mistério que sucede em uma escola para crianças, a narrativa policial parece se mesclar à película, visto que o crime, grosso modo, seria o mistério de uma possível assombração na casa e a personagem em destaque, como veríamos, seria inclinada a uma figura detetivesca. Chama a atenção, no momento em que o professor da instituição conversa com a moça, as fotos mostradas, pelo indivíduo, para Florence, imagens que destacam a aparição de um possível espírito, sendo que retratos, de diferentes anos, são colocados na mesa, e o mesmo borrão, insistentemente, está por lá.
Tudo isso, no entanto, acaba sendo alvo de explicações racionais por parte de Florence, e mesmo quando a personagem chega ao local, uma enorme residência que abriga tantos alunos, que chega a lembrar o casarão de “Os Inocentes” (1961), filme de Jack Clayton, mostra-se segura de que todo aquele mistério será explicado à base de métodos racionais. A “detetive”, então, percorre pelo local, questiona as crianças e instala armadilhas para que possa pegar o farsante que finge estar sendo um fantasma.
Em uma cena noturna, em meio à investigação, quando a fotografia valoriza uma iluminação menos intensa, isto é, quando dá espaço às sombras, lembramo-nos de “Os outros” (2001), de Alejandro Amenábar, pois Florence caminha vagarosamente pelos corredores da instituição com uma espécie de lanterna que reflete a luz nas paredes, deixando o resto da imagem às trevas, o que assusta. A música, aliás, é sutil enquanto um complemento do suspense nos entornos de cenas como essa citada; somente às vezes é que ela estoura e, raramente, em quase duas horas de duração, se inclina ao terror moderno, com as tradicionais partes de susto, mas nada que atrele ou resuma o filme em análise a esse tipo de terror.
A verdade é que boa parte da fita é silenciosa, o que nos faz pensar, por esse ponto, que ela vai, sem dúvidas, na contramão desse terror moderno, e o silêncio, diga-se de passagem, é ótimo para provocar o suspense em certas ocasiões, sendo preciso, também, na construção de uma atmosfera melancólica. O ritmo é um outro fator que nos chama a atenção quanto à ideia de afastar a obra das tendências do terror pós-2000, dado que o recurso é lento e, somente em alguns casos, alcança alguns picos com o objetivo de conceder mais agitação à ação. Fora isso, é uma estratégia fundamental para condensar o mistério, não resumindo o filme a cenas de susto, e valorizar o trabalho detetivesco, dando espaço para pensarmos e refletirmos sobre o fio de história principal e sobre as tramas nos seus entornos.
Nota-se, também, pelo meio do filme, após uma breve investigação, que o caso de um menino morto há três semanas foi resolvido, uma subtrama a menos na obra, um fator trabalhado com inteligência, primeiro, por explicar o caso e por não deixa a fita se embolar com buracos ao final, e, segundo, por mostrar que uma articulação daquele mistério, uma mais simples, foi desmascarada, mas a outra, mais profunda, ainda não. Interessante reparar que a protagonista, a partir desse segundo momento da investigação, parece cada vez mais perturbada, já que as suas perdas do passado, ligadas ao amor e, ainda mais antigamente, aos pais, a assombram; apesar de estar debilitada emocionalmente, não se entrega a explicações atreladas ao sobrenatural.
O problema é que, com o passar do tempo, as coisas parecem pouco a pouco se inclinar a fenômenos sobrenaturais, parece que não há mais espaços para explicações racionais, até que chega o clímax, o momento da revelação sinistra e ao mesmo tempo tocante, e os movimentos paranormais estilhaçam a ciência. O clímax é, de fato, um segmento surpreendente na película, e se lembrarmos que esse é um momento-chave das narrativas policiais, “O despertar” acerta em cheio nesse trecho, ainda mais que relaciona a grande surpresa ao lado fantasmagórico que tanto trabalhou ao longo do desenvolvimento.
Interessante como, às vezes, a película se inclina a tendências contemporâneas do terror, com as tradicionais cenas de susto, por exemplo, mas as utiliza somente como um apoio para a construção do medo, sendo algo pontual, e em outro segmentos se afasta, e muito, dessa mesma tendência. A verdade é que a obra, na maior parte do tempo, vai na contramão do terror moderno, é uma fita de ritmo lento, é uma película silenciosa, mistura o horror ao drama. O medo está concretizado em vários aspectos, como no casarão enquanto um locus horribilis, mas o filme dirigido por Nick Murphy é mais do que um bom terror, pois se configura, também, como uma narrativa policial e a executa com perfeição, carregando o terror, aliás, enquanto uma forma de trazer a virada, de alimentar a investigação e de conceder um final surpreendente, atrelado, ainda, a questões que envolvem o trauma, dando mais complexidade à obra. O longa-metragem analisado aqui, diante de tudo o que vimos, é um espetáculo.

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