domingo, 19 de setembro de 2021

Análise | O Perfume do Invisível (1986)

Il Profumo dell'Invisibile


O Perfume do Invisível (1986), do famoso quadrinista italiano Milo Manara, toma como principal base de inspiração o reconhecido romance de H.G. Wells, O Homem Invisível (1897), embora essa inspiração seja veiculada somente de maneira implícita na história em quadrinho, não havendo, portanto, referenciações tão claras e tão diretas à obra de 1897. O livro de Wells reverberou em diversas mídias ao longo dos anos, inclusive no cinema, com a famosa adaptação homônima, dirigida por James Whale e lançada em 1933, sendo o mais interessante de tudo, nessas adaptações mais diretas ou mais indiretas, perceber como o aspecto da invisibilidade é trabalhado de modo único em cada uma delas. Se outrora, na literatura e no cinema, tal fator foi capaz de conferir o medo, ele foi capaz de conferir predominantemente o humor na história em quadrinhos de Manara.

Acompanhamos, na trama da obra italiana, uma mulher chamada Mel se deparar, e se assustar também, com a fisionomia um tanto estranha de um indivíduo que, ao criar uma espécie de pomada que o permite ficar invisível, estava posicionado no quarto de sua amada, Beatrice, conhecida de Mel, para daquele cômodo, estando invisível, observá-la nos seus movimentos mais íntimos. Embora o mesmo, como pode ser compreendido, se configure como um legítimo voyeur, o homem invisível, pelas suas declarações, mostra-se puro e casto, diz que não tinha quaisquer intenções de visualizá-la nua ou algo do gênero, diz ainda, para purificar ainda mais a sua imagem, que nunca havia tido relações do tipo sexual com nenhuma mulher, muito por conta, talvez, do seu amor gigantesco depositado exclusivamente em Beatrice, um amor platônico, diga-se de passagem. 

A primeira página do quadrinho em questão já prende a atenção do público. Na ocasião, Mel leva um enorme susto ao se deparar com aquele sujeito que não reconhece e que está no quarto da sua colega de trabalho, um sujeito que, curiosamente, ainda está parcialmente invisível, está terminando ainda de passar a pomada pelo seu corpo, uma imagem que acentua o susto da moça e que, imediatamente, causa certo estranhamento em nós, espectadores. O erotismo, então, bastante comum nos quadrinhos de Manara e um dos pilares de sustentação d’O Perfume do Invisível, passa a ser desencadeado rapidamente no interior da narrativa, a partir do momento em que a mesma Mel descobre que o homem, embora invisível, se encontra nu. Mel, nesse exato instante, não deixa de mais uma vez se surpreender, só que desta vez destaca o pênis ereto daquele indivíduo. Este, consequentemente, se envergonha da situação, e tenta reforçar a sua afirmativa de que é casto, de que é virgem, de que é puro, mas é curioso observar como o mesmo se encontra, ao longo da trama inteira, com o seu pênis sempre ereto, o que soa contraditório e, em certos casos, sedimenta inclusive a comicidade - o happy end, a propósito, seria bizarramente conferido graças ao órgão genital ereto do homem invisível. Parece estranho, aliás, o fato de o mesmo discursar diversas vezes sobre a sua pureza, mas, ao mesmo tempo, buscar ficar invisível para bisbilhotar Beatrice e estar sempre com o pênis para o alto. 

Milo Manara - Profumo
O humor começa a ser consolidado a partir do instante em que Mel entende que aquilo tudo é um sonho, dado o absurdo da situação, e, com isso, passa a brincar com o pênis ereto daquele homem parcialmente invisível, que se sente envergonhado e até mesmo desesperado com a situação, já que parece entender que está traindo o amor de Beatrice. O humor e o erotismo, portanto, andam lado a lado, e logo depois, quando Mel vai até Beatrice contar sobre o seu suposto sonho, esta, na sua sala de ensaio de danças, está arriando a sua calça para poder refrescar as suas regiões mais íntimas em frente a um ventilador, uma ação que soa, naquele instante, simplesmente deslocada, apelativa demais por parte da narrativa, que parece querer, a qualquer custo, explicitar a nudez dos seus personagens, um tipo de movimentação que seria repetido mais vezes, inclusive, ao longo da trama. 

Os conflitos, no interior da narrativa, ganham em intensidade a partir do instante em que o mesmo homem invisível passa a agredir Mel, conflitos que, diga-se de passagem, tem a ver com a esfera da nudez proposta por Manara. Quando a moça afirma, por exemplo, que Beatrice é uma pessoa ruim, relacionando-a, aliás, à figura de um demônio, não a de um anjo, como costuma pensar o indivíduo que está apaixonado por ela, o personagem revestido pela pomada da invisibilidade espanca a mulher impiedosamente, deixando-a nua na situação. Além de depositarmos um pouco mais de complexidade nos entornos desse sujeito um tanto descontrolado, notamos que quase tudo está associado ao erotismo; as ações mais conflituosas, mais dramáticas, digamos assim, estão associadas a esse fator, assim como a esfera do humor. 

Fora o que já foi comentado aqui neste texto, é divertido o fato de Mel ser dada por muitos como louca diante da sua afirmação insistente de que existe um homem invisível à solta. Do início ao fim, desde quando diz que havia sonhado com aquele homem, a mesma é vinculada à loucura, ao delírio. Muito além dos seus dizeres, porém, a personagem principal passa por situações realmente embaraçosas, e divertidas, junto ao homem revestido de invisibilidade. Quando, por exemplo, ela quer provar a algumas pessoas que o homem invisível está presente em um determinado ambiente, começa a acariciar o pênis do sujeito para desmascará-lo, só que, como ninguém consegue enxergá-lo, somente ela, a personagem passa por grandes embaraços e passa a ser cada vez mais associada ao desequilíbrio. Para nós leitores, que estamos sob o ângulo de visão da protagonista, existe a possibilidade de lermos a situação como uma verdade, de que realmente existe o homem invisível, ou como uma fantasia inventada pela mesma. 

Conforme os personagens secundários, então, associam-na à loucura, nos divertimos com as diferentes situações provocadas pela dupla, por Mel e pelo homem invisível, visto que visualizamos as reações de tais figuras frente às ações aparentemente bizarras da própria Mel, que masturba um pênis invisível, como citamos anteriormente, ou que parece entrar em um estado de processo orgástico veiculado por um sexo oral realizado por um sujeito invisível. Além das aberturas à dimensão do fantástico e do humor, que o tempo inteiro estão atreladas à sensualidade impressa no interior da narração, observamos outros elementos interessantes no bom quadrinho de Milo Manara. Um deles, por exemplo, é a complexidade conferida a alguns dos personagens. Se o homem invisível se torna mais ou menos complexo devido às declarações castas, que vão de encontro ao constante estado ereto do seu pênis, existe uma outra figura, uma figura estranhíssima, que engrandece a esfera de estudo de personagem. Essa figura é um indivíduo que está sempre isolado em um sótão e que não pronuncia uma palavra sequer há muitos anos. Esse rapaz, que mais parece um bebê gigante, parece ser inofensivo, mas é curioso notar que, quando se apodera acidentalmente da pomada da invisibilidade do homem invisível, estupra Mel sem piedade em uma ocasião. 

Il profumo dell'invisibile
Outro ponto um tanto interessante está vinculado ao momento pós-decepção do homem invisível, instante em que tem certeza de que Beatrice é uma pessoa ruim, cruel, como havia antecipado a heroína, Mel. A partir desse momento, em um instante de revolta, o personagem em questão, de modo bizarro, começa a baixar as calcinhas de todas as mulheres que encontra na rua, de uma simples transeunte a uma guarda de trânsito. De maneira exagerada e por isso engraçada, o sujeito invisível, enquanto realiza um sexo oral em Mel (é isso mesmo!), diz: “... A buceta... A buceta... A buceta... Já não acredito em mais nada, ou quase... Mmmh... Só a buceta existe, só ela dá finalidade à nossa vida... Ela assegura a nossa imortalidade!...” (MANARA, 2011, p. 52). 

Essa ação de enorme desequilíbrio do homem invisível complexifica ainda mais o personagem relativamente estranho e instigante de O Perfume do Invisível, um belo trabalho de Milo Manara, exceto nos momentos em que veicula certo grau de apelação quanto ao plano da nudez e ao plano do erotismo. Ainda sobre essa ação do sujeito descontrolado, ação que se encontra na altura do clímax da obra, difícil não a associarmos a ao machismo constante e desenfreado que está enraizado na humanidade como um todo. Seria ingênuo da nossa parte afirmar que a nudez encontrada em O Perfume do Invisível é puramente crítica ou dolorosa, pois não é assim que as coisas são ditadas, mas é impossível não entender, por outro lado, que as mulheres sofrem nas mãos dos homens, de diferentes homens, não é por menos que, ao longo da trama, em primeiro planos, vemos Mel ser alvo de atitudes repugnantes e brutais de dois homens diferentes - no segundo volume de O Perfume do Invisível, lançado anos mais tarde, veríamos um movimento parecido constar nos entornos da figura principal. O quadrinho de Manara é divertidíssimo, claro, o seu principal objetivo é produzir a comicidade diante da esfera da nudez, mas não deixar de conter pitadas sutis de seriedade e até mesmo um tom implicitamente crítico.

Referências:

MANARA, Milo. O Perfume do Invisível. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2011.

O Homem Invisível. Dir. James Whale. Estados Unidos: Universal Studios et al, 1933.

WELLS, H. G. O Homem Invisível. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

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