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A cena seguinte é pautada pela presença de uma mulher que, em um local escuro, parece sentir prazer, parece estar se masturbando, mas, na verdade, está sendo tocada por um grande tentáculo que se recolhe logo depois de a câmera abrir, com sutileza, o seu ângulo, um estranhamento para nós naquele começo, que já chama a atenção pelos dois aspectos mantidos em suspensão, a rocha espacial e o tentáculo avermelhado, viscoso. Nota-se que a situação seguinte é igualmente instigante, parece ser somada àquela cena em que aparece o tentáculo e a mulher, quando outra personagem, desta vez Alejandra (Ruth Ramos), está deitada na cama, apática, enquanto o seu marido realiza a penetração em si.
O contato sexual, como podemos ver, está em primeiro plano, isso fica estabelecido muito rapidamente, mas a dor seria logo apresentada, quando Verónica (Simone Bucio), aquela mulher que estava junto ao tentáculo na cabana sombria, uma personagem que teria uma importância gigantesca posteriormente, aparece ferida, aparentemente ferida por aquele tentáculo da criatura desconhecida. Isso seria mantido em suspensão, como dissemos, e quando a mesma vai a um hospital local para tratar desse ferimento, ela diz ao enfermeiro, Fabián (Eden Villavicencio), que foi uma mordida por um cachorro, esconde o que de fato ocorreu.
Fabián, irmão de Alejandra, afirmaria a presença sexual enquanto o principal pilar de sustentação da narrativa depois de ser evidenciado que o próprio tem frequentes relações sexuais com o seu cunhado, com Ángel (Jesús Meza), o marido de Alejandra. As vontades reinam, apesar de escondidas, ocultadas, em alguns casos, como ocorre com Verónica e, mais claramente, com Ángel e Fabián, sendo a primeira relação sexual, aquela de Verónica com o tentáculo, um grande mistério, de fato, mas o segundo contato sexual, o da união homoafetiva, pode ser pensado como um tabu e, mais obviamente, pensamos que é ocultado por ser um caso de adultério. Expectativas são criadas para uma possível descoberta de Ale em relação à trama adúltera do seu marido, mas o mistério sobre a criatura é o que mais instiga, chegamos a duvidar da veracidade daquele monstro, se é apenas uma visão da personagem que sentia um enorme prazer naquele momento ou não.
Em um segundo plano, como elemento basilar, que também desloca ligeiramente as expectativas sobre a possível descoberta da traição, algo que é tão clichê nas narrativas em geral, sendo que Escalante não flerta nem um pouco com o estereótipo, está aquilo que o mesmo diretor sempre traz como fundamento dos seus filmes, o problemático meio social vivido pelos seus personagens, semelhante àquilo que vemos em Sangre (2005), em Los Bastardos (2008) e em Heli (2013). Esse tipo de problematização serve praticamente como uma ornamentação, como um cenário, pois não impulsiona tanta dramaticidade na película, por isso comentei sobre estar num segundo plano, é nítido que o mistério sobre a cabana sombria é o vagão-chefe da fita.
O que mais nos interessa aqui, na verdade, são os momentos em que essa cabana isolada aparece, e é curioso notar que Verónica, a única das personagens principais que, inicialmente, conhece o segredo daquele local, daquela criatura, tenta carregar outros indivíduos àquele ambiente insólito. Quando ela finalmente consegue levar Fabián ao local, o sujeito logo aparece machucado, gravemente machucado, o que acaba carregando-o ao coma. A aparição de Fabián, jogado no meio de uma densa mata próxima da mesma cabana, é das mais fortes, ele está entre a palidez de um cadáver e o roxo dos hematomas, uma cena que nos faz temer pelo conteúdo do casebre, sendo que tememos, outrossim, por Verónica, que apesar de ter sido machucada no começo e apesar de parecer ser uma pessoa do bem, mostra-se suspeita de ser cúmplice do perigo.
A dor também toma conta de uma boa parcela do longa-metragem em questão, e não poderia ser diferente, visto que Escalante, desde o seu longa-metragem de estreia, Sangre, já evidenciava a violência, o poder da dor, em diversas camadas das suas narrativas, fator que se mescla com a inclinação das suas figuras à zoomorfização. A brutalidade, porém, começa a ser impressa com mais volume em Los Bastardos, que tem uma finalização chocante, mas é em Heli que o carimbo gráfico é mais bem distribuído. Embora A Região Selvagem não possua grandes passagens violentas, elas estão presentes, casam-se perfeitamente com o plano sexual, trazendo, então, como consequência, dois dos principais instintos animais: a violência e o sexo.
Sangre pode ser lido como uma alegoria à animalização humana, ao reducionismo do ser humano ao animal, vide o extenso foco que se dá no ato sexual voltado a dois personagens, e em A Região Selvagem isso é retomado com força, mas desta vez com base em um suspense, não somente em um drama, como ocorre no primeiro longa-metragem. No segundo filme, takes inúmeros sobre animais e sobre uma densa floresta, sobre a natureza em geral, tomam conta das imagens, imagens essas que remetem proximidade à cabana, é a aproximação volumosa e constante do ser humano ao seu “estado primitivo”, e coloco esse termo entre aspas pela razão de ter sido retirado de uma fala em off de um personagem discreto em um momento marcante da fita.
Durante uma cena em que percebemos essa proximidade espacial do narrador à cabana, enquanto a câmera sutil de Escalante se aproxima da altura da vagina de Alejandra, justamente quando esta finalmente se insere na experiência junto ao misterioso tentáculo, a fala em off de um sujeito direciona a leitura do espectador sobre aquilo que existe dentro do casebre sombrio e isolado, que é simplesmente o nosso lado mais primitivo. No mesmo segmento, curiosamente, animais de diversas espécies, de diversas famílias, cruzam depois de a mesma mulher tomar um líquido para se acalmar. Podemos entender que tudo aquilo não passa de um delírio, podemos entender que o que ela encontra lá dentro, dentro do ambiente misterioso, é projeção da sua mente perturbada, mas isso é destroçado no instante em que nos lembramos do segundo quadro da obra, pois não é apenas Alejandra que vê a criatura sinistra, mas também Verónica e, mais tarde, Ángel.
Nada mais simbólico, aliás, do que aquela cena em que animais estão cruzando em um mesmo terreno, é quase que uma confirmação do filme de que a filosofia escalantiana se pauta, ao menos em Sangre e em A Região Selvagem, na animalização, na zoomorfização, do sujeito, muito como vemos no naturalismo do século XIX. Todo o longa-metragem gira nos entornos do suspense, da criatura misteriosa, e é notável que, quando há o momento em que Alejandra descobre o adultério bizarro do seu marido com o seu próprio irmão, a trama foge do estereótipo e passa a direcionar os atos da personagem de Ruth Ramos àqueles da plena satisfação sexual, dada pelo ser estranho, viscoso, possivelmente uma criatura extraterrestre.
A Região Selvagem é uma linda releitura de Possessão (1981), de Andrzej Zulawski, e é também o grande filme de um dos mais instigantes cineastas da atualidade. Ainda com poucos filmes na carreira, Escalante tem muito a nos mostrar, tem muito a oferecer ao plano cinematográfico, dirige com maestria um filme que mistura um molde naturalista, que pode ser encontrado desde o seu primeiro longa-metragem, com um flerte ao fantástico, um elemento que, com a confirmação do sobrenatural naquela trama, pode nos inclinar diversas leituras acerca da zoomorfização do sujeito.
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