sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Análise | Werewolf by Night (01): Taboo

Werewolf by Night - 2020


“Durante o dia ele aparece na sua forma humana, mas quando o sol se põe e a escuridão chega, ele se torna um... Lobisomem”. Essa é a chamada, traduzida por mim mesmo, de “Werewolf by Night”, título inédito no Brasil, recém-lançado nos Estados Unidos, lançado neste mês de outubro, que traz em sua equipe criativa os roteiros de Taboo, além das ilustrações de Benjamin Jackendoff. “Werewolf by Night”, diga-se de passagem, não é um título de hoje, mas uma publicação consideravelmente antiga da própria Marvel, lançada nos longínquos anos 1970, quando esse mesmo título durou consideráveis cinco anos, sendo retomado mais tarde nos anos 1990 e, agora, no segundo semestre de 2020.

Como a palavra “Werewolf” nos indica, o título acolhe consigo o protagonismo de uma figura clássica das narrativas de medo, o Lobisomem, uma monstruosidade presente, com relevância, no comecinho dos anos 1940, no clássico longa-metragem da Universal, “The Wolf Man” (1941), que estrela Lon Chaney Jr., mas presente, também, nos quadrinhos anos depois, nos quadrinhos da “Creepy”, lançados pela Warren Publishing. Na primeira edição da “Creepy”, por exemplo, encontramos um conto chamado “Lobisomem”, que conta a história de uma criatura misteriosa e bestial, que toma conta do antagonismo, e de um caçador, reconhecido pelos seus trabalhos, contratado para dar um fim na fera. 

Nota-se que, diante da nossa introdução, diante da sinopse brevemente apresentada sobre o conto publicado na “Creepy”, podemos chegar à conclusão de que as narrativas de medo que acolhem a figura do Lobisomem geralmente buscam um traço mais sombrio na hora de valorizar o seu monstro, assim como ocorre, curiosamente, na “Werewolf by Night” dos anos 1970, da Marvel, embora esta, ainda assim, traga um tom menos violento e menos assustador, mais dedicado ao drama horrendo da transformação, por exemplo, do que o da narrativa da “Creepy”, completamente dedicada ao terror. Diferentemente do que ocorre nesses números, no entanto, a primeira edição de “Werewolf by Night”, de 2020, a obra que mais nos interessa aqui, busca uma estilística impressa de maneira mais branda, como veremos doravante.

Em primeiro lugar, observamos, na história, logo nas suas primeiras páginas, um grupo de caçadores que invade um território reservado, de uma tribo, para se divertir com a caça de certos animais, como coelhos. Em seguida, chega uma moça, uma moça atrevida chamada Molly, que os encara e os alerta sobre invadirem propriedade alheia, além de avisá-los sobre a presença de uma monstruosidade (ela na ocasião brinca com a ideia de Chupacabra) na região, monstruosidade que apareceria de imediato, logo em seguida, monstruosidade esta que não é o Chupacabra, mas justamente a estrela do quadrinho, o Lobisomem.

Werewolf by Night (2020)
O visual do Homem-Lobo chama a atenção de imediato, é uma figura grande, forte, que está localizada, no campo de visão, logo abaixo de uma lua cheia bastante destacada, um monstro enfatizado, ainda, pelos seus olhos avermelhados, pelas garras imensas da sua mão e dos seus pés, que também são grandes. O clima noturno só deixa tudo ainda mais bem ornamentado, e embora a visualização do lobisomem não seja tão aterrorizante quanto aquelas indicadas anteriormente, no parágrafo antecessor, há certa impressão do terror na composição do personagem em destaque, é um fator bem-vindo. O Lobisomem, é bom dizer, expulsa os invasores daquela propriedade à base de pancadaria.

Nota-se que, quanto à afirmação de um estilo mais brando, numa narração mais íntima, somos aproximados de Jake, aquele que, quando não está sendo banhado pela noite, é a figura humana, o hospedeiro, digamos assim, do lobisomem. Essa aproximação mais íntima é dada pelos retângulos de narração da obra, recurso mais reservado onde é comentado, pelo próprio protagonista, o dono da voz, alguns aspectos antigos e atuais da sua vida, como a sua primeira transformação, nos seus prematuros treze anos de idade, e como a não necessidade de uma Lua cheia para que haja a sua monstruosa metamorfose corporal, algo que, mais ou menos, faz justiça àquilo que está escrito na chamada do quadrinho em análise. Deve-se acrescentar, ainda, que as transformações de Jake são pautadas pelas suas emoções mais fortes, como raiva, tristeza, entre outras, informação que só seria concedida pela narrativa mais tarde. 

Jake, durante o dia, consegue socializar com as pessoas, com a sua namorada Molly, por exemplo, e com a sua avó. O nosso lobisomem, assim como aqueles de outras tramas, é um ser humano controlado durante as manhãs, mas há um grande diferencial entre ele e os outros Homens-Lobo nas cenas noturnas. Se a maioria destes torna-se descontrolada com o advento da Lua cheia, Jake é muito diferente nisso, ele não é um lobisomem que ataca qualquer um, ele não é uma assombração para todos, mas, pelo contrário, ele utiliza o seu poder com sabedoria, com certo controle, ele utiliza a sua forma mais poderosa como uma maneira de operar contra o mal e contra os mistérios locais, do Arizona, onde vive.

Percebe-se, então, uma trama mais voltada ao plano do heroico, não ao plano do terror, como comumente observamos quando está no protagonismo quaisquer figuras, em quaisquer mídias, que envolvam o mito do Lobisomem. Mesmo assim, há uma pegada misteriosa na revista em questão, em que experimentos bizarros e obscuros, nada muito bem exposto ainda no capítulo-debute, estão sendo feitos sob a supervisão de uma grande empresa, experimentos que envolvem um personagem desconhecido, chamado Pathmind, um indivíduo esquisito que tem o seu cérebro conectado a diversos aparelhos em pleno funcionamento e que parecer ter o desejo de assumir qualquer instituição governamental: “When I'm done I'll be able to use my neural network to take over any government.”, diz ele.

O primeiro episódio de “Werewolf by Night”, diga-se de passagem, é bastante morno. Embora a trama nos apresente o lobo-herói nas suas operações, por exemplo, assim como nos informa sobre o seu controle e sobre o seu descontrole, dependendo do caso, as vinte e seis páginas são resumidas à pouca dinâmica, não há muita dedicação à sua principal estrela, seja num plano de suspense, seja num plano mais enérgico quando envolve jogos de ação, estes geralmente impressos de maneira apressada e pouco proveitosa no capítulo de estreia. Nesse episódio mais expositivo do qualquer outra coisa, aliás, é mais apresentado para o leitor o meio familiar do protagonista e o emprego deste, que o insere naquele citado mistério envolvendo aquela empresa que ressaltamos, do que o seu lado mais heroico e mais tenebroso, lembrando que a edição em questão é ligeiramente mais extensa, em número de páginas, do que é uma issue comum. 

Werewolf - Frank Frazetta
O lobisomem de Frank Frazetta

É importante destacar, outrossim, uma diferenciação de traços entre os desenhos de “Werewolf by Night” e os desenhos da “Creepy”, ilustrado em “Lobisomem”, pelo genial Frank Frazetta (ver a imagem ao lado). Ao passo que o estilo de ilustração deste último, apoiado logicamente na coloração em preto e branco, valoriza as sombras e compõe um monstro mais brutal, um monstro até mesmo mais distante do narrador em termos de enquadramento, um monstro cortado por cenários e por personagens mais reais, digamos assim, os traços de Benjamin Jackendoff, para o quadrinho da Marvel que analisamos aqui, são bem diferentes, são mais voltados ao plano do cartoon, são mais animados, menos realistas, o que não quer dizer, claro, que o mesmo não consiga acionar certos feixes de terror, como comentamos mais acima sobre a splash page em que o Lobisomem está localizado logo abaixo da Lua cheia.


Diante de tudo o que comentamos acerca da edição de estreia de “Werewolf by Night”, podemos perceber que o quadrinho, como já era previsto, foge de uma estilística que pende ao horror, visto que a maior parte das publicações da Marvel prezam um lado mais comercial, que precisa passar, quase que necessariamente, por um estilo voltado a todos os públicos. Vimos que diversos recursos descentralizam o terror na figura do lobisomem, que é geralmente atrelada ao medo, a exemplo do que comentamos sobre a narração intimista do personagem-título, a exemplo da exposição do dia a dia do protagonista em sua forma humana, dos traços de Benjamin Jackendoff, mais voltados ao cartoon, entre outros fatores. O grande motivo para que a edição-debute da série seja tão morna não está atrelado ao câmbio estilístico ligado ao Homem-Lobo, mas sim àquilo que destacamos sobre a ausência de uma dinâmica mais bem acabada nas vinte e seis páginas mais ou menos arrastadas da revista em questão.

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