quarta-feira, 10 de junho de 2026

Análise | Dia D (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Mais ou menos pela metade de Dia D, retorno à ficção científica do mestre Steven Spielberg, uma sequência de ação intrincada envolvendo um trem me trouxe à tona um reconhecimento imediato: “rapaz, isso é muito Caçadores da Arca Perdida”. Pouco depois, uma cena de tom bastante diverso, mais melodramático, evocaria as notas mais melosas de Inteligência Artificial e Império do Sol. Uma perseguição de carro iria lembrar a construção de tensão em Tubarão e Encurralado. E, então, quando seletos seres humanos se conectam em um nível praticamente espiritual com a vida extraterrestre, sob os acordes de uma trilha-sonora emotiva, tive de rememorar momentos similares em E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Esta sensação de familiaridade, às vezes até de déjà vu, percorre o novo filme do veterano diretor como atestado tanto da coerência estilística e temática quanto da notabilidade de sua filmografia, tão imitada até hoje.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Análise | O Afinador (2026)



Por Gabriel Costa Resende

O Afinador é o título brasileiro de Tuner, filme de Daniel Roher, diretor ganhador do Oscar com o documentário Navalny (2022). Este lançamento, sua estreia no cinema de ficção, aporta em 11 de junho nas nossas salas de exibição. O nome poderia render uma piadinha pronta para um crítico mais engraçadinho que não tivesse gostado do filme. Consigo imaginar as variantes possíveis de chamada da resenha, a partir da ideia de queO Afinador desafina”. Inversamente, um entusiasta poderia com a mesma facilidade dizer que o filme, a direção ou as atuações estão todos “afinadíssimos”. Permita-me, no entanto, discordar de ambas as hipóteses. Nem afinado, nem desafinado, muito pelo contrário? Em O Afinador, se nem todos os ajustes foram realizados com o esmero de um especialista refinado, também não se pode falar em uma passagem de som malfeita. E está tudo bem: o próprio protagonista, o afinador de pianos Niki (Leo Woodall), lembra à compositora e interesse amoroso Ruthie (Havana Rose Liu) que em sua área profissional a perfeição é inalcançável. Escutemos o recado. Assim como não havia a expectativa de sermos expostos à maestria de um virtuoso, tampouco há motivo para chorar o erro de algumas notas como se elas provocassem imensa dor.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Análise | Natal Amargo (2026)



Por Leonardo Carvalho e Gabriel Costa Resende


INT. SALA DE REUNIÃO – DIA.

Sentados em torno de uma mesa oval, com vários papéis avulsos espalhados sobre seu tampo, Leonardo e Gabriel discutem Natal Amargo (2026), de Pedro Almodóvar. A câmera deverá alternar entre plano e contraplano durante a discussão.

LEONARDO

(Lendo sua anotação).

Em 2004, com o lançamento de Má Educação, muito se questionou acerca das possíveis relações da vida de Pedro Almodóvar com a história desse filme. Apesar de, mais tarde, o cineasta espanhol ter afirmado não se tratar de uma biografia direta, declarou que se baseou em memórias da infância e em lembranças íntimas, culminando no que classificaram como uma película semi-biográfica.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise | Star Wars: O Mandaloriano e Grogu (2026)




Por Gabriel Costa Resende


Em uma cena chave de Star Wars: Os Últimos Jedi, o espírito de Mestre Yoda aparecia para seu antigo pupilo, Luke Skywalker, com uma última importante lição (que eu reproduzirei em ordem sintática mais natural), sugerindo que Yoda talvez fosse leitor de Elizabeth Bishop: “o maior professor é o fracasso”. Com todo o respeito ao poderoso mestre, a sua sabedoria milenar tem se provado bastante lacunar, ou o seu argumento talvez requisitasse maior desenvolvimento de suas premissas, a julgar pelo impacto dos projetos recentes da Disney. Detentora da Lucasfilm, e por extensão dos direitos da franquia Star Wars, uma das mais adoradas do mundo, a fábrica de sonhos vem amargando pesadelos convertidos em decepções de público e/ou crítica, apesar de ter sob tutela tantas marcas de inestimável popularidade. Se havia alguma lição a tirar do fracasso, mentes criativas da Disney parecem estar matando as aulas mais importantes.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Análise | Obsessão (2026)



Por Gabriel Costa Resende

O amor romântico é uma experiência universal, mas não é para todos. Peço desculpas pelo incipit polêmico e meio paradoxal, mas é preciso dizê-lo com clareza. Amar, enquanto iteração possível de sua idealização histórica e estética, não é um verbo que será realmente performado por todo ser humano. Ao mesmo tempo, todo ser humano precisa lidar com a sua onipresença enquanto signo. O amor e suas representações são nosso tema preferido desde que o primeiro poeta decidiu brincar com a linguagem. Enquanto isso, na prática, no empirismo do dia a dia, em muitos (não todos!) casos de pessoas que se “amam”, o apagamento gradual ou a degeneração em outras emoções, muito distantes do ideal de amor alimentado por suas antigas construções simbólicas, será o argumento eventual de que o que se imaginava como amor era, de fato, apenas um efeito de imaginação, um logro dos nossos desejos. Em estruturas sociais inerentemente hierárquicas, o amor é complicado pelo narcisismo e pelo poder, pelo amor ao poder, provavelmente um dos maiores algozes do bem-estar humano (que o digam as mulheres, as que mais sofreram e sofrem com este “embaraço” politicamente orientado). As formas clássicas de amor, se quisermos nos aprofundar um pouco mais em um leve cinismo, são em seu coração um dispositivo de “aculturação” de uma função dada como natural/instintiva da humanidade – o que efetivamente se realiza com o amor "cultural" é o deslocamento de um sentimento animal para um lugar privilegiado no lógos ou no imaginário, isto é, implicando sempre um determinado imaginário e um determinado controle desse imaginário. Por exemplo: na atual conjuntura daquilo que Fisher chama de estágio do "realismo capitalista", em que a imaginação já foi sequestrada pelo mercado, o amor é, mais do que qualquer coisa, uma das commodities básicas de uma agressiva indústria do desejo. Com a sua comoditização, também é esperada a sua ampla disponibilidade – sabemos em nosso íntimo que as coisas, como em todo o terreno do sentimental, não podem ou não deveriam ser tão práticas.

domingo, 3 de maio de 2026

Ensaio | Phármakon de trevas


Por Gabriel Costa Resende

É algo que talvez você devesse ignorar. Principalmente porque acha que é a única pessoa viva na casa. Na verdade, é uma dessas raras noites em que você preferiria ter a certeza de estar só. Uma cantilena baixa e insistente incomoda o seu sono. A rotina que te fez aprender a ouvir seletivamente também te condicionou a ocultar, sob motores e falatórios cotidianos, quaisquer ruídos informes, sem origem rastreável. Ruídos que talvez desde sempre estivessem lá, sorrateiros, ocultos no caos, hoje, justamente quando você presume estar só, decidiram se impor.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Análise | O Diabo Veste Prada 2 (2026)


Por Gabriel Costa Resende

Anos depois de sua experiência agridoce na redação da Runway, maior revista de moda dos EUA, a jornalista laureada Andy Sachs (Anne Hathaway), após ser recontratada como editora pelo CEO do grupo proprietário da revista, que enfrenta uma crise de imagem, reencontra a antiga chefe dos primórdios de sua carreira, Miranda Priestly (Meryl Streep). A confiança adquirida com o sucesso profissional vacila quase imediatamente diante do ícone: a mulher competente e inteligente regride por um instante àquela menina recém-formada ansiando por validação. Pode-se dizer que há um aspecto psicológico em jogo. Afinal, Miranda se notabilizava pelo rigor e pela exigência, no mundo já inóspito das revistas de moda, em proporção que beirava ou ultrapassava o assédio moral. As cicatrizes de um ambiente de trabalho tóxico, transformadas em trauma, podem nunca realmente curar – poucos ambientes imaginários podem se igualar ao infernal das assimetrias abusivas e das diferenças inconciliáveis de um escritório. Contudo, reduzir a reação de Andy a esta impressão seria uma meia cegueira, pois ignoraria que, mais do que o assombro do fantasma de antigos conflitos, o que realmente emana da jornalista veterana é um sentimento de profunda reverência.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Análise | A Maldição da Múmia (2026)


Por Gabriel Costa Resende

A Maldição da Múmia (no original, Lee Cronin’s The Mummy) faz pensar em um dilema antigo do cinema de horror, qual seja: o objetivo prioritário do gênero é mesmo causar medo, inspirar terror? Neste caso, se os efeitos de medo fossem obtidos às custas de coerência narrativa, sensibilidade estética e ética, sofisticação temática, qualidade técnica, o filme hipotético que cumprisse esta função precípua (causar choque/repugnância/medo) poderia continuar sendo considerado bem-sucedido, ainda que a obediência a uma diretriz básica fosse a sua única virtude?

Se a resposta a esse questionamento for positiva, A Maldição da Múmia não é um mau filme. Terceiro longa-metragem do irlandês Lee Cronin, que ostenta sua assinatura no título original (o que é um tanto esquisito, já que a sua carreira é curta e, mesmo que interessante, pouco expressiva – falarei disso mais adiante), há aqui uma compreensão profunda da gramática básica do gênero. O design de som inquietante, a construção de tensão nas sequências de medo e susto, o enquadramento claustrofóbico, a paleta de cores mórbida: um filme de horror que faça bom uso destes recursos, na verdade, é bicho mais raro do que parece. A presença do feijão com arroz bem cozido, e bem servido, é com frequência o suficiente para nos surpreender em matéria de cinema de horror. Filmes igualmente corretos, como o recente O Primata, destacam-se do joio de tentativas fracassadas simplesmente por mobilizarem com mão segura um repertório básico.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Análise | Impetigore - Herança Maldita (2019)

Impetigore - pôster


O que há de mais cativante em uma considerável parcela do terror asiático são os desdobramentos executados pela narrativa por meio de três frentes muito marcantes: a maldição sobrenatural; a investigação dos porquês da existência dessa maldição; a revelação do drama seguida da resolução do problema. Nota-se que, à luz desse molde, que segue mais ou menos essa sequência que evidenciamos há pouco, o horror é o que choca inicialmente, mas conforme a investigação revela as origens sinistras que assolam algo ou alguém, quem passa a chocar mais é o drama.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Análise | O Poço e o Pêndulo (1842)

O poço e o pêndulo - Harry Clarke


O Poço e o Pêndulo (1842) é uma das narrativas mais geniais de Edgar Allan Poe, mestre dos contos de suspense e de horror, que em mais ou menos quarenta anos de vida (1809-1849) construiu uma bibliografia vasta e recheada de obras-primas. Esse texto do autor estadunidense é cheio de elementos instigantes, com destaque, é claro, para aqueles que provocam uma atmosfera de medo, pautada, sobretudo, pela tentativa de o narrador-personagem entender a sua real condição.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Análise | Planeta Fantástico (1973)

Planeta Fantástico - 1973


Na primeira cena de Planeta Fantástico (1973), filme mais renomado do realizador francês René Laloux, nos deparamos com uma situação sufocante: uma mulher, em close-up, tem as suas expressões de pânico destacadas pela narrativa, e alternando com esse enquadramento, por meio de uma imagem um pouco mais panorâmica, ela é vista correndo desesperadamente, ela tenta fugir com o seu filho de colo do local onde se encontra. Nesse caso, além de correr em um terreno plano, ela tenta, dificultosamente, subir uma elevação, só que, surpreendentemente, é por três vezes impedida por um dedo azul gigante, que depois dessas três tentativas da moça chega a expulsá-la violentamente dali com um peteleco grosseiro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Especial | 40 anos de Assassinatos na Fraternidade Secreta (1982)

The House on Sorority Row

São quarenta anos desde o lançamento de Assassinatos na Fraternidade Secreta (1982), dirigido por Mark Rosman, slasher que foi violentamente esquecido ao longo das décadas, mas que acertou em cheio o coração de alguns e que, por isso, guarda até hoje certo grau de saudosismo por parte de um público selecionado. Através de uma breve pesquisa notamos um certo reconhecimento carregado pela película, sobretudo no passado: teve um orçamento, na época, de 425 mil dólares e uma receita de quase onze milhões de dólares; em 2009, ganhou um remake intitulado Pacto Secreto (2009), dirigido por Stewart Hendler. Mesmo assim, o longa-metragem de Rosman parece ter sido varrido com o tempo, é um trabalho pouco encontrado em listas mais específicas sobre filmes de suspense/terror ou até mesmo sobre slashers. A fita, contudo, tem o seu valor.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Análise | Berenice (1835)

Berenice - Edgar Allan Poe

“Berenice” (1835) pode não ser um dos contos mais famosos do mestre Edgar Allan Poe, mas é decerto um dos textos mais impressionantes do autor estadunidense em termos de iniciação, já que a obra é inaugurada com base em afirmações fortes: “A miséria é múltipla. A desgraça do mundo é multiforme” (POE, 2012, p. 191). O narrador, de imediato, agride o leitor, que já está pendido, já nas primeiras linhas, a uma atmosfera negativa e violenta.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Análise | O Gato Preto (1843)

O Gato Preto - Poe

Como geralmente ocorre nos contos em geral de Edgar Allan Poe, os parágrafos de abertura dos seus textos são geralmente pautados por um conteúdo que, de cara, anuncia o horror a ser evidenciado no restante da trama. Em “O Gato Preto” (1843), observamos um campo semântico inclinado ao estresse ditar os primeiros passos da narrativa, em que o narrador-personagem diz que os seus “próprios sentidos rejeitam o que testemunharam” (POE, 2012, p. 81); complementa ainda: “Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram – torturaram – destruíram” (POE, 2012, p. 81).

terça-feira, 22 de março de 2022

Análise | A Máscara da Morte Vermelha (1842)

A Máscara da Morte Vermelha


“A Máscara da Morte Vermelha” (1842) pode não ser um dos contos mais sublimes de Edgar Allan Poe, nem mesmo um dos seus mais conhecidos, mas é decerto grandioso, figura a lista quase infinita de contos seus que são absolutamente engenhosos. Já no primeiro parágrafo, alguns traços brilhantes podem ser encontrados no texto, quando uma poética ambientação, de que uma peste assola uma região, derrama sangue já nas primeiras linhas:

A “Morte Vermelha” devastava havia muito tempo o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. O sangue era seu Avatar e seu sinete – a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas súbitas, e depois profuso sangramento pelos poros, com o óbito final. As manchas escarlates no corpo e especialmente no rosto da vítima eram o banimento pestilente que alijava a pessoa da ajuda e solidariedade de seus semelhantes. E o processo todo de acometimento, progresso e término da doença consistia de meia hora (POE, 2012, p. 143, grifos meus).

quinta-feira, 17 de março de 2022

Análise | Alive: Tsutomu Takahashi (1999)

Alive - mangá



Alive (1999), de Tsutomu Takahashi, é iniciado com um discurso expositivo sobre o caso de Tenshu Yashiro, personagem que havia sido preso por ter matado quatro pessoas, três sujeitos, que violentaram a sua namorada, e mais tarde a sua própria namorada, havendo ainda, no meio disso tudo, uma ocultação de cadáver, uma soma de fatores que o levou à pena máxima, à pena de morte. Na hora do demônio, isto é, no momento em que os carcereiros esperam pela execução, observamos a narração captar cenários obscuros, onde se encontram as masmorras do presídio, marcadas por volumosas sombras e pela presença de expressões esgotadas por parte dos presidiários, donos de rostos tensos e suados, como o do protagonista, que, em uma splash-page, se encontra agachado e com expressão de pânico, sendo logo depois chamado para a sua execução.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Análise | House of Secrets (92): Len Wein

Capa - House of Secrets 92


A primeira edição estrelada pelo Monstro do Pântano, de apenas oito páginas, foi o número noventa e dois da House of Secrets, antiga revista da DC Comics que funcionava como uma coletânea de histórias de mistério e de terror, mais ou menos o que fazia, também, a Tales of Suspense, da Marvel Comics. O debute desse anti-herói pode não ser nenhuma obra-prima, já que possui algumas escolhas duvidosas em relação ao excesso de contextualização e a exposições que soam pouco ou nada espontâneas. A verdade, no entanto, é que de imediato o quadrinho conquistou o público, foi um sucesso de vendas, e ganhou, um ano depois, uma série regular escrita e desenhada pelos criadores originais da trama.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Análise | Bug (2006)

Bug - movie



O cinema do genial William Friedkin é geralmente marcado por uma atmosfera de estresse que se instala no interior das suas películas. Talvez os seus grandes expoentes sejam mesmo algumas das cenas mais famosas do brilhante “O Exorcista” (1973). Nesse exato caso, Friedkin explorou o insólito, o medo e a violência gráfica para conferir a atmosfera de estresse indicada, quando visualizamos uma menininha ser gradualmente tomada pela possessão de um demônio, uma possessão que solidifica, dentro da residência daquela menina, um verdadeiro caos. A atmosfera estressante, no caso, pouco a pouco é intensificada e perde completamente o seu controle, a ponto de ocorrer mortes e de ser solidificado um alto nível de destruição no principal ambiente da trama.

domingo, 19 de setembro de 2021

Análise | O Perfume do Invisível (1986)

Il Profumo dell'Invisibile


O Perfume do Invisível (1986), do famoso quadrinista italiano Milo Manara, toma como principal base de inspiração o reconhecido romance de H.G. Wells, O Homem Invisível (1897), embora essa inspiração seja veiculada somente de maneira implícita na história em quadrinho, não havendo, portanto, referenciações tão claras e tão diretas à obra de 1897. O livro de Wells reverberou em diversas mídias ao longo dos anos, inclusive no cinema, com a famosa adaptação homônima, dirigida por James Whale e lançada em 1933, sendo o mais interessante de tudo, nessas adaptações mais diretas ou mais indiretas, perceber como o aspecto da invisibilidade é trabalhado de modo único em cada uma delas. Se outrora, na literatura e no cinema, tal fator foi capaz de conferir o medo, ele foi capaz de conferir predominantemente o humor na história em quadrinhos de Manara.

domingo, 8 de agosto de 2021

Análise | A Metamorfose (1919)


A Metamorfose (1915), do genial Franz Kafka, é decerto uma referência absoluta, um clássico da literatura mundial, novela dona, também, de uma das aberturas mais impressionantes dentre todas as narrativas literárias já lançadas: 

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta prestes a delizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos (KAFKA, 2012, p. 7, grifos meus).