quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Análise | Bug (2006)

Bug - movie



O cinema do genial William Friedkin é geralmente marcado por uma atmosfera de estresse que se instala no interior das suas películas. Talvez os seus grandes expoentes sejam mesmo algumas das cenas mais famosas do brilhante “O Exorcista” (1973). Nesse exato caso, Friedkin explorou o insólito, o medo e a violência gráfica para conferir a atmosfera de estresse indicada, quando visualizamos uma menininha ser gradualmente tomada pela possessão de um demônio, uma possessão que solidifica, dentro da residência daquela menina, um verdadeiro caos. A atmosfera estressante, no caso, pouco a pouco é intensificada e perde completamente o seu controle, a ponto de ocorrer mortes e de ser solidificado um alto nível de destruição no principal ambiente da trama.

Em “Bug” (2006), uma das fitas mais subestimadas do diretor, observamos Friedkin coordenar muito bem uma iniciação estressante quando Agnes (Ashley Judd) passa a receber insistentes ligações do seu ex-namorado, um sujeito violento, Jerry (Harry Connick Jr.), que continua perseguindo-a mesmo depois de o relacionamento ter acabado e mesmo depois de Agnes ter solicitado, para as autoridades, o distanciamento físico do sujeito. A moça, na situação, mostra-se irritada com as insistentes ligações, e é interessante notar o modo como o toque do telefone é sempre alçado a altos volumes enquanto é constantemente acionado. Além disso, o discurso da mulher soa cada vez mais ameaçador, ela ameaça ligar à polícia quando atende o telefone, por exemplo, e o seu tom de voz, na ocasião, é dos mais elevados. 

Ainda na iniciação do longa-metragem em questão, precisamos destacar o fato de o narrador enquadrar a situação estressante com ângulos holandeses, com planos, de um modo geral, mais tortos, além de zooms bruscos e do trabalho de câmera tremida. Todos esses elementos, no caso, convergem para a criação de um clima ainda mais instável, sempre com Agnes no centro da nevrose. A iniciação da obra, a propósito, é quente em dois sentidos: quente pelo estresse constatado, mas quente, também, pela temperatura local, de um ambiente aparentemente situado no sudoeste dos Estados Unidos, não é à toa que, nos primeiros instantes, a mesma Agnes busca se refrescar em frente a um ar-condicionado. 

Após as ligações darem uma pequena trégua, os discursos dos personagens seriam mais bem acalmados, momento em que Agnes, aliás, conheceria Peter (Michael Shannon). O problema é que, logo depois, além de a mesma Agnes passar a ser fisicamente acossada e agredida pelo seu ex-namorado, Peter é revelado como um sujeito que também possui os seus fantasmas ligados ao passado. Ele afirma, em uma determinada altura da trama, que sofre com uma espécie de perseguição por parte das forças armadas depois de ter fugido de um local onde ele mesmo servia de cobaia para experimentos. Pouco a pouco, então, o longa-metragem é tomado por uma nevrose simplesmente descontrolada, semelhante àquilo que havia sido instalado em “O Exorcista” e àquilo que seria instalado anos mais tarde em “Killer Joe” (2011). 

Impulsionados sobretudo pelas drogas, os fantasmas de ambos os personagens os carregam a um cenário de pura paranoia, quando Agnes e Peter acreditam que estão infestados de pequenos insetos. O estresse de ambos, inclusive, passa a ser ecoado fisicamente no quarto de motel onde vive Agnes à medida que camadas de papel-alumínio são espalhadas pelo ambiente para tapar as ações dos pequenos animais. Em determinada altura, é curioso notar que a maquiagem ressalta as feridas em alto relevo daqueles indivíduos, desencadeadas pelas suas coceiras constantes. Peter, em uma cena específica posterior, chega a arrancar sem piedade os seus dentes, sujando-se de sangue e, mais importante do que isso, uivando de dor na ocasião, tudo isso porque entende que os pequenos parasitas estão localizados justamente nos seus dentes, e que foram colocados lá pelas forças armadas. A degradação física da dupla de personagens é gradual e impactante. 

A nevrose da loucura é pontualmente alçada a níveis significativos de brutalidade, como ocorre no momento em que Peter arranca os seus dentes, mas não podemos deixar de destacar o momento em que o mesmo começa a se debater por estar perturbado pelas coceiras e, na mesma situação, passa a reagir de modo convulsivo enquanto está deitado numa cama, como se de fato estivesse possuído por um espírito sobrenatural maligno. O páthos, aliás, está cada vez mais presente com o passar da projeção: há um assassinato, um suicídio e, além disso, há uma cena que sintetiza bem o sofrimento paranoico carregado por ambos os personagens, quando Agnes levanta as mãos para os céus e começa a gritar, após teorizar tanto sobre aqueles parasitas, que é a verdadeira mãe-inseto. 

O clima de estresse é crescentemente acentuado a ponto de conferir uma atmosfera plenamente melancólica. É verdade que há a aparição de um personagem que diz que Michael possui esquizofrenia, o que intensifica o nosso sentimento de pena sobre os personagens protagonistas, um doente, e uma outra fragilizada que embarcou na loucura do companheiro, mas é notável também o símbolo evidenciado pela predominante e depressiva coloração azul que se instala no quarto do motel onde a dupla está. Embora não estejamos falando de fenômenos sobrenaturais, os fantasmas estão muito presentes na fita em questão e eles têm uma importância dramática capital. “Bug” é tocante, é impressionante, uma pena que seja um drama tão subestimado e mal lido de um modo geral pelo público.

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