sábado, 16 de fevereiro de 2019

Especial | O sujeito refletido em dois contos de Edgar Allan Poe

William Wilson, Edgar Allan Poe

O homem, em suas mais diferentes acepções históricas, foi sempre dotado de um conjunto de ideias e valores próprios que o permeiam em seu diálogo com o meio e os demais indivíduos que o cercam. Na sociedade moderna o processo não é diferente, ocorre, no entanto, que como advento da evolução ocorrida no século XIX, o ser humano ganhou novos artifícios para que se sentisse único, fixando, desse modo, um homem social, mas que pensasse o mundo através de uma individualidade inerente a ele.

A sociedade do século XIX é marcada por uma acelerada evolução científica, industrial e social. Podemos tomar como exemplos a invenção do automóvel, a ascensão científica através da evolução da medicina e o surgimento do cinema. O avanço dessa tecnologia, portanto, fez com que o individualismo do homem crescesse e o tornasse cada vez mais diferente e indiferente ao outro. Por essa razão é importante refletir acerca da representação do homem na modernidade, bem como fazer alusões às consequências desse avanço para os séculos seguintes.

Quando falamos em avanço tecnológico e científico, também abordamos um avanço significativo nos modos de produção da arte. Logo, é importante perceber que a obra de arte para os modernos tornou-se autônoma e ligada ao seu contexto histórico, uma vez que o homem está mais singularizado e pessoal no modo de conceber sua realidade. Um bom exemplo é a percepção da captação do sujeito diante da sua sociedade às lentes do cinema. Em um dos curtas-metragens inaugurais dos irmãos Lumière, é possível perceber o cotidiano da classe operária saindo de uma fábrica, onde cada homem se torna uma peça para a máquina social, como também poderemos ver em “A Greve” (1925), de Sergei Eisenstein, ou em “Tempos Modernos” (1936), de Charles Chaplin.

Deste modo, como já apontava Baudelaire, o homem deixa de perceber a intensidade da vida moderna nas grandes metrópoles por ser ao mesmo tempo intensa e fugaz e acaba fazendo parte de um processo automatizado. Em outro trabalho dos irmãos Lumière, “A Chegada do Trem na Estação” (1895), podemos observar a chegada de um trem que nos traz a reflexão não apenas do cotidiano do homem moderno, como também nos aponta como o próprio trem já havia se tornado um dos meios de transportes mais presentes nessa sociedade, reforçando a ideia de Baudelaire.

O que apontamos, portanto, é que com a aceleração da tecnologia e os avanços da sociedade como um globo fecundo, o homem tornou-se mais individualista e mais impessoal. Por assim ser, essa impessoalidade se evidencia nas análises acerca do sujeito social durante o século XIX, opondo-se a uma visão do homem de completude e de idealização plena. A arte, como detentora de poderes simbólicos, potencializa as percepções e representações do homem nesse período, e a reflexão entre sujeito e sociedade pode ser percebida, também, nas obras literárias desse século. Edgar Allan Poe, por exemplo, é um dos destaques dentro da Literatura em que podemos identificar tais aspectos. 

Teórico e escritor, principalmente de contos, Poe nasceu nos Estados Unidos, no início do século XIX, próximo da época em que um boom de avanços nas mais diversas áreas aconteceria. Entre as publicações mais conhecidas de Poe estão o poema “O Corvo” (1845) e o conto “O Gato Preto” (1843). Apesar de esses dois textos serem os mais conhecidos, muitos outros se destacam, principalmente, no que se refere a sua contística. Dentre o acervo de narrativas curtas do autor, destacamos para esta análise “O Homem das Multidões” (1840) e “William Wilson” (1839).

O universalismo presente nos dois contos de Edgar Allan Poe pode ser interpretado através da intransitividade do sujeito, isto é, o homem se torna um ser singular e não transitivo, no sentido lato da palavra. Além desse tipo de reflexão, Poe ainda expõe o lado sombrio do homem quando se depara com o outro e consigo. O arranjo dessas temáticas pode ser associado à inserção e representação do papel social do homem no cotidiano, uma vez que ao se deparar com suas projeções, o homem sai do automatismo do ser e reflete sobre si.

O “O Homem das Multidões” conta a história de um sujeito que observa outros na multidão de Londres, se projetando entre eles ao mesmo tempo em que era projetado. Contudo, o que se percebe é que um homem em específico o chama a atenção. Com isso, o narrador se desloca do seu lugar comum, o que nos leva a refletir sobre a posição desse sujeito na modernidade, e ao perseguir o curioso homem, nosso narrador percebe a singularidade de cada indivíduo, o que nos leva a refletir sobre a sua própria personalidade. É relevante, porém, lembrar que o conto se passa na cidade de Londres, a cidade mais populosa do mundo em meados do século XIX.

Em contraponto, temos em “William Wilson” uma abordagem sobre o mergulho do homem no martírio do ser humano. Essa introspecção ocorre devido ao encontro de William com um garoto que, além de ter o mesmo nome que o seu, é dono de diversos traços semelhantes aos seus. Entre as mais peculiares, podemos destacar, por exemplo, o seu jeito de agir. O que permeia o conto é uma atmosfera pesada, criada a partir dessa projeção do protagonista em seu semelhante. A reflexão sobre o homem é muito bem trabalhada na medida em que William se volta para si, o que leva o conto a um final surpreendente.

Apesar de trabalharem com temáticas aparentemente distintas, ambos os contos tratam do questionamento sobre a posição do homem perante a sociedade e a si mesmo. Enquanto em “O Homem das Multidões” o sujeito se projeta na curiosidade sobre o outro sujeito, para que assim possa refletir sobre a singularidade do homem, em “William Wilson” o sujeito, ao se deparar com seu semelhante, volta-se sobre o que ele é, mas de forma introspectiva.

O que os dois contos nos apresentam, portanto, é o questionamento do sujeito moderno diante da evolução da sociedade do século XIX e uma reflexão sobre seu comportamento em reflexo a essas mudanças. Não obstante, podemos identificar, através dessas obras, que o homem, por mais que seja complexo e individualista, na verdade, é comum e igual a todos os outros quando se põe em questionamento. Logo, o trabalho do sujeito ao se por diante de seu reflexo, o faz perceber que é idêntico ao outro.

2 comentários:

  1. Ótimo texto, inclusive para colher as referências sobre o olhar sobre o indivíduo no início da modernidade.

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  2. Ótimo texto! Inclusive como fontes de referências para o tema.

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