quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Análise | Estrada Perdida (1997)

Lost Highway

Estrada Perdida (1997) é um daqueles filmes de David Lynch que fazem jus àquilo que conhecemos como “lynchiano”, um adjetivo relacionado ao cineasta não pela sua qualidade, mas sim pelo estilo impresso pelo diretor na maioria das suas narrativas. Não vemos a ocorrência disso em O Homem Elefante (1980), por exemplo, um longa-metragem mais moralista, com um tom de fábula até, mas observamos essa ocorrência na primeira fita ressaltada aqui, em Coração Selvagem (1990) e em Cidade dos Sonhos (2001), para citar alguns.

O termo “lynchiano” é atrelado, devemos dizer, a uma atmosfera obscura em que existe uma linha muito tênue entre o que é sonho/delírio e o que é de fato realidade, um fator geralmente impulsionado por problemas que envolvem os principais personagens da trama: no caso de Cidade dos Sonhos, temos a figura de Naomi Watts, e em Estrada Perdida, filme que mais nos interessa neste texto, a dupla Fred-Peter. Essas fronteiras invisíveis entre sonho e realidade constroem, consequentemente, um labirinto nas fitas em questão, uma carga de confusão sombria que, diante das belas direções de Lynch, acaba por nos atrair, atraídos não somente pelas possíveis hipóteses que poderiam explicar os rumos da história, mas também pelo clima, composto à base do plano dos sonhos e, muitas vezes, à base do medo. 

Em Estrada Perdida, finalmente, logo nos créditos iniciais, chama a atenção a frase “Dick Laurent is dead”, que ecoa pela nossa mente diante de um silêncio absoluto, sendo que um clima de mistério é, com poucos segundos, já instalado; o tal do labirinto, portanto, é iniciado aqui, com a evocação dessa frase. Só bem mais tarde, no segundo grande bloco da película, descobriríamos que esse Dick Laurent era uma espécie de mafioso, mas, ainda naquele começo de projeção, ao lado de uma trilha musical sinistra, quando Fred (Bill Pullman), um saxofonista, escuta aquela frase de que o sujeito está morto, frase escutada na saída de som do interfone da sua casa, nada parece fazer sentido. Falando na sua casa, logo mais tarde, Fred e a sua esposa, Renee (Patricia Arquette), receberiam uma fita cassete misteriosa, que tem como conteúdo um take da frente da mesma residência do casal, take idêntico a um que havíamos visto no começo, quando acontecia, ainda, a apresentação do ambiente, algo no mínimo estranho. 

pôster - Estrada Perdida

Parece haver, nisso, uma perseguição contra o casal, e em uma das situações seguintes à visualização da fita, quando o par tenta sexualmente se relacionar, o narrador, de modo estranho, em vez de expor o nu, ou constatar a sensualidade do momento de modo mais direto, utiliza um plano que capta somente as costas de Fred, e quando a moça aparece nua, aparece em câmera lenta, sendo essa relação acompanhada, no seu final, por uma trilha musical incômoda, com o protagonista parecendo frustrado no fim do ato, algo, talvez, atrelado àquela perseguição, que o afeta negativamente. Isso pode ser somado, de imediato, ao pesadelo de Fred, que vê o rosto de uma pessoa pálida e mais velha no lugar da face da sua esposa enquanto ambos estavam deitados, sendo que, logo depois, essa mesma figura seria vista por Fred numa festa, figura que aparentemente é um amigo daquele tal Dick Laurent, como informa um dos personagens, colega de Fred, no mesmo evento festivo.

O bizarro é que, passado um curto intervalo de tempo, aquela fita cassete apareceria na escadaria da casa novamente, não sabemos quem a enviou, e desta vez, no conteúdo, em vez de vermos somente a fachada do ambiente, o câmera entra na residência e filma o casal dormindo, um conteúdo, portanto, que vai muito além daquela primeira fita, desta vez penetrando na intimidade da dupla protagonista, alarmando ainda mais o espectador e, é claro, os personagens ameaçados. A trilha musical, então, acompanhando esse mistério que só se acumula com o passar do tempo, continua presente na obra, sutilmente presente, e com um tom inclinado ao plano do sinistro, trilha esta acompanhada, aliás, por um ritmo mais lento, que domina a narração e deixa tudo muito calmo, com o suspense, com o mistério, se instalando vagarosamente, o que deixa o seu público ainda mais apreensivo, dado que este clama por respostas, mínimas que sejam, mas estas, em vez de serem pouco a pouco expostas, são ocultadas, é o mistério que se acumula. 

Tudo é completamente transformado quando Fred, depois de visualizar o conteúdo da terceira fita ameaçadora que recebe, vê a si mesmo nas imagens e, com isso, vê a sua esposa morta, ao seu lado, ensanguentada. Esse momento é sucedido, rapidamente, de uma acusação contra Fred, com o detetive chamando-o de assassino e levando-o preso de imediato. Na prisão, sem dormir, destruído, o mesmo personagem pensa no ocorrido e vê flashes, talvez delírios: em uma situação, vê uma casa incendiada sendo rebobinada para antes do incêndio e lá, nesse exato casebre, vê aquela figura misteriosa que havia enxergado no rosto de Renee, a mesma figura macabra com quem teve contato na festa, como indicamos mais acima. 

A grande virada, então, ocorre quando os policiais, ao chegarem na cela de Fred, veem uma outra pessoa naquele exato local, não mais Fred, mas um sujeito chamado Peter (Balthazar Getty). São mais mistérios sendo formados, aqui as coisas parecem escapar de vez, e a confusão sombria domina a trama, talvez sejam alucinações de Fred, talvez sejam recordações suas – Fred mais jovem seria Peter se pensarmos por esse lado –, não sabemos exatamente o que pode ser. O primeiro grande bloco, aquele de Fred, dá lugar ao segundo bloco, que é protagonizado por Peter. Alguns dos fatores que mais chamam a atenção nesse segundo pedaço são as semelhanças que ele possui com o primeiro, por isso, quiçá, a ideia de que tudo aquilo tem a ver com Fred. 

Alice (também interpretada por Patricia Arquette), por exemplo, parece ser Renee, só que, em vez de ruiva, está loira. Em outro caso, podemos destacar que Peter, assim como Fred, passa a ser perseguido, além do fato de que, de alguma forma, ambos possuem o contato, em maior ou menor grau, com o tal de Dick Laurent. São aspectos como esses, portanto, que constroem, por mínima que seja, certa ligação entre os dois trechos. Nota-se que Peter é apaixonado por Alice, mas esta “pertence” a Dick Laurent, que, no final das contas, se volta contra aquele ao descobrir as relações adúlteras entre ambos. Se Alice parece ser o desejo amoroso de Peter, Fred a tem (ou a teria), e se Laurent passa a ser o grande perseguidor para Peter, uma assombração na sua vida, Dick Laurent, para Fred, está morto, Dick Laurent is dead. Parece, sob esse prisma, que ou Dick está morto de fato e Alice, ou Renee, virou a esposa de Peter-Fred no futuro, ou que o primeiro bloco, de um modo geral, é o desejo de Peter, visto que Fred tem exatamente aquilo que o jovem rapaz quer. 

Arrisco algumas hipóteses aqui, mas sempre lembrando que a grande intenção do texto é a de fazer com que o leitor entenda que o longa-metragem analisado é um labirinto, em que o suspense, atraente por todo o clima macabro, só se acumula, em que as respostas não chegam, não há um direcionamento a ser seguido, não é por menos que, de maneira genial, a figura dos detetives, que passam a perseguir Peter no segundo bloco do filme, não dizem muita coisa, não passam de simples alívios cômicos. As respostas são esperadas, mas não são entregues em instante algum, é o espectador que precisa construir o seu trajeto de entendimento, um estilo que seria repetido por Lynch, de forma ainda mais aguda, em Cidade dos Sonhos, outra película do diretor que pode ser assemelhada àquele termo marcante, o termo “lynchiano”.

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